“Pujança editada”, 2020, video mapping

Ocupação dos Artistas Premiados do PIPA 2022: Coletivo Coletores

Bem-vindes à Ocupação dos Artistas Premiados do PIPA 2022! Até o dia 29 de outubro, os premiados desta 13a edição compartilham com o público virtual do Prêmio PIPA vídeos, fotos e textos – alguns exclusivamente elaborados para a ocupação. A cada semana, um artista apresenta sua obra. De 24 a 29 de outubro, o Coletivo Coletores (veja a página dos artistas aqui no site) exibe alguns trabalhos recentes e fala sobre sua produção digital.

Nesta edição, o Prêmio PIPA reforça o formato adotado desde 2021 de receber indicações de trajetórias recentes. Este ano, o Prêmio foi direcionado para artistas que tiveram sua primeira exposição no máximo há 15 anos. O foco do PIPA neste momento é incentivar artistas em início de carreira que desenvolvem uma produção diferenciada.

O material abaixo, publicado diariamente, está disponível em versão reduzida também nas redes sociais do Prêmio. Fique de olho e nos acompanhe nas plataformas InstagramTwitter e Facebook.

E lembre-se que os Artistas Premiados estão sendo apresentados também na exposição em cartaz no Paço Imperial, no Rio de Janeiro até o dia 29 de outubro. Será um prazer te receber por lá!


Dia 01:

São Paulo, SP, 2008
Atua em São Paulo, SP

Indicado ao Prêmio PIPA 2022

Formado em 2008 na periferia da Zona Leste da Cidade de São Paulo pelos artistas e pesquisadores Toni Baptiste e Flávio Camargo, o Coletivo Coletores tem como proposta pensar as cidades como meio e suporte para suas ações utilizando diferentes linguagens visuais e tecnológicas, discutindo temáticas ligadas às periferias, apagamentos históricos/culturais, assim como o direito à cidade. O Coletores já participou de diferentes projetos ligados à tecnologia, arte e cidade com exposições e projetos em instituições, como Museu da Língua Portuguesa, FILE, FONLAD – Portugal, Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, Instituto Moreira Salles, Rede Sesc, Red Bull Station, Centro Cultural São Paulo, SPURBAN, British Council, Bienal de Arte Contemporânea de Dakar, além de ser premiado pelo PROAC por Histórico de Realização em Artes Visuais 2021 e receber indicações ao Prêmio PIPA 2022 e ao MVF Awards 2021.

O Coletivo Coletores possui um histórico de curadoria e atuação com projetos em arte educação, direitos humanos e direito à cidade desenvolvendo colaborações com instituições, coletivos, marcas e empresas.

Para a indicação no PIPA 2022, os artistas conversaram com a equipe da Do Rio Filmes sobre alguns de seus trabalhos. Ouça a fala no vídeo abaixo:


Dia 02:

No segundo dia de Ocupação, o coletivo Coletores compartilha com o público virtual do PIPA uma série de trabalhos em video mapping. A dupla, Toni Baptiste e Flávio Camargo, utiliza a técnica de projeção digital como forma de subverter tanto os monumentos onde são expostas as imagens produzidas por eles mas também os espaços tradicionais de arte. As discussões propostas pela dupla, como memória, apagamento cultural e direito à cidade passam a ocupar o espaço urbano e não apenas o interior de instituições. Assim, eles atuam politicamente na disseminação de pautas sociais.

Veja abaixo o registro de alguns trabalhos em video mapping:


Dia 03:

Todo ano, o curador do Instituto PIPA Luiz Camillo Osorio conversa com os Premiados do PIPA. Este ano, Toni e Flávio, do Coletivo, foram entrevistados pelo curador e falaram sobre a formação do coletivo, a atuação nos espaços urbanos e também sobre o uso da tecnologia para expandir a disseminação de sua arte, como a técnica de pixo digital e video mapping. Leia a conversa completa abaixo.

LCO – Gostaria de começar perguntando sobre a formação de vocês e do Coletivo Coletores. Começou como um coletivo de arte ou como militância político-cultural? Essas coisas estão juntas ou separadas no vosso trabalho?

