Foto: Bira Carvalho

Conversa de Luiz Camillo Osorio com Isabela Souza (Elã – Escola Livre de Arte) e Aruan Braga (Imagens do Povo)

Neste novo texto, Luiz Camillo Osorio, curador do Instituto PIPA, conversa com Isabela Souza, da Elã – Escola Livre de Arte e Aruan Braga, do Imagens do Povo. As duas iniciativas fazem parte do Observatório de Favelas e atuam no Complexo da Maré, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, com o objetivo de formar, difundir e produzir arte em territórios periféricos. Bira Carvalho (autor da foto de capa) é um dos indicados ao PIPA 2020 e coordenador do projeto Imagens do Povo.


1 – Gostaria de começar pedindo aos dois que falassem um pouco sobre a Elã – Escola Livre de Artes e do Imagens do Povo. Contem um pouco da história dessas duas iniciativas, a partir do Observatório das Favelas e da constituição de espaços de encontro e de produção no interior de uma comunidade como a Maré.

Isabela e Aruan – O Imagens do Povo, desde 2004, assim como a Elã, anos mais tarde, em 2019, são parte da estratégia pública do Observatório de Favelas na disputa por narrativas na cidade a partir das favelas e periferias.  

Com essas duas iniciativas fazemos da Maré uma importante centralidade nos campos da formação, difusão e produção artística. Esse movimento marca favelas e periferias como territórios da arte e, ainda, mobiliza que as artes sejam, cada vez mais, caminhos para visibilizar sujeitos/as, territórios e questões periféricas. Com efeito, pensamos e fazemos da arte um instrumento de superação das desigualdades sociais. 

Essas iniciativas também marcam uma posição política que avança no sentido do “direito à estética”, que garante que pessoas moradoras de favelas de periferias ou de origem popular possam ser formadas em campos historicamente elitizados. É comum um jovem de classe média/alta no Brasil ter direito de escolher, por exemplo, ser cineasta ou ter acesso a escolas de artes visuais.; mas para jovens favelados e periféricos essas formações não costumam chegar na mesma proporção que outras qualificações profissionais para que atuem na área de serviços. Diante dessa constatação, as formações em artes e comunicação, no Observatório, respondem também a essa urgência de redução de desigualdades de acesso e oportunidade também no campo da formação que aponta para ampliação de repertórios estéticos e escolhas profissionais.

2 – Como foi a primeira turma da Escola? Qual o período de formação dos alunos, de onde eles vieram, como foi a participação da turma e a interação com os professores? O curso terminou com uma exposição final? 

Isabela – A proposta formativa desta primeira turma da Elã foi fruto do trabalho coletivo do Observatório de Favelas, da Produtora Automatica e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV). A ambição era que pudéssemos materializar um experimento artístico-pedagógico para jovens artistas oriundos de territórios de favelas e/ou periferias da metrópole fluminense. 

Neste sentido, a primeira turma da Elã foi um sucesso! Em um mês recebemos 165 inscrições, das quais ouvimos 54 na fase de entrevistas e selecionamos 26 artistas com idade entre 20 e 31 anos. 30% das/os artistas selecionadas/os eram moradoras/es da Maré; 32% moradores de outros bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro; 8% da zona oeste; 12% do centro e da Zona Sul; e 20% de outras cidades da Metrópole do Rio de Janeiro, com destaque para a cidade de São Gonçalo. Das/os 26, 72% se declararam pretos e pardos. 

Com esse grupo, realizamos 10 encontros formativos (eixos: Percursos, Corpos, Materialidades, Conceitos e Agenciamentos) e 5 aulas públicas (temas: Democracia, Formação, Cuidado, Representatividade e Participação), que envolveram 11 educadoras/es convidadas/os, além da nossa própria equipe. 

Tivemos uma turma assídua e que respondeu bem ao projeto pedagógico proposto. A turma, em geral, valorizou a escolha das/os educadoras/es e dialogou com as propostas trazidas. No processo de avaliação geral da Escola, o grupo demonstrou interesse pela continuidade do processo formativo, compartilharam que todos os eixos deixaram inquietações e desejo de aprofundamento de questões e de estreitamento da relação com as/os educadoras/es.

