Frame de "A Chinesa" (1967), filme de Jean-Luc Godard

“Curadoria-Filme: a construção de um outro modo de exposição de imagem e som”, por Guilherme Gutman

Analisando as novas possibilidades para as exposições de arte no meio digital, Guilherme Gutman aposta na “curadoria-filme” como uma alternativa à arte virtual. Para ele, a linguagem é o elemento fundamental para uma experiência rica com o suporte audiovisual. Gutman é psiquiatra, psicanalista, crítico e curador em artes visuais, além de autor do livro “William James & Henry James: filosofia, literatura e vida”.


Curadoria-Filme: a construção de um outro modo de exposição de imagem e som.

Guilherme Gutman

No tempo em que vivemos, é provável que boa parte das exposições em artes visuais prossigam sendo também concebidas como “virtuais”; este pensamento desaguou em uma investigação das possibilidades de criação de um filme de curador.

Imaginemos uma filmagem qualquer: em uma sala, os trabalhos de alguns artistas, dispostos em paredes, suportes ou chão, tal qual estariam em uma exposição presencial. O filme consistiria na câmera passeando pelos trabalhos, como uma espécie de olho mágico do visitante. Sem deixar de ser também uma filmagem na qual são feitas escolhas de trabalhos e de takes, torna-se algo pouco interessante dado o seu caráter apenas documental. Acontece que um registro-filme documental também pode ganhar uma beleza própria, por exemplo quando os documentos se embaralham em imagens, linguagem e sons articulados de uma certa forma.

Indo direto ao ponto, em uma exposição virtual, nos parece uma ação interessante a criação de um filme; ou melhor, sob a forma de um filme de curador, deve-se tatear e procurar um outro modo de falar sobre a exposição. Esta ideia não serve apenas como algo em substituição temporária às formas mais habituais de curadoria, mas um outro modo de realizá-la. Certamente cabem em uma curadoria muitas ideias e formas de realização, mas modos curatoriais menos convencionais podem deixar que reapareçam de uma zona sombreada, restos de imagens e de pensamentos que contêm potências específicas.

Guardadas as proporções, esta ideia encontra inspiração e apoio indireto na pesquisa realizada por Camillo e Pedro, sobre o cinema de Godard do final dos 60’s. Em seus filmes, Godard realizou a abertura de um espaço às letras, por dentre a trama das imagens (que até então reinavam soberanas em seu trabalho cinematográfico). A partir do filme A chinesa (1967), há coisas como a dissolução entre o documental e o ficcional, mas sobretudo um novo trabalho de montagem, com o uso avant-garde de som, letra e figura:

“Em Godard, seguindo aí a trilha aberta por Marcel Duchamp, o fazer artístico combinando no mesmo gesto os atos de cortar, colar, deslocar e ressignificar. O novo nasce das relações inesperadas. O organizador consciente, no caso, produz relações – o que remete ao trabalho do curador que constrói relações e, através delas, abre novas possibilidades de interpretação das imagens (obras) e do mundo”.

Em um fragmento de ensinamento do budismo tibetano, se disse que os sons e as palavras faladas podem ser experimentadas por alguns como uma espécie de “perturbação”. Em uma apropriação completamente livre daquilo ouvido, fiz mentalmente a imagem de “emaranhados de linguagem”.

Esta experiência perturbadora oriunda da interrupção do silêncio é intensamente singular, podendo ser experimentada como da ordem do que a psicanálise chama “real”. De modo livre e introdutório se conceberá esse “real da psicanálise” como um vento que não é capturado nem pela linguagem nem pelo pensamento.

É claro que o nosso ponto não é o de formar cineasta, um curador; seguimos em outra direção: a importância de que nas exposições prossiga, a necessidade de falar – reduzida em algumas pessoas e aumentada em muitas – em outras palavras, o desejo de contato com a linguagem sob a forma e o suporte da fala e seus sons vocalizados, assim como por música e por imagens.

A proposta de uma curadoria-filme naturalmente não torna qualquer curador mais sapiente ou promove em tempos de penúria uma espécie de “dois em um” promocional: “cinema e crítica em uma curadoria só!”. Ela apenas possibilita que se escute a sua voz em meio a formas de expressão imagéticas ou sonoras, na composição da experiência expositiva que ele deseja entregar ao público. A partir desta realização, a experiência passa ser, saudavelmente, a de cada um.

Sobre experiência, duas coisas foram surpreendentes e desconcertantes na forma como alguns de nós passamos a fazer e a ver as coisas, desde a pandemia e a reclusão que se seguiu a ela. Ainda que não se ignore todo o terrível da situação, a primeira coisa foi que algumas pessoas passaram a sentir-se melhor do que sentiam-se, no geral ou em coisas mais específicas da vida, a partir de sua experiência de clausura.

A segunda coisa foi a necessidade que algumas pessoas sentiram de falar mais; talvez apenas a possibilidade de falar e de calar. A psicanálise ensina sobre a importância de saber-se alguém que veicula a linguagem e que é ao mesmo tempo posicionado subjetivamente por ela.

Em alguns casos, o “bem-estar” em meio à pandemia esteve relacionado a poder falar de coisas: de como estava sentindo isso ou aquilo; ou do que vinha fazendo no meio disso tudo. Nestes casos, falar e estar bem estiveram relacionados de algum modo.

Semana após semana, ao longo do muito ou pouco de auto confinamento, as pessoas começaram a participar mais de grupos de estudo e de cursos variados; ou simplesmente tornaram um hábito mais comum do que antes, mandar mensagens, “conversar” por algum aplicativo, escrevendo ou falando.

Na alternância entre o som e o silêncio, um curador deve falar e demonstrar as suas ideias sobre a exposição que, afinal, ele inventou. Deve derramar em palavras e imagens, a relação entre trabalhos de artistas diferentes, juntando palavras que lhe caibam na boca; sendo suas ou não. É uma curadoria aberta, na qual podem estar presentes imagens dos trabalhos, das coisas, das pessoas, assim como sons harmônicos e também os sons dissonantes:

“Na construção destas linhas de fuga, o cinema de Godard é simultaneamente um exercício ensaístico e uma prática curatorial. Estas duas dimensões se complementam. O cinema pensado como ensaio visual, como montagem de imagens ficcionais e documentais, pictóricas, fílmicas e televisivas, faz-se sempre enquanto curadoria, enquanto exercício experimental de seleção e deslocamento de imagens.
(…)Usar Godard e sua poética cinematográfica para pensarmos de forma mais alargada e arejada o ensaio e a curadoria. (p.95)”.

Nesta outra empreitada, trata-se de um apanhado em meio a toda linguagem, no sentido dado a ela por Freud e Lacan; se parece com escolher um livro na grande biblioteca com que sonhou Borges.
Também pode ser experimentada como uma coleta das coisas do mundo, tal qual realizou Bispo do Rosário, para uma edição final daquilo em que se acredita.



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