Vista da exposição "Onde a Terra dobra", individual de Marina Camargo na Galeria Superficie, São Paulo, 2023, foto por: Marina Camargo

Marina Camargo questiona representações cartográficas na individual “Onde a Terra dobra”

(São Paulo)

A Galeria Superfície abre seu programa de exposições de 2023 com Onde a Terra dobra, individual de Marina Camargo, artista recém representada pela galeria. A mostra apresenta um conjunto de oito trabalhos que revelam um vocabulário próprio da artista ao questionar representações cartográficas.

Partindo da ideia de que todo mapa guarda uma dimensão ficcional, Marina manipula, transforma e reestrutura narrativas cartográficas, alterando os sentidos históricos, econômicos, políticos e sociais que regem essas representações. Como textos sem palavras, seus desenhos investigam o lugar falho desses modelos: aquilo que permanece incompleto nos relatos do mundo.

Vertendo sua produção sobre diversos suportes — ora em instalações tridimensionais, borracha ou metal, ora na forma de desenhos, fotografias ou pinturas —, Marina Camargo atribui uma corporeidade aos mapas que não pertence à natureza da cartografia, remetendo a uma dimensão escultórica das formas.

Vista da exposição “Onde a Terra dobra”, individual de Marina Camargo na Galeria Superficie, São Paulo, 2023, foto por: Marina Camargo

Confira abaixo o texto de apresentação da mostra, escrito por Taisa Palhares:

“A exposição ‘Onde a Terra Dobra’ de Marina Camargo apresenta um conjunto de trabalhos cujo elemento comum reside na relação poético-imaginária que estabelecem com a ciência cartográfica, a partir de intervenções e recombinações que desdobram os múltiplos sentidos latentes no exercício de confecção dos mapas. Como um saber que remete à pré-história, a cartografia em seu âmago caracteriza-se por um processo de tradução de uma realidade tridimensional e esférica para o plano bidimensional da representação. Por isso, mesmo que ao longo da história e do desenvolvimento da técnica tal saber se insira no campo do conhecimento científico, as escolhas que são necessariamente realizadas para a efetivação desse processo de tradução/interpretação abstrata do espaço físico criam lacunas que implodem, de saída, seu caráter objetivo. Por mais que os novos softwares permitam um grau de exatidão maior no mapeamento da superfície, a terra segue seu ritmo geológico constante de mutação, deslocando lentamente suas linhas e fronteiras.

Logo, não é exagero supor que a vontade de dominação da natureza, alicerce do pensamento moderno, possua um lado ilusório e ficcional. Camargo explora em seus trabalhos o elemento lúdico originado nas frestas entre o desenho dos mapas (ou qualquer forma de linguagem representacional) e sua interpretação, a partir da experiência de deslocamento que também é pessoal e corpórea. Como alguém que vive entre duas culturas, no Brasil e na Alemanha, a artista percebe as distorções contidas nessas representações que, no fim, possuem uma estrutura narrativa subjacente a seu pretenso valor utilitário. Pois cada escolha, cada traço, cada forma, engendra um olhar particular para a história que, de resto, não é universal, como mostra o conjunto ‘Notas sobre a História Universal’ (2018). Neste trabalho, a artista se apropria de imagens fotográficas de um atlas antigo e as encobre com tinta spray preta, deixando uma pequena ‘janela’ em cada foto, como um fragmento que potencializa o sentido de recorte que preside toda visão.

Mover fronteiras, imaginar novos espaços físicos e mentais, dobrar o rígido, reconstituir o corpo físico e mutante pela distorção da forma abstrata e fechada, é o jogo que constitui as esculturas da série Mapas-moles (2019-2023). Nesses trabalhos, a artista parte do desenho exato dos continentes que ao serem transpostos para a borracha perdem a fixidez dos mapas, ou melhor, criam outras formas. A aparência orgânica dessas esculturas e seu material remetem o espectador às ‘Obras moles’, de Lygia Clark. Também para Marina Camargo, a reconstituição da dimensão tátil da experiência espacial é um ponto central para compreensão de sua poética. Nós ‘conhecemos’ o mundo por meio da fricção corporal, do toque, do olho e dos sentidos encarnados. Essa compreensão não pode ser contida numa pura abstração distanciada, como pontua o vídeo ‘Detecção de latitudes e longitudes’ (2021). Neste sentido, a arte, enquanto veículo dessa experiência pela linguagem (ou linguagens), é capaz de transformar a incerteza e a mudança em material para novas organizações imaginárias, como no conjunto de desenhos sobre folha de madeira ‘Geografias desdobradas’ (2020-2023).

Em Songlines (2019-2021), a artista transforma fragmentos de desenhos de fronteiras políticas entre países em notas para uma partitura que pode ser livremente interpretada por diferentes compositores. Esse gesto, mínimo e delicado, faz lembrar que afinal toda grande tradução acarreta um acréscimo de sentido àquilo que traduz, como uma abertura utópica ao infinito. Depois de vivermos a situação inédita de um isolamento forçado, cujo efeito ainda não conseguimos mensurar, o trabalho de Marina Camargo vislumbra na recriação de relações menos engessadas para além das fronteiras estabelecidas, um caminho a seguir na era pós-pandemia.”

Acesse mais imagens de trabalhos da exposição aqui.

Vista da exposição “Onde a Terra dobra”, individual de Marina Camargo na Galeria Superficie, São Paulo, 2023, foto por: Marina Camargo

“Onde a Terra dobra”, individual de Marina Camargo
De 09 de fevereiro a 15 de março de 2023

Galeria Superfície 
Rua Oscar Freire 240, 01426 000, São Paulo, SP
Terça a sexta, 10h–19h; sábado, 11h–17h
T. +55 11 3062 3576
info@galeriasuperficie.com.br


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