Das/os 26 artistas, 3 foram indicadas ao Prêmio Pipa e 12 participaram de outras exposições individuais ou coletivas, durante o período de formação na escola. Também conseguimos realizar um acompanhamento pedagógico apenas para avaliação de nossa proposta formativa.

Sim. Terminamos com uma exposição final que ficou um pouco mais de um mês no Bela Maré e que mobilizou um pouco mais de 1600 pessoas.

Para ver o vídeo síntese dessa experiência, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=TzRkR9a3Wj0&t=11s

3 – O Imagens do Povo é uma iniciativa mais antiga e junta o esforço de construir canais de informação autogeridos para a Maré com a necessidade de formação de fotógrafos (e jornalistas). Como isso se deu? Como ela se mantém?

Aruan – O Imagens do Povo é um programa estruturante do Observatório de Favelas. Surgiu em 2004 em parceria com o fotógrafo documentarista João Roberto Ripper com a missão fundamental de produzir e disseminar imagens que se contrapõem àquelas que são usualmente atreladas às favelas e periferias e classificam estes lugares apenas como espaços da carência, da pobreza, da violência, etc. Por meio da formação de fotógrafos populares, oriundos destes territórios, tanto no que se refere à técnica quando à formação política, orientada pelos Direitos Humanos, conseguimos aglutinar um conjunto significativo de atores que compreendem o poder e o papel da fotografia na disputa política bem como compreendem a documentação da memória cotidiana das favelas como elemento de potência destes territórios. Além dos mais de 200 fotógrafos formados, o Imagens do Povo também deu origem a outros projetos e coletivos e contribuiu para modificar a relação da favela com a fotografia. Antes percebida como elemento externo que vinha explorar o território, agora existem caminhos onde a fotografia pode ser assumida como ferramenta de denúncia bem como de ressignificação de imaginários sociais. 

As formações aconteceram em diferentes formatos ao longo dos anos e vão desde a Escola de Fotógrafos Populares, curso extenso com 10 meses de duração e aulas diárias, até processos mais enxutos como cursos de curta duração, oficinas, residências artísticas, dentre outros formatos. Recentemente, em 2019, realizamos um curso de qualificação de fotógrafas, voltado especialmente para mulheres, debatendo raça, gênero e sexualidade. Tivemos como resultado uma bela exposição da galeria 535, do Observatório de Favelas com os trabalhos fotográficos e breves narrativas visuais dos alunos. Outro exemplo recente também do final de 2019, é a residência artística em parceria com o Instituto Moreira Salles onde buscamos construir novas leituras do acervo do IMS a partir dos trabalhos e vivências dos fotógrafos associados ao Imagens do Povo. O resultado deste processo pode ser visto nas redes sociais do Imagens do Povo e do Observatório de Favelas com o nome de “Corpo presente: releituras críticas do acervo IMS”. 

4 – Qual a diferença, se é que existe, entre uma escola de arte no centro da cidade e na favela? Quais as relações entre a formação do artista e o território periférico

Isabela – A Elã, como uma escola de arte que se constitui a partir das perspectivas geográfica, corpórea, simbólica e política de favelas e periferias, aponta para construção de caminhos formativos no campo da arte que tragam a/o sujeita/o, seus territórios e suas experiências de mundo para o centro da estratégia pedagógica de construção de narrativas estéticas. 

Partimos do território, suas questões e suas/seus sujeitos. A arte é meio e fim, mas no processo é mobilizada conscientemente para que reflitamos sobre muitas outras questões que atravessam nossas/os alunas/os artistas e sobre a forma como estamos organizadas/os socialmente. Esse gesto de cuidado com a conexão territorial nos coloca, enquanto escola e enquanto sujeitas/os artistas, em contato com questões estruturais, corpóreas, econômicas, culturais e sociais muitas vezes invisíveis a processos formativos mobilizados em centralidades hegemônicas. Uma escola com nossa origem e missão, que nasce do trabalho que temos desenvolvido desde 2011 no Galpão Bela Maré, por exemplo, não pode ignorar que é nosso dever ter preocupações com os recursos necessários para as/os artistas se deslocarem até nós e com uma estrutura, mesmo que mínima, de alimentação/lanche durante o período de duração das atividades. 