CC: Iniciamos o Coletores em 2008 na periferia da Zona leste de São Paulo, dentro da universidade, estudávamos na mesma turma de licenciatura em Artes Visuais, começamos a trabalhar juntos em um trabalho de grupo em uma disciplina de história da arte e o nome Coletores vêm dos estudos que fizemos juntos sobre povos nômades, que tinham como principais características a coleta, a bricolagem, a coletividade assim como a ausência de uma moradia fixa. Desde o nosso primeiro projeto o foco estava na discussão sobre território, a ocupação da cidade, o direito à cidade assim como a falta de instituições culturais e a falta de investimentos nas pessoas e histórias que vinham das periferias, nesse sentido o trabalho sempre teve um caráter político e sociocultural. Simultaneamente a esse processo iniciamos nosso trabalho ligado à arte educação, atuando como professores na rede pública de ensino do Estado de São Paulo e desenvolvendo projetos artísticos com ateliês abertos e transitórios, realizando projetos via editais, Sesc, museus e colaborações com ONGs, coletivos ou outros artistas.

Terminamos a Universidade em 2010 e em 2011 cursamos juntos uma pós graduação em Design e humanidade pela FAU-USP. Em  2019 Toni Baptiste recebeu o título de mestre em Ciência da Informação pela ECA-USP, desenvolvendo pesquisas ligadas à arte, tecnologia e cidade em diálogo com movimentos culturais insurgentes.

Por não termos um espaço físico de produção, o caráter colaborativo da nossa produção está em constante transformação, buscando sempre conciliar nossos valores, junto com as demandas dos espaços que nos recebiam, gerando uma espécie de escultura social (aproximado com a pesquisa do Beuys) assim como projetos artísticos de caráter relacional (no sentido de Nicolas Bourriaud). Nesse sentido, arte, política, educação e tecnologia passaram a ser característicos ao longo dos nossos 14 anos de produção. Gerando colaborações das mais ímpares possíveis. Desde fazer um atelier itinerante voltado à formação de adolescentes e jovens, ou a ocupação de praças wifi da cidade de São Paulo, ou a desenvolver um trabalho com a secretaria da Saúde discutindo os cuidados sobre a COVID19, chegando até a desenvolver um HUB que projetou a obra de mais de 20 artistas pretos e indígenas de várias partes do Brasil, se tornando uma das maiores ações antirracistas em território nacional.

LCO – Como a comunidade da zona leste onde vocês surgiram respondeu aos projetos do coletivo coletores? Li uma comparação que vocês fizeram entre os coletivos periféricos de hoje e as festas que a geração dos pais de vocês frequentava nos anos 1960 e 1970 – festas que não eram só para o lazer, mas também um momento para organizar os mutirões, discutir a implementação de uma linha de ônibus na comunidade etc. Como é esta articulação entre arte, festa, engajamento e comunidade?

CC: Somos de bairros dos extremos da zona leste da cidade de São Paulo. o Toni é de São Mateus que faz divisa com Santo André e o Flávio é de São Miguel Paulista que faz divisa com Guarulhos, nós estudávamos em Itaquera, um bairro que fica no meio do caminho entre os nossos bairros. No início, começamos articulando com outros coletivos e eventos próximos a essas regiões, e aos poucos fomos indo em direção mais ao centro chegando à região da Penha.

No nosso olhar, quem vem de uma criação em uma região periférica já possui em seu DNA um olhar para a coletividade de forma implícita ou explícita, quer seja por muitas famílias serem grandes e dentro de casa você já precisar a aprender o que é conviver e compartilhar ou por questões ligadas ao dia a dia periférico, as feiras, as festas, o futebol de várzea, as rodas de samba, as rodas de capoeira, a religiosidade ou as culturas urbanas como: Pixo, Skate, Soundsystem, o movimento Hip Hop, o funk e mais recentemente a comunidade Ballroom. São alguns dos exemplos de manifestações coletivas que historicamente lutam, à sua maneira, para fazer o direito a existir e o direito à cidade acontecerem. Com um processo de pesquisa e escuta das pessoas mais antigas fomos compreendendo que as nossas organizações de hoje na contemporaneidade são continuidades de movimentos ancestrais que vêm de povos originários de antes da invasão, passando pelos quilombos, terreiros até chegar nas movimentações que temos hoje. Foi a partir dessa constatação que percebemos que o nosso trabalho só faria sentido se incorporássemos a discussão sobre memória em nossa produção, sobretudo,sobre tudo, memórias que foram apagadas da história, que impedem que façamos essas conexões ancestrais de forma direta.

