"vedetes", 2017 máscara de látex, suporte, servomotor, arduino, projetor, dimensões variáveis

“PIPA de perto: o artista fala na coleção do Instituto” com Ilê Sartuzi

Ilê Sartuzi é o décimo primeiro convidado do “PIPA de perto: o artista fala na coleção do Instituto”. Periodicamente, selecionamos uma obra adquirida pelo Instituto e pedimos para a(o) artista comentar um pouco sobre o trabalho: seja o processo criativo; a ideia por trás da obra; a conexão com toda a sua produção ou algum outro aspecto que a pessoa deseje compartilhar. O intuito é aproximar o público do universo da(o) artista e da coleção “Deslocamento” do Instituto PIPA, que foi criado em 2010 para apoiar, ajudar a documentar e a promover o desenvolvimento da arte contemporânea brasileira, e que tem o Prêmio como uma de suas iniciativas. Desta vez escolhemos as obras “Sem título (videogame Glitch)”; “Queda”; “Vedetes” e “Worstward Ho!”recém adquiridas pelo Instituto.

Ilê, artista formado pela Universidade de São Paulo (USP), foi um dos Artistas Selecionados do PIPA 2021. Ele participou de uma Ocupação Virtual nos sites e nas redes sociais do Prêmio em setembro, para a qual produziu um vídeo inédito, e também teve alguns de seus trabalhos apresentados em um televisor exposto no Paço Imperial entre 9 de setembro e 21 de novembro, enquanto ocorriam as exposições dos Vencedores do PIPA 2020 e das Aquisições Recentes do Instituto PIPA.

Vista da exposição no Paço Imperial, 2021, foto de Jaime Acioli

A prática de Sartuzi combina conhecimentos práticos dos materiais utilizados e uma extensa bagagem teórica, como ele comentou em sua entrevista com Camillo:

“Trabalhando em instituições públicas e privadas, a defesa e o fomento ao debate crítico de arte e cultura é parte fundante da minha formação. Em grupos de pesquisa universitários e nos bares, a leitura rigorosa forneceu ferramentas conceituais para o enfrentamento direto de obras de outros artistas em entrevistas e ateliês e, evidentemente, tudo isso resulta numa visão crítica sobre a minha própria produção”.

Sua pesquisa envolve objetos escultóricos, projeções de vídeos mapeadas, instalações e peças teatrais abordando questões relativas à imagem idealizada do corpo, muitas vezes fragmentado ou construído a partir de diferentes partes; mas também a ausência dessa figura em espaços proto-arquitetônicos e digitais. O interesse pelas artes dramáticas nos últimos anos conferiu uma teatralidade para os objetos e instalações que são animadas por movimentos mecânicos e interpretam dramaturgias e coreografias.

“Dollhouse Gallery”, 2020
, tour virtual, www.dollhouse.gallery

Confira abaixo breves textos que o artista nos enviou sobre as 4 obras que agora integram a coleção “Deslocamento”:

  • “Worstward Ho!”

2020, 06’50”, texto: Samuel Beckett, interpretação: Miro Bersi, trilha sonora: Bruno Palazzo

Comissionado pelo Instituto Moreira Salles, o vídeo “Worstward Ho!” parte do texto homônimo de Samuel Beckett, publicado em 1983. As imagens, o texto e a trilha sonora se sobrepõem para criar um percurso contínuo dentro de um apartamento reconstruído através do processo de fotogrametria. A câmera descorporificada desliza, em seu lento e contínuo movimento, pelo espaço e fora dele e de novo para dentro. Com a cadência rítmica própria dos textos de Beckett, a voz acompanha o vídeo nesse tempo dilatado e dinâmico, que confunde espaços “reais” e “digitais” ou um possível lugar mental, encerrado em si mesmo.

O trabalho, que foi mostrado pela primeira vez no contexto do Programa Convida do IMS, este ano ainda integra a 15ª Bienal de Artes Mediales de Santiago, no Chile. Agora, essa obra passa a integrar o acervo do Instituo PIPA.

  • “Queda”

2021, vídeo HD, cor, som, 12’20’’

Um vídeo realizado com animação 3D no qual uma espécie de pele cai sobre um plano. Repetindo essa mesma ação a partir de posições diferentes, os cálculos de impacto desses dois materiais geram deformações diferentes nessas peles. O trabalho aproxima duas características distintas da obra do artista: as peles de látex e a pesquisa dentro das simulações digitais. A obra foi mostrada pela primeira vez na individual “A. E A de novo.” no auroras, em São Paulo. Nessa ocasião, o vídeo foi instalado dentro da lareira da casa, que ocupa o centro do espaço expositivo principal.

“queda”, 2021, vídeo HD, cor, som, 12’20’’

  • “Vedetes”

2017, máscara de látex, suporte, servomotor, arduino, projetor, dimensões variáveis
– em parceria com o grupo AMUDI da Escola Politécnica da USP

“Vedetes” é o primeiro trabalho em que Ilê Sartuzi utiliza microcontroladores para movimentar objetos. Na obra, a boca de uma máscara de látex é articulada com um movimento mecânico aleatório e dessincronizado em relação às imagens projetadas sobre essa mesma boca. O que está em jogo são uma série de lógicas de superfície – seja na máscara fina ou na projeção que toca essa pele e até mesmo o conteúdo dessas imagens. As bocas vêm de cenas de vedetes do cinema internacional e nacional, e a sedução do observador com as imagens mesmas do consumo dessas figuras (dos seus lábios e seu charme frente às câmeras) está em descompasso com as deformações causadas pelo movimento maquinal-repetitivo.

  • “Sem título (videogame Glitch)”

2018-2019, vídeo HD, cor e som, 05’46’’

O vídeo investiga as falhas (glitches) de jogos de videogame a partir de imagens apropriadas da internet. Dividido em duas partes, a primeira delas investiga falhas referentes à estruturação dos corpos dentro do sistema do mundo virtual. Esses glitches alteram a ordem estabelecida e o funcionamento normal das coisas, transformando, em alguns casos, a tridimensionalidade aparente que estrutura esse mundo, revelando a bi-dimensionalidade chapada da imagem. Nesse sentido, a pesquisa sobre a imagem dos corpos continua a se aprofundar em outro campo representativo. As investigações que transitavam entre o corpo escultórico e a imagem pintada adentram o mundo digital como maneira de deslindar a construção – e aqui o aspecto construtivo deve ser levado em conta – de corpos fragmentados e por vezes monstruosos.

Na segunda parte do vídeo são exploradas as possibilidades de um jogador usar um glitch em sua vantagem de uma maneira não pretendida pelos designers do sistema, o que é caracterizado nos videogames como um exploit. Amplia-se, portanto, a compreensão de atuar pelas brechas (ideia tão cara à alguns filósofos contemporâneos como Alain Badiou). Entendendo os mecanismos do sistema e suas falhas, o sujeito pode intervir de maneira mais potente em estruturas complexas através dessas aberturas.

Still de “sem título (videogame_gltiches)”, 2018-2019, video HD, cor e som, 05’46’’

Na ocasião da indicação de Ilê ao PIPA 2021, o artista gravou uma vídeoentrevista feita com exclusividade para o Prêmio pela Do Rio Filmes. Em sua fala, ele comenta as mídias que emprega, que vão do teatro ao látex e às imagens geradas por computador, e ainda conta um pouco sobre um dos seus trabalhos mais emblemáticos, o “cabeça oca espuma de boneca”, de 2019. Assista abaixo:

Para visitar a página do artista no site do Instituto, clique aqui.



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