Paulo Nazareth, "Minha Mãe", 2013, Palmital, Santa Luzia, MG

“Esconjuro”: Paulo Nazareth trabalha maneiras de se relacionar com a terra, entre outros temas, na sua individual mutável em Inhotim

(Brumadinho, MG)

Partindo das relações entre história, território e deslocamentos, Paulo Nazareth traz ao Inhotim a exposição monográfica Esconjuro (2024), na qual tempo-espaço são alargados e conjugados em quatro estações, confirmando a obra do artista como uma presença viva e dinâmica ao longo de 18 meses no local. A individual será modificada três vezes, em ações chamadas “reformas”. Cada uma dessas reformas será baseada na troca e no reposicionamento de obras na galeria, assim como a inclusão de trabalhos nas áreas externas do Inhotim. Essas reformas vão resultar em quatro versões diferentes da mesma exposição, sendo cada uma delas relacionada a uma estação do ano. A mostra, que abriu ao público no dia 13 de abril, em outono de 2024, será reconfigurada na primavera de 2024, no verão e no inverno de 2025.

A partir da Galeria Praça e ocupando também outros espaços do Inhotim, a primeira configuração de Esconjuro é composta por obras que apontam diversas maneiras de se relacionar com a terra, seus ciclos e as transformações que suscitam nos seres. Além disso, os trabalhos refletem práticas de exploração e disputa historicamente conhecidas no território. Com uma linguagem múltipla — de pinturas a instalações — e própria, Paulo Nazareth convoca para um outro modo de fazer, outras maneiras de negociar, planejar, construir, celebrar e colher os frutos num amplo e generoso gesto de reinvenção, em que obras são trocadas, incluídas e reposicionadas ao longo do período da exposição no parque. Entre as diversas outras obras apresentadas, em técnicas como pintura, lambes, vídeos, peças e instalações, está uma série de imagens da mãe do artista, Ana Gonçalves da Silva, representada em diferentes suportes e linguagens – reunidas como “Centro de Cultura, Memória e Lembramento”.

Paulo Nazareth ao lado de sua mãe, foto: Ana Clara Martins

“Casa de Exu” (2015-2024), instalada nos arredores da Galeria Praça, foi a primeira obra construída no contexto de Esconjuro. Importante símbolo da chegada do artista ao Inhotim, ela comunica uma presença e um processo de criação que visa se desenvolver no decurso do tempo, propondo uma nova relação entre tempo e espaço. A obra pode ser interpretada como oferenda, proteção, mas também busca confundir quem se aproxima da encruzilhada que antecipa a galeria, graças ao cheiro da aguardente da cana-de-açúcar que atinge o olfato antes dos outros sentidos.

Para Esconjuro, Paulo Nazareth deu início à formação de um bananal, localizado em uma das fronteiras físicas da instituição. A banana é uma fruta constante em todas as estações do ano, muito frequente nos quintais de casas e sítios de periferias e subúrbios. “Bananal” (2024), enquanto obra de Nazareth, se configura a partir de uma espécie de fruta que há anos habita o território, antes mesmo do Inhotim, alimentando trabalhadores da região e suas famílias. No centro dessa obra-plantação, ancorada abaixo do solo, está uma bananeira fundida em bronze.

Na obra comissionada “Sambaki II” (2024), o artista propõe simulacros de banana prata de concreto, confeccionados nos ateliês de produção do Inhotim, agrupados em formato de um grande monte e ladeado por duas escoras em madeira, onde dois alto-falantes reproduzem o som de uma conversa no idioma crioulo. Registrada por Nazareth, na Vila Perus, em São Paulo, o áudio traz um diálogo com trabalhadores imigrantes da Guiné-Bissau, que o auxiliavam na produção das primeiras bananas de concreto, em 2013. “Em Sambaki I”, o artista combina simulacros de bananas, confeccionados em madeira, e simulacros de bananas de dinamite. Se a madeira foi a primeira riqueza extraída do território brasileiro, a prática da mineração, que dá nome ao território de Minas Gerais, permanece em plena atividade, configurando as poucas instâncias do país com permissão na utilização da dinamite. O acúmulo, monumento e ruína, resultados dos diferentes ciclos de exploração, resultam em experiências e memórias que permanecem cravadas na terra.

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Para Paulo Nazareth, Esconjuro é uma mostra em expansão, que ocupa não somente o lugar do visual, mas também o vínculo com outros sentidos. “Meu desejo, mais do que tudo, é que exista uma conversa com o público, com os funcionários, com a comunidade local. O desejo é que essa mostra seja viva, algo que esteja acontecendo sempre. É uma abertura que precede outras aberturas dentro de si mesma”, comenta o artista. Paulo Nazareth complementa: “A mostra é tanto para humanos, quanto para não humanos ou para diferentes formas de humanidade, como apontam os kaiowás e os boruns. Encher a Casa de Exu com aguardente, por exemplo, precede a abertura no dia 13 de abril. Para mim, esse trabalho transita entre os seres viventes e não viventes. Interessa o espaço da exposição no antes, durante e no depois, que é também o tempo do Bananal, a possibilidade desse trabalho servir a diferentes formas de vida, que os pássaros, os micos e outros bichos venham habitar o Bananal ou comer das bananas que aí cresçam”.

Nazareth foi o vencedor da edição de 2016 do Prêmio PIPA, e tem diversas obras na coleção do Instituto PIPA. Conheça os trabalhos dele que integram a coleção aqui.

Vista da Exposição “Paulo Nazareth. Esconjuro”, em exibição na Galeria Mata e em outros pontos externos do Inhotim. Foto: Icaro Moreno – Instituto Inhotim

“Esconjuro”, individual de Paulo Nazareth
A partir de 13 de abril, até 2025

Inhotim
Rua B, 20, Inhotim. Brumadinho, Minas Gerais, Brasil
Quarta a sexta-feira, de 9h30 às 16h30
Sábado, domingo e feriado, de 9h30 às 17h30


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