UÝRA, "Performance Espiral da morte", Vista da exposição "AQUI ESTAMOS", MAM Rio, 11 dez. 2022, foto por Fabio Souza

Individual de UÝRA no MAM Rio reúne histórias de pessoas indígenas em diáspora

(Rio de Janeiro, RJ)

Diferentes vozes, cada uma com seu ritmo e timbre. Diferentes rostos, traços, nomes e histórias. Todos eles fazem referência a uma mesma realidade: a dos povos originários deste território que conhecemos como Brasil. AQUI ESTAMOS, exposição individual de UÝRA, uma das Artistas Premiadas do PIPA 2022, reúne múltiplas experiências de pessoas indígenas em diáspora, contadas por meio de sons, imagens e narrativas que se enraízam pelo espaço expositivo do MAM Rio. A mostra é a terceira do programa Supernova de individuais, configurando um projeto concebido para o museu carioca com curadoria de Beatriz Lemos.

Artista visual, pesquisadora, educadora e mestra em Ecologia nascida em Santarém (PA), UÝRA utiliza o corpo como suporte para narrar histórias de diferentes naturezas, por meio de performances e instalações. Ela é indígena em retomada, habitante da periferia de Manaus. Trabalha a partir de uma relação com o território para criar manifestações materiais de presenças indígenas, seja a partir de sua própria identidade ou de outras pessoas indígenas com as quais trabalha. Sua poética foca na procura da autoestima coletiva e da continuidade da vida, ressaltando a abundância de experiências dos parentes indígenas com o espaço, a memória e o tempo, estimulando encontros e a criação de vínculos. Sobre sua prática, UÝRA explica: “Atuo principalmente criando imagens que refletem diferentes naturezas. Tanto a natureza que compreendemos enquanto indígenas – das coisas vivas em estado de liberdade (os bichos, a gente, o rio, o vento) –, quanto uma outra natureza estranha, das violências às quais somos continuamente submetidos e forçados a nos acostumar”.

UÝRA, Vista da exposição “AQUI ESTAMOS”, Faixas expostas no Foyer, 11 dez. 2022, MAM Rio, foto por Fabio Souza

Em contraponto aos apagamentos históricos perpetuados no presente, as pessoas que aparecem em AQUI ESTAMOS trazem histórias raramente contadas e reafirmam sua posição no mundo. Seu modo de existir é, ao mesmo tempo, individual e coletivo, e catalisa tanto o ato de reconhecer quanto o de pertencer. Resultado de um processo de pesquisa e de encontros realizados pela artista em várias regiões do Brasil, as obras iniciam um trabalho de mapeamento e interconexão entre indígenas, principalmente em contextos urbanos, seguindo linhas de parentesco construídas a partir da terra e de contatos possibilitados pelas águas: “Primeiro nos levaram as terras, os territórios. Junto a isso, um etnocídio com o apagamento de nossas culturas, nos deixando com os corpos vivos e diferentes apelidos. Quando não sabemos quem somos, quando já não temos um território, quando já não temos a nossa cultura e perdemos a identidade, a colônia vence e nos leva tudo”, anuncia UÝRA.

UÝRA, Vista da exposição “AQUI ESTAMOS”, MAM Rio, 2022-2023, foto por Fabio Souza

De acordo com a curadora Beatriz Lemos, AQUI ESTAMOS lida com a diáspora indígena e a importância de um levante atual de pessoas racializadas que vivem em contextos urbanos e desconhecem suas descendências: “Ser indígena sem qualquer possibilidade de rastreamento de seu povo é o resultado de uma série de massacres sucessivos, de um genocídio colonial e um deslocamento forçado. Hoje, há um movimento de retomada e de resgate da identidade desses indivíduos que se entendem indígenas longe do contexto aldeado ou do contato com um povo específico. AQUI ESTAMOS tem a intenção de afirmar que os indígenas estão em todo lugar e não somente na floresta”, analisa a curadora.

Entre os trabalhos apresentados está a instalação “NOSSAS CARAS”. São 44 rostos registrados pelo olhar da artista, com gestos, expressões e semblantes que apresentam subjetividades indígenas e representam milhões de outras faces no Brasil. A obra “NOSSAS HISTÓRIAS” convida o público a se sentar em esteiras para escutar as vozes das 44 pessoas fotografadas, que narram suas próprias vidas. Os áudios revelam genealogias e relações que constituem o Brasil, também em sonhos e memórias. A oralidade oferece múltiplos contornos para a realidade indígena e estimula a permanência dessas histórias no mundo.

UÝRA, “NOSSAS CARAS”, Vista da exposição “AQUI ESTAMOS”, MAM Rio, 2022-2023, foto por Fabio Souza

Um percurso de folhas pela parede acompanhado por uma cronologia da diáspora indígena na Amazônia e as violências empregadas desde o período colonial até os dias de hoje, ao longo de 130 verbetes, compõem a obra “NOSSOS RASTROS”. O percurso das folhas, em linhas curvas e redemoinhos, ecoa um percurso adotado pelas formigas e conhecido como “espiral da morte”, em que os insetos encontram uma estratégia de sobrevivência a partir do reconhecimento entre pares. Essa imagem remete aos escapes realizados por pessoas e coletivos indígenas frente às armadilhas coloniais.

Assista abaixo ao vídeo da montagem, em que UÝRA conta mais sobre a proposta da mostra, que busca estabelecer diálogos, marca “as diversas formas de ser e estar indígena” atualmente, combatendo a imagem única criada, e na qual é discutido também os impactos do apagamento histórico praticado contra pessoas indígenas no país. Como a artista afirma no vídeo, “A exposição é um convite para que nesse tempo do agora a gente possa enxergar com franqueza e dignidade as verdadeiras histórias que formam o Brasil, principalmente as dos povos indígenas, que estão nesse território desde antes de sua invenção.”

“Programa Supernova: UÝRA | Aqui estamos”
De 11 de dezembro de 2022 até 29 de maio de 2023

MAM Rio
Av. Infante Dom Henrique, 85, Aterro do Flamengo – Rio de Janeiro, RJ
Quintas, sextas, sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h
Aos domingos, das 10h às 11h, visitação exclusiva para pessoas com deficiência intelectual
Tel: (21) 3883-5600
Ingressos:
Contribuição sugerida, com opção de acesso gratuito
Valores sugeridos:
Adultos: R$ 20; Crianças, estudantes e +60: R$ 10
Ingressos on-line aqui


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