Luiz Camillo Osorio conversa com Isael Maxakali

Isael Maxakali foi o vencedor do PIPA Online 2020. Depois de Arissana Pataxó, Jaider Esbell e Denilson Baniwa, Maxakali é o quarto artista vencedor de origem indígena. Durante as semanas de votação no site, antropólogos e líderes indígenas fizeram forte campanha nas redes sociais, através do perfil @isaelmaxakali, como Roberto Romero, Paula Berbert, Ailton Krenak, além dos artistas já citados. Veja a conversa completa abaixo:

Entrevista de Luiz Camillo Osório com mediação, revisão e edição de Roberto Romero e Paula Herbert

LCO: Isael, primeiramente parabéns pela conquista do PIPA online e pelo seu trabalho – como artista e como liderança indígena. Como foi se dando dentro da comunidade Maxakali esse contato com a produção de filmes, tanto documentais como ficcionais?

Eu fiz um filme, o primeiro foi Yiax Ka’ax(1), quando nós chegamos em Aldeia Verde e quisemos mostrar a nossa cultura verdadeira para o não-índio reconhecer a nossa cultura. Depois, Jupira, minha filha, ganhou Ruan, e eu pedi para o Marivaldo, professor de Diamantina, ele ia na nossa aldeia, morava em Teófilo Otoni, depois voltou para Diamantina. Eu falei: “Ô, Marivaldo, quando completar trinta dias, eu preciso da sua câmera filmadora (que era pequenininha) porque eu estou querendo fazer filme de fim do resguardo.” Aí eu filmei Yiax Ka’ax, conversei com Yayá(2) Mamey e todos os pajés também e falei que a Jupira ia fazer o fim do resguardo com Zezão, marido dela. Aí nós acompanhamos, todos os kutok(3), jovens, estudantes que estavam também. Marivaldo emprestou a câmera para mim. Aí eu filmei as coisas que aconteceram, nós procuramos muito a pedra que corta bambu e jaborandi também, nós procuramos ali na cachoeira da Corvina(4). Aí eu fiz um filme, o primeiro filme. Aí eu falei: “Mas será que o nosso filme vai sair bay?(5)“. Aí eu falei com Charles [Bicalho](6): “Isso aqui foi eu que filmei, “O fim do resguardo”, vamos fazer legenda, nós trabalhamos muito. Aí eu falei pra todos os tihik(7): “Nós vamos filmar para registrar, documentar”. Mas eu fiz também, acompanhei o livro de cura, da saúde(8) também. Aí esse fim do resguardo eu fiz com Yayá Otávio, que me ensinou como é  que termina o resguardo, aí eu aprendi e fiz para mostrar para kutok para ter muito cuidado porque resguardo não é brincadeira, você tem que tomar cuidado. Aí fiz esse vídeo para a escola indígena e não-indígena também. Esse filme que saiu primeiro. 

LCO: A criação artística, para você, tem como foco a preservação de uma herança cultural Maxakali ou busca inaugurar um diálogo possível com o olhar ocidental – agora construído da perspectiva indígena? Ou seriam os dois?

É preservar a nossa cultura e aprender tecnologias novas do não-índio também. Porque tem muita coisa, algumas coisas que são muito importantes, que nos ajudam e que não pertencem aos Maxakali. Isso porque tem coisas que não são da cultura Maxakali, mas ajudam a comunidade também. Mas tem coisas que nós não gostamos, que são dos não-índios, e que acabam com a nossa cultura(9). E nós estamos fortalecendo a nossa cultura, pintura, canto, história, território, preservando nosso canto, a criação de bichos também, porque Topa(10) passou para cada povo indígena diferente e para o não-índio também. Porque tem muita língua diferente no Brasil todo. Mas nós vamos seguir o nosso direito, o caminho da nossa cultura verdadeira, porque nós não vamos enfraquecer. Nós estamos fortalecendo porque hoje nós abrimos espaço para fortalecer os pajés e os yãmĩyxop(11).

LCO: Como é para você a relação entre a prática do desenho e as animações? Você pensa o desenho como sendo independente da animação?  

