Luiz Camillo Osorio conversa com Ventura Profana

Em mais uma edição do Prêmio, o curador do Instituto PIPA entrevista os artistas Selecionados. Leia abaixo a Conversa entre Luiz Camillo Osorio e Ventura Profana.

LCO – Onde começou tudo? Quando e como foi o salto para a Ventura Profana artista/performer? Quais artistas, históricos ou atuais, te impulsionaram neste salto?

VP – No princípio estava o fim, o fim comigo estava. E eu era o fim. Estávamos no princípio. Todas as coisas foram feitas pelo fim. E sem fim nada do que foi feito se fez. No fim estava a vida, e a vida é a nossa escuridão. A escuridão resplandece na brancura, e a brancura não a compreende.

LCO – Você é cantora, performer ou evangelizadora do Reino do Trans-bordamento?

VP – Eu já estou sendo derramada como oferta de bebida. Em verdade, em verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhamos, pela comida que perece e pela comida que permanece para a vida infinita, a qual nos damos; Somos o cu da vida, as que estão em nós não terão fome, e quem crê nunca terá sede. Mas já vos disse que também vós me vistes, e contudo não credes. Tudo o que nos fora roubado virá a nós; e o que vem a nós de maneira nenhuma lançaremos fora.

LCO – Como a religião e a resistência se ligam? Qual a diferença entre o sagrado e o profano? Quais as forças que te movem?

VP – Empino-me contra a paz do Senhor. Para isso sou eleita e financiada. Desabrolho buliçosa segundo o aroma inesgotável do sopro infinito da mudança, que jamais cessará. Não caibo nesta ocasião. Em nome do deus de Israel, a minha tenda foi destruída; todas as cordas da minha tenda foram arrebentadas. Contudo domicílio-me em todos os anos que também foram séculos, somas de meses, pedaços de eras, trechos de gerações. Sustentada por tendões entrelaçados em todos os tempos, sou a parede do olho. O vento que invade e escapa pelos portais das janelas, independente do seu controle. Ventania não tem pátria. Pátrias são vales de ossos secos. Nossa profanação é viver sete vezes mais; é esquecer a cisgeneridade, sem poder. É envenenar-te com o silêncio bailarino dos nossos olhos. As regras coloniais têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e necropolítica adversária aos corpos bestializados. Vãs e enganosas filosofias escravocratas que fundamentam as tradições humanas e os princípios elementares da modernidade. Esses homens todos são estúpidos e ignorantes; cada ourives é envergonhado pela imagem que esculpiu. Suas imagens esculpidas são uma fraude, elas não têm fôlego de vida. Logo, não têm valor algum para refrear os impulsos da transmutação. Pois em nós habita corporalmente toda a plenitude da divindade.

LCO – A Lygia Clark, em um outro contexto bem diferente, falava de “ritos sem mitos”. Suas performances alegorizam os rituais das igrejas neopentecostais e procuram transtorná-los e transformá-los com os corpos dissidentes das bichas e travestis. Há uma nova mitologia por vir? O futuro é trans-humano?

VP – Partindo do cu, tomando-o como alicerce. Quem edifica transcende a cruz. Isto é, a vida está no cu reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadoras da parte do cu, como se a vida por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte do cu, que vos reconcilieis com a vida. Foram designadas algumas para apóstolas, outras para profetas, outras para evangelistas, e outras para pastoras e mestras, com o fim de preparar as profanas para a obra do ministério, para que o corpo seja edificado, até que todas alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do cu, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude.

LCO – Nas suas performances e vídeos qual o papel de um roteiro prévio? Você escreve as letras das suas músicas?

VP – Não te perdoo. Não se cancela uma escrita de dívida desta maneira. Essas coisas são sombras do que vem; a realidade, que não se encontra em ti. Não permito que seu prazer numa falsa humildade e na adoração de anjos nos impeça de alcançar as restituições. Estou unida à Cabeça, a partir da qual todo o corpo, sustentado e unido por seus ligamentos e juntas, efetua o crescimento. Estou morta para os princípios elementares deste mundo, mas, como se ainda pertencesse a ele, sou submetida a regras: “Não manuseie!”, “Não prove!”, “Não toque!”. Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos.

LCO – A experimentação com o corpo trans é uma experimentação espiritual e uma transformação do que entendemos por humano? Ao mesmo tempo, suas performances trazem muito os elementos originários como a água e a terra. Qual a direção desta desterritorialização generalizada e desta afirmação da Vida? Fale um pouco sobre isso?

VP – Sou azáfama em tudo, não suporto os sofrimentos, faço a obra de uma evangelista, cumpro plenamente o meu ministério.

LCO – Como foi para você e sua obra esse período da pandemia? O que não será mais igual?

VP – Eis que eu digo um mistério: Nem todas dormiremos, mas todas seremos transformadas, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta.



O PIPA respeita a liberdade de expressão e adverte que algumas imagens de trabalhos publicadas nesse site podem ser consideradas inadequadas para menores de 18 anos. Copyright © Instituto PIPA