John Storrs, Ceres 1930

Programa de Vídeo XV, com Daniel de Paula

Programa de Vídeo, concebido em parceria entre a curadora Mirtes Marins de Oliveira e a equipe da galeria Jaqueline Martins, tem como objetivo apresentar diferentes obras (ou seus fragmentos) em relação dialógica, sublinhando semelhanças que estimulem reflexões sobre a vida contemporânea. Para a décima quinta edição, apresentam Daniel de Paula, com o vídeo circulação (2019-) articulado à escultura Ceres (1930), de John Storrs, à litogravura Simultaneous Death in an Airplane and at the Railway (1913) de Kazimir Malevich e ao filme Andrei Rublev (1966) de Andrei Tarkovsky.

O fascínio pela tecnologia dominou o imaginário e ações das vanguardas artísticas europeias do início do século XX. Disseminadas pelas revoluções industriais desde o século XVIII, as alterações nos modos produtivos e suas invenções impactaram a vida social e as formas perceptivas. Máquinas, veículos, velocidade, vistas aéreas, entre outras inovações, ofereceram novas experiências para as sensibilidades daquelas gerações. Para além disso, forneceram um possível roteiro que poderia servir para prováveis emancipações políticas e econômicas. Os construtivistas soviéticos se alinharam aos propósitos de Lenin na indicação de que o socialismo = sovietes + eletricidade. Para uma União Soviética imersa na vida rural, o cálculo demonstrava a importância que os revolucionários atribuíam para a aceleração tecnológica. Artistas como Malevich, El Lissitsky e Tatlin alinharam-se ao projeto e incorporaram essas concepções. Como resultado, por exemplo, a dívida da pintura abstrata de matriz construtivista em relação aos registros fotográficos aéreos, a partir daquele período,  elemento perceptível da realidade e com acesso massivo.

A força dessa inovação perceptiva também pode ser capturada, segundo Daniel de Paula, nas cenas iniciais do filme Andrei Rublev (1966), de Andrei Tarkovsky. Narrativa sobre a vida de um artista no período medieval, o filme mostra nessas primeiras imagens exatamente a experiência aérea e seu impacto no imaginário social.

Em circulação (2019-), Daniel de Paula realiza o que denomina vídeo-negociação, no qual, segundo suas próprias palavras apropria, compila e edita imagens provenientes de inspeções com drones realizadas em infraestruturas de comunicação de dados, extração de recursos naturais e geração de energia. Imagens produzidas por empresas de inspeção de infraestrutura para multinacionais dos ramos de extração de recursos naturais como petróleo e gás natural, geração de energia eólica, telecomunicações e da esfera de comunicação de dados operante no âmbito dos mercados financeiros por meio de antenas de alta-frequência e que foram cedidas ao artista. circulação, teve início em 2018 e foi apresentado pela primeira vez em contexto de uma residência artística na cidade de Eindhoven na Holanda e é organizado a partir da incessante adição e edição de imagens, reiterando o processo ininterrupto da produção capitalista, e oferecendo a cada apresentação uma nova edição, segundo o artista.

A suposta neutralidade de tal trabalho de captação das imagens de inspeção, ou mesmo da tecnologia apresentada, não se sustenta pelo claro direcionamento do que se quer captar e seus resultados. Como afirma o artista: apresentam um imaginário da incessante commodificação da paisagem ao intenso trânsito de dados e informações — produzindo assim um paralelo entre a crise ecológica e a intensificação do processo de inovação da difusão de informações no contexto de um sistema infraestrutural global de canais de comunicação.

Nesse sentido, a apreensão crítica que Daniel de Paula realiza é absolutamente distante do projeto construtivista. Se o lema de Lenin – socialismo = sovietes + eletricidade – indicava a crença na expansão industrial como necessária para o desembaraço das forças produtivas (como uma etapa necessária aos futuros revolucionários, como se pensava então), a vida contemporânea evidencia a violência desse projeto unidirecional objetivado em uma transformação nociva com abalos – na ecologia e nas relações de trabalho – de dimensões planetárias.

Como para recobrir com mais uma camada interpretativa ao trabalho, o artista aponta para uma outra obra em diálogo com circulação, 2019: a escultura de alumínio com cerca de 9,5 metros de altura, Ceres (1930) de John H. Storrs, colocada acima do prédio de 45 andares (cerca de 180 metros) da Bolsa de Comércio de Chicago, um importante centro de comercialização de grãos, construído em 1930 como todos os esforços para tornar-se um emblema de homenagem às mercadorias. Ceres, a deusa grega dos grãos e da agricultura, abençoando a partir do alto as práticas do capital.

As sequências narrativas do passeio aéreo propostas por De Paula em seu vídeo-negociação são hipnóticas mas interrompidas por animais, aves de rapina, que vivem nesses complexos industriais e infraestruturais. Segundo Daniel, esses protagonistas são vistos como ameaça ao trânsito de informações, mas fornecem, aos observadores do vídeo-negociação, uma inflexão aos registros da ordem, operam uma guerrilha informacional.



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