Quando a gente faz desenho para fazer animação, vídeo, aí pra mim parece que o desenho que eu estou fazendo só falta coração para colocar. Quando eu faço desenho para animação, para o filme, para mim o desenho está vivo, koxuk(12), imagem. Eu faço desenho para movimentar, para o desenho estar vivo, verdadeiro. Quando eu pego o lápis de cor, a folha, e vou desenhar, para mim está vivo o desenho. Porque a gente faz desenho e o espiritual, [o espírito] entra no desenho para movimentar também.

LCO: Para os Maxakali, nós, ocidentais, temos salvação? Depois de 500 anos de ocidentalização forçada, existe um passado indígena a ser recuperado ou tudo agora é invenção da diferença? 

A nossa preocupação no Brasil todo, no Brasil inteiro é porque o não-índio só pensa em dinheiro, muito dinheiro, só pensa em enriquecer, comprar gado para colocar nas terras, desmatar o mato, secar água, fazer usina hidrelétrica, vai poluindo tudo. Asfalto, prédio, vai estragando muito o ambiente, a terra. Estraga muito a terra, poluindo os rios, esgoto também, mata muito peixe, acabando com a caça. E hoje a temperatura do ar está quente e a terra está doente, a terra está quente, queima com o sol. Não tem cheiro de mato também, não tem cheiro de flor e não tem nenhuma fruta para os bichos se alimentarem, não tem nenhuma semente para os bichos nos ajudarem a reflorestar, a plantar… Aí acaba trazendo essa doença(13) que vai misturando com o ar quente. Quando vir a chuva forte, vai vir brava, porque não tem mato para proteger as nossas casas, proteger as pessoas. Aí o vento vem com chuva e vai destruir, destrói tudo, acaba a cidade, cai a terra que fica no morro, faz erosão, e aí vai acabando ãyũhuk(14). E também hoje não tem nenhuma comida de animal, de bicho, de macaco, qualquer bicho, morcego… Hoje o macaco vai ficar na cidade, vai comendo lixo, vai beber esgoto, água suja, morcego também vai beber água suja e vai adoecer, vai transmitir para ãyũhuk. E nós comemos peixe doente também, ãyũhuk vai comer peixe doente, vai passando doença para ãyũhuk, vai passando para outro, passa para outra pessoa, é assim, porque está enfraquecendo a nossa natureza, porque ãyũhuk está destruindo né. Se devolver todo o território para nós, nós vamos recuperar. Nós vamos recuperar nossas terras, nós temos que preservar, voltar com a mata, fruta vai voltar, bicho não vai adoecer mais porque não vai ter esgoto, entendeu? 

Porque nós, Maxakali e os povos indígenas, nós que saímos primeiro e descobrimos a terra aqui no Brasil. Aí, quando nós chegamos, quando os nossos mais velhos chegaram aqui, a terra, era tudo preservado, não tinha nenhum mato destruído, nada estragando o rio, nenhuma cidade com tijolo, era tudo natural. Porque nós saímos e descobrimos a terra primeiro aqui no Brasil. E hoje, o nosso jovem que cresceu e olha agora a terra,  a cidade e pensa que antigamente tinha, mas não tinha. Os estudantes precisam entender melhor os povos indígenas, como é que surgiu Maxakali primeiro aqui no Brasil. Mas hoje tem pessoa que estuda, muito professor tem que explicar melhor na faculdade, precisa mostrar quem são os povos indígenas. Quem descobriu o Brasil foi o povo indígena, é o povo indígena que descobriu. Mas tem muita gente que esconde, professor sabe, antropólogo, pesquisador, muito professor que entende mas não quer dar aula na faculdade. Tem pesquisador bay que vai explicar, mas tem pesquisador que esconde e não quer contar a verdade que é que o povo indígena descobriu o Brasil. 

Pergunta de Roberto Romero: Para terminar, recentemente você e sua companheira Sueli Maxakali lideraram esse processo de mudança de mais de 100 famílias maxakali para uma outra terra, onde vocês têm o projeto de criar uma escola-floresta de preservação do meio ambiente, da mata-atlântica, além de um espaço para formar novos artistas, novos pajés. Você podia contar um pouco sobre esse seu projeto?