LCO – Pelo que vi, o coletivo surgiu da ideia de pensar a cidade como uma plataforma para ações artísticas. Pensando de forma coletiva e agindo de forma colaborativa. Como se dá este processo? Como eleger um espaço ou um território novo de intervenção? Imagino que em cada caso com parceiros e colaboradores novos.

CC: Temos algumas manias e formas de produzir que são muito particulares, gostamos de andar pela cidade, perguntar as histórias dos lugares, quando produzimos com algum artista ou instituição sempre gostamos de entender o contexto do território. Na sequência montamos cartografias/diagramas mentais ou em desenho, dos quais, sempre conversamos e vamos procurando pontos em comum. Uma característica que gostamos de abordar sobre os lugares que intervimos é a discussão sobre apagamento, isso é uma prioridade no que fazemos, pois, um dos elementos da nossa ação é ativação ou ressignificação desses lugares. E para cada local ou ação, elaboramos contextos diferentes, mas que podem dialogar entre si. Por exemplo, fizemos recentemente um projeto para comemorar os 400 anos da reconstrução da capela de São Miguel Paulista, uma capela que possuipossuí pinturas parietais realizadas por indígenas, recentemente fizemos também uma intervenção para falar sobre a igreja dos homens pretos do Paissandu, em comum, ambas igrejas passaram por processos de apagamentos históricos e processos de reconstrução e ambas estão ligadas a povos historicamente perseguidos e marginalizados.

LCO – Vocês também falam que a produção acontece em trânsito, sobretudo na periferia. Vocês atuam mais na elaboração de processos, pensando a cidade como um fluxo atravessado por conflitos a serem encaminhados e transformados. Ou seja, é uma ideia de arte pública que não reproduz a lógica monumental, inventando uma espécie de performatividade pública. Faz sentido isso? 

CC: É justamente isso o que fazemos, chamamos isso de vídeo performance projetiva, procuramos atuar em espaços com diferentes públicos e contextos, entendemos que a arte é para qualquer pessoa, então procuramos sempre uma forma de estar em público ou ressignificar espaços para que a relação arte e público aconteça, não importa se é um ciclo de performances de uma galeria, um museu, uma festa, uma oficina, uma escola, um centro cultural ou até mesmo um monumento. A vídeo performance projetiva ocorre quando temos autorização para estar nesse local e podemos pensar de forma muito mais profunda as relações que o trabalho pode promover. Desenvolvemos um projeto de vídeo e algumas vezes de som sincronizado, pensando cada elemento do espaço, elaborando uma equação com: espaço + público x tempo / pelo conteúdo. É a partir deste conjunto que conseguimos elaborar nossas ações e procuramos estender isso para outros projetos que somos convidados quer seja como artista, colaborador ou consultor.

LCO – A utilização de recursos tecnológicos é parte essencial das ações do Coletivo. É assim desde o começo? Podem falar um pouco do projeto pixo digital – como ele funciona?

CC: A utilização dos recursos tecnológicos permeiam a nossa produção em diferentes momentos, mas podemos afirmar que não é o essencial das nossas ações, visto que a maioria delas também pode ocorrer de outras maneiras, o que ocorre é que dentro da nossa pesquisa, existe a reflexão sobre os usos das tecnologias nas cidades, portanto, utilizar os recursos tecnológicos nos permite acessar lugares e refletir sobre o nosso mundo a partir de uma práxis que só se faz possível, por quem utiliza esses recursos. Temos uma origem na periferia de São Paulo e mesmo com os delays e os apartheids tecnológicos, existe uma forma muito particular sobre os usos das tecnologias por quem vêm dessa realidade e isso nos interessa. Quando começamos a utilizar os recursos tecnológicos, por exemplo, foi em um contexto do qual a tecnologia permitiu que elaborássemos uma espécie de hacking dos circuitos artísticos e culturais, abrindo caminhos para que utilizássemos outros elementos e linguagens artísticas da nossa produção. Se colocarmos em uma balança veremos que em nossa produção, a carga de história, filosofia, desenho ou arquitetura é muito mais pesada do que o uso dos meios tecnológicos em si, viemos de uma escola do design da qual quem cria precisa acompanhar todo o processo de um projeto, incorporamos isso em nossa forma de fazer arte e desse modo, procuramos entender se a tecnologia cabe ou não em determinado processo.

