“Carlos Vergara: uma poética da exuberância” – leia o texto de Luiz Camillo Osorio para a exposição

Em cartaz na Fundação Iberê Camargo e no MARGS, ambas instituições em Porto Alegre, RS, a exposição “Carlos Vergara: uma poética da exuberância” recebe a curadoria de Luiz Camillo Osorio. No texto da exposição, o curador do Instituto PIPA escreve sobre a importância de Vergara para a arte brasileira e traça um percurso histórico do artista. A exposição está aberta para visitação até 05 de maio de 2024.

Leia o texto a seguir:

É comum no futebol jogadores voltarem aos seus clubes e cidades de origem depois de carreiras de sucesso e títulos internacionais. Algo desta natureza acontece com estas duas exposições de Carlos Vergara em Porto Alegre, na Fundação Iberê e no Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS. Vergara, além de gaúcho, foi assistente de Iberê, em meados dos anos 1960, no Rio de Janeiro. Este período foi uma escola sem igual, onde rigor poético e liberdade criativa eram transmitidos em ato. Já era tempo de uma exposição do aluno consagrado e rebelde na fundação do seu mestre. Juntá-la a uma outra complementar no MARGS, onde parte significativa da memória da arte gaúcha é preservada e atualizada, faz desta ocasião uma verdadeira ocupação Vergara em Porto Alegre. 

Como não poderia deixar de ser, a primeira sala na Fundação Iberê é focada nos anos 1960, especialmente nos trabalhos em papel – pinturas, desenhos e aquarelas – realizados no período em que foi assistente de Iberê. O diálogo é evidente, uma vez que a fluência do traço se deixa infiltrar pela carga expressiva do gesto. Tudo neles é urgência. O jovem Vergara misturava certa revolta existencial, típica da sua geração, à luta contra o regime ditatorial que começava a se instalar no Brasil. 

Além do diálogo com seu mestre, Vergara se apropria da liberdade gestual de Wesley Duke Lee. A linha ganhava densidade política e era mais mancha que contorno. Ela se movimenta pelo papel com fluência, mas o seu tom é grave. Seu desenho parece sempre na iminência do grito, eles não falam baixo. Vergara é mais trágico do que lírico – isso se desdobra pelo resto da sua obra. Outra marca de sua relação próxima com Iberê no começo de sua trajetória.

Não obstante esta dimensão trágica, presente na expressividade do gesto e na tendência sombria de sua paleta de então, há uma abertura para olhar o mundo em sua intensidade vital. Vergara olha em todas as direções, tem interesse genuíno pelo que rola à sua volta, daí sua exuberância plástica e visual. Isso o leva a “olhar para fora”, como ele gosta de dizer, de modo a explorar as intensidades episódicas que irrompem no meio do caos, da opressão, da desigualdade. 

A série do carnaval, no início da década de 1970, começa a partir deste desejo de vida pulsando nas esquinas. A festa popular não era olhada pelo lado folclórico, mas pela sua capacidade de resistência ao status quo, pela produção de formas de vida e de comportamento heterogêneos. O foco desta série é o bloco Cacique de Ramos e seus desfiles pelas ruas do centro do Rio. Evidencia-se aí o enfrentamento, ou melhor, o enlouquecimento das convenções. 

O carnaval de rua, se não é luxuoso e operístico como o das escolas de samba, tem uma alegria dionisíaca peculiar. A festa popular é o momento em que subjetividade e sociabilidade se deixam atravessar por uma necessidade de transformação. O indivíduo e a sociedade estão livres para tornarem-se outros. A desorganização dos blocos dava-lhes um suplemento de potência política. 

O que se vê nestas fotos é que junto à exaltação do sujeito em êxtase, fora de si, insinua-se também um sentimento de abandono que incute um travo de tristeza ao delírio carnavalesco. As potências de comunhão e de abandono curiosamente convergem. 

Interessante pensar no modo como as séries de Vergara se deslocam no tempo e vão incorporando outras experimentações plásticas. As impressões sobre cobertor de fotos da década de 1970 do Cacique é um desdobramento recente a partir de sua série Liberdade (2010), feita a partir da implosão do complexo prisional da Frei Caneca: marginalidade social, resistência política e energia visual desdobram-se em dois momentos distintos de sua trajetória, com quase 40 anos de distância. As linguagens se multiplicam, os tempos se embaralham, a poética de Vergara está sempre se reinventando.  

Ao longo dos anos 1980 sua obra desloca-se da rua e da fotografia, para a experimentação pictórica. Alguns caminhos se abriram nesta fase, das grades abstratas à exploração de pigmentos naturais e à reconfiguração dos processos de captura e apropriação. As pinturas de bocas de forno são um dos momentos mais intensos dessa experimentação, que se desdobra até o presente.   

O artista, tão recorrente a partir de 1990 com as muitas viagens de investigação artística e antropológica de Vergara, é o desdobramento daquela decisão inicial de olhar para fora, de explorar poeticamente uma inquietação existencial. Filho de um Reverendo da Igreja Anglicana, ele desde sempre interessou-se pela abertura espiritual inerente à condição humana. Sendo gaúcho, oriundo de um território de fronteira, viveu o entrechoque de identidades e diferenças. 

As monotipias que começam neste período, feitas nos fornos, nos chãos e nas paredes, na natureza e na arquitetura, impregnadas de tempo e de vida, estruturam-se posteriormente no ateliê. Depois de deslocados do contexto da impressão, via impregnação, são retrabalhadas com cor ou simplesmente com uma fixação mais rigorosa com resina. Em outros casos, a simples documentação de um momento de calor e fumaça são suficientemente eloquentes e justificam sua existência. As cores de Vergara saem da natureza, da terra, dos pigmentos minerais, mas se dispõem a uma sensualidade que não teme o incêndio da presença pictórica. 

O desafio – deslocar e traduzir – segue na série Liberdade, a partir de 2010, quando se dá a destruição definitiva e a última implosão do complexo penitenciário da Frei Caneca. O curador Moacir dos Anjos em texto sobre esta série faz uma observação interessante sobre as fotografias e pinturas aí produzidas. “São imagens que reclamam um pertencimento àquele lugar, ao mesmo tempo em que sugerem não ser possível anotar visualmente a experiência que foi vivê-lo. (…) É papel da ficção, afinal, tornar possível entender o que de fato se passou”.

Sempre disposto a se reinventar, Carlos Vergara segue olhando em muitas direções, potencializando visualmente séries anteriores e criando novas que alimentam um desejo absurdo de assimilar o presente e dar-lhe densidade visual. Isso tira dele qualquer traço de nostalgia e o obriga a estar à altura dos desafios do mundo contemporâneo. 

Ao longo de 60 anos de trajetória, Vergara transformou continuamente sua linguagem e procedimentos criativos, tomando caminhos inesperados, assumindo riscos e recusando todo tipo de acomodação. A cada deslocamento a obra se renova. 

É raro vermos um artista tão ávido pela aventura poética e pelo encantamento visual. Sem medo dos excessos, ele se apropria de novos suportes e das novas tecnologias, sem abandono das linguagens tradicionais. Seja pelo registro fotográfico, seja por uma pequena impregnação em um lenço de bolso, seja mesmo em uma tela, qualquer coisa que o surpreenda é apropriada, incorporada e recriada. Aquilo que nela está continuamente nos mirando e seduzindo, é sua força de vida.

Luiz Camillo Osorio



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