Onde nós moramos agora, hoje tem duas aldeias(15) no município de Ladainha. Onde eu moro é a Aldeia Nova, nós chamamos de aldeia-escola. Nós queremos preservar essa terra onde nós moramos para sair muita floresta, preservar o rio. E também nós temos dificuldade porque o rio não é assim normal, porque tem usina hidrelétrica aqui em Ladainha. Aí quando fecha [as comportas] para arrumar, aí o rio abaixa, seca. Não é normal, quando o pessoal quer fazer manutenção da usina que vai secar, fechar mesmo, aí o rio seca, aí o peixe vai morrer, está morrendo, capivara sofre, fica aqui embaixo. Os tihik passaram e viram o rio seco, e viram capivara sentada debaixo da pedra. E tihik viu quando foi buscar bambu para fazer flecha e [a capivara] fugiu. Aí nós precisamos preservar o rio e as caças, porque tem pouca caça, tem pouquinho bicho e nós precisamos de uma terra verdadeira para nós. Porque essa terra aqui não é nossa, é alugada(16), e nós temos dificuldade para comprar terra para garantir que nós vamos fazer voltar a mata. 

Tem muito professor não-índio que está estudando, formando dentro da UFMG, faculdade, qualquer faculdade, que está estudando que aprende melhor e nós, Maxakali também, Xakriabá Krenak, estamos estudando hoje na faculdade. Aí o nosso foco é fazer voltar a mata, é preservar o nosso território, eles pensam igual eu e Sueli, só pensam em fortalecer a nossa floresta, o território, terra para o povo Maxakali, preservar a cultura, a pintura. Tem muito professor que está estudando hoje, não-índio, que quer ajudar o povo índigena, para voltar o nosso espiritual, que fica dentro do mato. É assim. 

  1. O curta-metragem Yiax Ka’ax – fim do resguardo está disponível em: https://bit.ly/3n1AjPb. Último acesso: 29.09.20.
  2. Avô ou homem mais velho na língua Maxakali.
  3. Criança na língua Maxakali.
  4. Comunidade quilombola próxima à Aldeia Verde.
  5. Bay é o termo em Maxakali para bom ou belo.
  6. Charles Bicalho é pesquisador e cineasta, fundador da produtora Pajé Filmes e colaborador em muitas das produções audiovisuais de Isael.
  7. Indígenas na língua Maxakali.
  8. Refere-se ao livro Hitupmã’ax – Curar, do qual Isael é um dos co-autores, e que foi publicado em 2008 pelo núcleo de pesquisa Literaterras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Uma das temáticas centrais desta publicação são os protocolos maxakali de resguardo necessários para    garantia da saúde e bem-estar de parturientes, recém-nascidos, pais e sua família próxima.
  9.  Isael provavelmente se refere às investidas de missionários neopentecostais nas aldeias maxakali, intensificada nos últimos tempos.
  10.  Topa é o demiurgo maxakali.
  11.  Yãmĩyxop são os povos-espírito da mata Atlântica que visitam as aldeias maxakali para cantar, dançar, comer e curar desde os tempos imemoriais.
  12.  Koxuk é a palavra maxakali para imagens, sombras ou rastros.
  13.  Refere-se à pandemia de Covid-19.
  14.  Âyũhuk é o termo em Maxakali para se referir aos não-indígenas, também traduzido como “brancos”.
  15.  Refere-se à Aldeia Verde, onde morava até poucos meses atrás, e à recém-fundada Aldeia Nova, onde vive atualmente.
  16. A terra para onde se mudaram foi provisoriamente arrendada pela Prefeitura Municipal de Ladainha e não há até o momento previsão de aquisição do novo território. A terra nova, onde mais de 100 famílias se instalaram desde o final de Junho de 2020, possui rio, mata e área plana, como Isael,      Sueli e as lideranças maxakali reivindicavam há mais de uma década.

 


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