No caso do “pixo digital” é isso que ocorre, nós viemos de uma formação das ruas antes da formação na academia, aprendemos com o pixo (que é uma atividade considerada ilegal) formas de olhar, hackear e ocupar a cidade, ao mesmo tempo desenvolvemos modos para visibilizar nossas ações no espaço urbano, o pixo tradicional é basicamente tinta, um suporte e a vontade de ocupar um espaço, é uma forma de arte efêmera. O que fazemos com o digital é tensionar essas possibilidades, transformar algo que já é efêmero em algo mais efêmero ainda, aproximando o pixo com a performance ou até mesmo site specificspecífic. Se o pixo é estático temos com o digital a possibilidade de incluir movimento, e como fazemos sem autorização, mas estamos trabalhando com luz, isso não configura crime ambiental como é considerado com o pixo tradicional. Permitindo dessa maneira, uma atuação com maior fluidez por diferentes territórios.

LCO – Como foi para vocês que atuam na rua este longo período da pandemia? Foi possível migrar e atuar no mundo online? 

CC: Para nós foi algo muito difícil, primeiramente pela perda de pessoas muito próximas vítimas da COVID-19 e ao mesmo tempo foi complicado pela falta de recursos, visto que as principais instituições culturais do Brasil, não deram conta de incluir em seus editais emergenciais um olhar para as periferias ou lugares fora dosdoas grandes circuitos. Foi um processo de retornar às raízes e fazer ações de guerrilha sem nenhuma remuneração focando em projetar ou produzir conteúdo online para informar as pessoas sobre os cuidados ligados àa prevenção da COVID-19. Nesse período a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo viu o nosso trabalho e abriu caminho para que pudéssemos propor ações ligadas à saúde em outras periferias para além da zona leste (que é onde moramos), fizemos ações pelas 5 macro regiões de São Paulo, intercalando bairros dormitórios, hospitais e centros culturais. Esse projeto teve uma grande repercussão o que acabou nos levando a outro projeto muito importante chamado “Vozes contra o racismo”, que contou com a curadoria do Hélio Menezes. Nesse projeto elaboramos um percurso que realizou intervenções artísticas na cidade de São Paulo, projetando obras de artistas pretos e indígenas. Foi uma ação bem bacana, e podemos destacar o projeto que fizemos com o DenilsonDenílson Baniwa chamado “Brasil terra indígena” que foi realizado no monumento às bandeiras. Em resumo, foi que no início da pandemia foi muito difícil e aos poucos a característica da nossa produção permitiu que não só mantivéssemos a nossa produção, mas também expandiu as formas de nos conectar e produzir junto com outros artistas ou instituições.

LCO – Como tem sido a circulação nas instituições de arte? Como foi ter recebido o prêmio PIPA? Quais os planos e novos projetos do Coletivo Coletores?

CC: Os últimos 4 anos têm sido bem interessantes para nós, expandimos o desenvolvimento de projetos e colaborações com artistas, coletivos, espaços culturais independentes e instituições de arte mais tradicionais, sentimos que os espaços estão mais abertos para outras formas de se pensar e se fazer arte. Tivemos a honra de participar da Bienal internacional de arte contemporânea de Dakar em 2018, acabamos de participar da Bienal internacional de arquitetura de São Paulo, desenvolvemos projetos colaborativos com o Instituto Moreira Salles em São Paulo, com o Museu da Língua portuguesa e agora também como o Museu das Favelas, ao mesmo tempo que grandes meios de comunicação especializados em arte e arquitetura tem nos entrevistado, o canal Arte1, a revista Contemporary &, Revista Bravo!, Arte Brasileiros são alguns dos canais que conversamos nos últimos 2 anos. Então quando ganhamos o prêmio PIPA, sentimos como a finalização de um primeiro ciclo de quase 15 anos de trabalho e simultaneamente uma abertura de caminhos para que outros circuitos, espaços, artistas ou instituições conheçam o nosso trabalho. Atualmente estamos desenvolvendo um curta metragem de animação, um álbum musical com as trilhas sonoras de todas as nossas performances e também o livro de 15 anos de trajetória. E ao mesmo tempo estamos aprofundando nossa pesquisa em alguns temas ligados aos apagamentos de memória.