5 – O Godard em um dos seus últimos filmes comenta criticamente a fórmula que liga cinema-ficção a Israel e cinema-documentário a Palestina. Como embaralhar essa lógica, como dar ao material simbólico produzido na adversidade social um ir-além (transformador) da realidade acachapante? 

Isabela – Não assisti o filme, Camillo, mas a partir das nossas perspectivas políticas, a arte, assim como a comunicação, sempre foram estratégias públicas de ir além, de embaralhar, de revelar fissuras, de tensionar certezas e multiplicar perspectivas. 

É preciso desemcachapar nossas formas de produção, não só artísticas mas também de cidade, e com certeza olhar para produções de artistas periféricas/os (assim como de educadoras/es, comunicadoras/es, programadoras/es, arquitetas/os, engenheiras/os, psicólogas/es e tantas outros especialistas periférica/os) vai  nos apontar caminhos simbólicos e concretos para superarmos as adversidades sociais que nos estruturam. 

Aruan – Percebo esta questão muito pertinente para o momento presente. Uma associação a esse debate sobre a dissociação entre cinema-ficção e o cinema-documentário pode ser feita com a realidade carioca quando do surgimento do Imagens do Povo, por exemplo. Naquele momento a produção fotográfica sobre as favelas tinha a incumbência do registro, de se materializar por suas bases documentais. No caso do Imagens do Povo, tal orientação se deu para o registro do cotidiano das favelas e suas potências. Vale ressaltar o caráter inovador dessa perspectiva, se contrapondo ao fotojornalismo que predominava à época. No presente, muito embora ainda seja fundamental ampliar a visibilidade das potências dos territórios populares em sua vida cotidiana, novas formas de expressão através da fotografia surgem, tratando com a mesma contundência os elementos da desigualdade social e sua conformação nas periferias, porém expandindo o sentido e o uso da imagem. Colagens, projeções, audiovisual, esculturas, dentre outras linguagens vem ganhando força e confirmam a ampliação do repertório e da versatilidade dos artistas oriundos dos territórios populares. 

6 – Uma das coisas mais interessantes desse trabalho de vocês aí na Maré é desconstruir os clichês, o lugar-comum sobre a favela, mostrando uma efervescência produtiva/criativa sem romantizar a pobreza, fazendo das lutas e conflitos cotidianos formas de resistência e invenção do (im)possível – viver apesar de tudo. Quais os principais desafios?

Isabela e Aruan – Sim, Camillo. Caminhamos, inclusive com os projetos do Observatório de Favelas, na via da proposição, produzindo narrativas que apresentam favelas e periferias, bem como suas/seus sujeitas/os, a partir de suas potências inventivas, sociais, econômicas, culturais, estéticas e de sociabilidade. É um trabalho que se apresenta na contramão de narrativas hegemônicas que historicamente estigmatizam estes territórios e as pessoas que neles vivem. 

O principal desafio, sem dúvidas, é a garantia da continuidade do trabalho, em tempos de tantos retrocessos políticos, econômicos e sociais. Historicamente sempre foi desafiador garantir recursos para artes e formação artística para territórios periféricos, em geral elas são lidas socialmente como “luxo”, como “privilégio” e, neste sentido, são campos de aprofundamento de desigualdades. 

Como favela não é hegemonicamente interpretada como “território da arte”, os investimentos públicos e privados respondem em consonância e vemos antigas lacunas na estruturação de programas que incentivem produção, formação e difusão artística em favelas e periferias. 

O que podemos garantir é que vamos seguir buscando responder à altura deste desafio! Sendo incansáveis na busca por parcerias que nos permitam seguir estruturando nosso trabalho e afirmando favela como território da arte e a arte como caminho para visibilização de sujeitas/os, territórios e questões periféricas.