Dia 04:

No quarto dia, o Coletivo Coletores compartilha um vídeo feito especialmente para a Ocupação. Nele, Toni e Flávio exibem vários trabalhos desenvolvidos ao longo da formação do Coletivo, em São Paulo e em outras cidades. Também falam sobre a premiação do PIPA e o que significa pra trajetória do coletivo, que busca ocupar espaços urbanos, adentrar as instituições de arte.

Veja o vídeo completo abaixo:


Dia 05:

Além da técnica de video mapping, o Coletivo Coletores também utiliza outras tecnologias para abordar a temática do direito à cidade, da memória, entre outros. Uma delas é a projeção em led trucks, em que os artistas colocam frases em carros com painéis de led e rodam espaços públicos com diversas mensagens. Dessa forma, Toni e Flávio subvertem a ideia do led truck, um veículo usado para promover propagandas e campanhas de marketing – ou seja, incentivar o consumo. O coletivo, por sua vez, propõe ao carro uma ação artística. As três últimas fotos são da abertura da Exposição dos Premiados do PIPA 2022, no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em que os artistas fizeram uma ação ligando o Valongo, local onde pessoas escravizadas aportaram no Rio, ao Goré, de onde foram levadas no Senegal.

Os Coletores também criam no universo da música. Ouça abaixo a vídeo performance “Nego”, rap criado pelos artistas para denunciar frases racistas comumente escutadas por pessoas negras no país.


Dia 06:

Para a Premiação no PIPA 2022, Toni e Flávio solicitaram um texto crítico de Giselle Beiguelman para integrar o catálogo desta edição. Leia o texto na íntegra:

Coletivo Coletores: entre as imagens do avesso e o invisível visível
por Giselle Beiguelman

Ruas são como rugas da cidade, escreveu o cronista João do Rio. Mas como fazê-las falar? Como resistir ao apagamento diário que um certo “urbanismo botox” impõe às cidades, na tentativa de injetar pretensas modernidades, na paisagem marcada pela violência social? Como contrapor-se aos rituais de confiscação do direito à memória e à ocupação do espaço público? Todos esses “comos” atravessam as obras do Coletivo Coletores. Dialogando com as linguagens do pixo e do videomapping, eles se insurgem contra os marcos históricos e as empenas, fazendo vazar as dores e os traumas nos seus fachos de luz.

É difícil localizar quando começa esse tipo de ativismo, que combina a projeção em grande escala, no espaço urbano, com ação política. Contudo, ele passa certamente pelas Homeless Projections, do artista Krzysztof Wodiczko, realizadas desde os anos 1980. Nesse projeto, discutido em profundidade pela historiadora da arte Rosalyn Deutsche (1986), Wodiczko abordou a situação dos desabrigados, projetando nos monumentos da Union Square, em Nova York, imagens da população que seria erradicada da praça devido à reurbanização dessa área. 

Para além das questões estéticas e políticas características da obra de Wodiczko, ela também é referencial para pensar a história da apropriação da cidade, por meio de imagens que reinventam o patrimônio e os edifícios como arena compartilhada. Nesse contexto, os monumentos e a arquitetura tornam-se lugar de disputa e espaço a ser ocupado por instâncias provisórias e de exercício de outras formas de cidadania.

É essa a trilha a que adere a ação do Coletivo Coletores. Suas intervenções em monumentos, como o do Borba Gato (Pujança editada), onde projetaram imagens de desaparecidos políticos, fazendo a luz dourada tingir-se de vermelho-sangue, anunciam: as ruas da cidade são um território de luta, um lugar de disputas narrativas e de histórias caladas, porém vivas.

Se, ao longo dos anos 1990, especialistas discutiam como apropriar-se das redes para tornar a cidade mais “interativa”, hoje, com a capilarização da tecnologia no tecido social, o desafio hoje é como potencializar o uso crítico e criativo da tecnologia, ou um uso menos “funcionário” dos dispositivos em que somos usados por eles enquanto os usamos.

Dispositivos, no caso do Coletivo Coletores, é uma palavra-chave. Na releitura de Agamben sobre esse conceito caro a Michel Foucault, dispositivo não é um instrumento, mas “um conjunto heterogêneo, linguístico e não linguístico, que inclui virtualmente qualquer coisa no mesmo título: discursos, instituições, edifícios, leis, medidas de segurança, proposições filosóficas etc”. Em uma frase: “Um conjunto de práticas e mecanismos”. 

No caso de Toni Baptiste e FlávioFlavio Camargo, os artistas por trás e à frente do Coletores, sua prática se confunde com uma tática de infiltração. E é essa tática o que constitui seu mecanismo. Por meio dela, põem em xeque cânones historiográficos oficiais, patrimônios incômodos, feridas que a cidade teima em cultuar na produção social do espaço racista e excludente de nossas cidades.

Num exercício permanente de desconstrução de verdades e fetiches tão ufanistas quanto opressores, corroem as distâncias entre as periferias e o centro de São Paulo, ao mesmo tempo em que fazem com que se tornem visíveis, concretas e incontornáveis. 

Se é inegável que as tecnologias digitais nos aprisionaram em cidadelas algorítmicas sobre as quais temos pouco ou nenhum controle, é verdade também que permitiram uma revolução sem precedentes no campo das imagens. Ora, desde o Renascimento, as imagens estiveram diretamente relacionadas a instâncias de classe, gênero e poder político, reservadas primeiramente a figuras sagradas, reis, aristocratas e papas e, depois, a políticos e burgueses abastados. Ao longo do século XX, as comunicações de massa expandiram o raio de quem podia se transformar em imagem publicada e passível até de ser arquivada. Mas é apenas no século XXI que se pode falar em multiplicação e em diversificação em grande escala do espectro social e cultural dos registros imagéticos.

A tela foi canibalizada. Em todas as suas dimensões. Despejadas aos quaquilhões de bytes por segundo na internet, as imagens do século XXI tornam-se também espaços de sociabilidade. No YouTube, no Instagram, no TikTok e, sobretudo, nas ruas, outros regimes estéticos fluem. Não são os regimes consolidados nas escolas de cinema e de artes e rompem cânones de estilo e mercado. Todo um outro paradigma de consumo e produção está se montando e evidenciando que as imagens deixaram de ser planos emolduráveis. Transformaram-se no espaço de reivindicação do direito de projeção do sujeito na tela, subvertendo os modos de fazer (enquadrar, editar, sonorizar), mas também os modos de olhar, de ser visto e supervisionado.

Essas ambivalências são fulcrais nos trabalhos do Coletivo Coletores, nos seus modos de apropriação das tecnologias e saberes hegemônicos para desencadear uma verdadeira guerrilha visual. Ela sobe pelas paredes, cruza as ruas com um caminhão coberto de LEDs (Ledtruck), e disputa pixel a pixel cada milímetro do território que foi negado aos negros, aos povos originários, aos corpos dissidentes a quem foi interdidato o direito à diginidade.

Atuando em conjunto desde 2009, Toni e FlávioFlavio trazem o repertório do pixo para o contexto do vídeo, enunciando uma estética que nega ao audiovisual toda a pretensa assepsia que os aparatos tecnológicos trazem em seu design plástico, prateado e de cantos arredondados. Nas suas imagens, o mundo tem pontas, machuca e não se acomoda ao universo de corações e emojis que se impõe nas timelines. São imagens dissidentes, dissonantes, sem estridência, mas de profunda contundência. São imagens que cortam, ocupam e reivindicam o direito à cidade, os direitos humanos e o dos manos. São imagens que invadem o Monumento às Bandeiras, colocam Maria Carolina de Jesus nas fachadas, escancaram as formas pelas quais se criam invisibilidades políticas, sociais e culturais no patrimônio edificado e por meio da circulação das linguagens.

Num exercício contínuo de desconstrução simbólica, suas imagens interrompem os acordes harmônicos do pacto memoricida que escreveu nossa história sobre o tripé da Inquisição, do genocídio indígena e da escravização de mais de 4 milhões de negros africanos. 

Arte contra-monumental por excelência, a despeito da grande escala de suas projeções e intervenções urbanas, as obras do Coletivo Coletores operam no campo do efêmero e tomam as frestas, instigando a cidade a olhar para seu avesso e dialogar com os escombros de seu passado para elaborar outros futuros, a partir do seu tempo presente.



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