7 – Como foi a experiência do Imagens do Povo junto ao IMS, discutindo e repensando, a partir daquele arquivo histórico, as imagens da cidade e o que há nela de visível e de invisível? 

Aruan – Esta experiência foi bastante significativa pra gente. Ao fim ganhou o nome de “Corpo Presente: releituras críticas do acervo IMS”. Selecionamos 4 fotógrafos associados ao Imagens do Povo para essa residência artística no IMS. Tínhamos o objetivo de produzir novos olhares para as obras clássicas do acervo. No primeiro momento conduzimos um processo de pesquisa e imersão no acervo. Foi disponibilizado aos 4 residentes todo o acervo do IMS para que pudessem realizar suas pesquisas e construir novas leituras dos trabalhos históricos que ali estão. No segundo momento, após realização da pesquisa, os residentes partiram para a produção, tendo a fotografia e a imagem como referência primordial. 

Este processo expôs lacunas significativas no acervo, as quais remontam à trajetória desigual da formação brasileira, em especial do Rio de Janeiro. Por isso, afirmar o corpo presente de sujeitos invisibilizados se tornou o tema central. Seja a partir do estranhamento do corpo militar, seja pela ausência do corpo trans, seja pela repetição do corpo-correria. 

8 – Como tem sido o trabalho de vocês aí na Maré no meio dessa pandemia? A auto-organização das comunidades e dos movimentos sociais é uma das lições positivas desta experiência traumática? 

Isabela e Aruan – Nos reorganizamos institucionalmente e hoje todos os nossos projetos têm ações concretas que respondem à Pandemia. Dois importantes destaques são a criação de uma campanha de comunicação “Como se proteger do coronavírus”, que informa moradores de favelas e periferias sobre prevenção e cuidado em tempos de coronavírus, e o Mapa Social do Corona, um conjunto de publicações que abordam diferentes dimensões para evidenciar os impactos desiguais da pandemia para as favelas e periferias da cidade. Utilizamos conceitos, referências e métodos acumulados ao longo da história do Observatório para desvelar o aprofundamento das desigualdades sociais neste período pandêmico e apontar saídas possíveis. Neste sentido, as soluções passam invariavelmente pelo protagonismo político das lideranças e organizações sociais dos territórios populares do Rio de Janeiro. 

Para não deixar de falar da Elã, apoiamos, em parceria com a Gerando Falcões, 18 artistas com cartões vale-alimentação como iniciativa de suporte à segurança alimentar dessas pessoas e suas famílias.

A partir do Imagens do Povo produzimos o ensaio fotográfico “Com Vidas” com os fotógrafos associados ao Programa que residem na Maré. Desde o início da pandemia nos questionávamos sobre as imagens que estavam sendo produzidas nas favelas e periferias, pois muitas delas poderiam ser utilizadas para criminalizar ainda mais estes territórios e seus moradores. Na contramão, produzimos imagens sobre as ações de solidariedade no território, sobre os desafios do isolamento e seu impacto na dinâmica de vida do trabalhador popular. Este ensaio foi construído também em parceria com o IMS a partir do programa convida para estímulo da produção artística neste período de pandemia. 

Do ponto de vista da instituição, ficam lições muito positivas sobre nossa capacidade de rápida resposta e de atuação articulada com esforços da iniciativa privada e de Universidades e Institutos Públicos de Pesquisa e o engajamento de doadores pessoas físicas. No entanto, não posso deixar de frisar a ausência abissal de ações emergenciais encabeçadas pelos governos em suas múltiplas esferas. 

Para ver todos os materiais já produzidos na campanha de comunicação “Como se proteger do coronavírus”, acesse: http://observatoriodefavelas.org.br/como-se-proteger-do-coronavirus/
Para ver todas as edições do Mapa Social do Corona, acesse: https://of.org.br/acervo/mapa-social-do-corona/
Para ver as três publicações do ensaio Com Vidas, acesse: http://www.imagensdopovo.org.br/historico/



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