“Arte e psicanálise”, novo episódio do Podcast! Veja as referências feitas por Guilherme Gutman

Depois de uma pausa, retornamos hoje com a primeira temporada do PIPA podcast. Neste sétimo episódio, “Arte e psicanálise”, conversamos com Guilherme Gutman, membro do Comitê de Indicação do Prêmio PIPA 2016.

Gutman é psiquiatra, psicanalista e professor universitário da PUC-Rio e realiza pesquisas na área de intersecção entre a psicanálise, a psicopatologia, a filosofia, a literatura e as artes visuais. Em julho, ele escreveu o texto “É isso o Inconsciente? Sei lá”, em que elabora como a instância do desconhecido individual pode influenciar a criação, assim como a experiência estética de quem observa um trabalho artístico é permitida pelo inconsciente. No episódio, Gutman fala sobre as convergências entre a psicanálise e a arte.

Abaixo, você pode conferir quais as referências foram feitas durante a conversa.

Ouça agora o sétimo episódio do podcast clicando aqui ou acesse nas plataformas de streaming, como Spotify e Apple podcast, além do nosso canal Prêmio PIPA no Youtube.


  • “O Davi de Michelangelo”, de Freud

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, escreveu um artigo em 1914, “Moisés de Michelangelo”. Mesmo não sendo conhecedor nas artes plásticas, Freud relatou suas impressões sobre a escultura de mesmo nome, que muito lhe afetava. Na introdução do artigo, ele escreveu: “Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta”. Segundo Freud, essa foi a motivação que o levou a falar sobre a obra de arte.
Leia o artigo completo: Moisés de Miguelangelo [Freud – 1914].


  • Arte bruta, outsider art e arte virgem

A expressão Art Brut (Arte Bruta) foi criada pelo pintor francês Jean Dubuffet (1901-1985) em 1947. O movimento caracteriza o trabalho produzido “fora do sistema tradicional e profissional da arte” (pelo que é também conhecido por Outsider Art), que Dubuffet considerava mais autêntico e verdadeiro que o dos artistas eruditos, reconhecidos pelo circuito artístico. O conceito de Arte Bruta pretendia englobar produções muito diversificadas realizadas por um carácter espontâneo e imaginativo. Englobava também algumas realizações de carácter público e coletivo, como o graffiti.

Nas palavras do francês, “Entendemos pelo termo (arte bruta) as obras executadas por pessoas alheias à cultura artística, para as quais o mimetismo contrariamente ao que ocorre com os intelectuais desempenha um papel menor, de modo que seus autores tiram tudo (temas, escolha de materiais, meios de transposição, ritmo, modos de escrita etc.) de suas próprias fontes e não dos decalques da arte clássica ou da arte da moda. Assistimos à operação pura, bruta, reinventada em todas as fases por seu autor, a partir exclusivamente de seus próprios impulsos”.

Na mesma época, nos anos 1940, Mário Pedrosa chamava de arte virgem um semelhante movimento no Brasil. Ele acreditava que a divulgação da arte de pessoas fora do sistema tradicional, como psicóticos, crianças e arte naïf, teria um efeito didático num ambiente cultural ainda preso a uma estética figurativa e de viés naturalista.

Um caso curioso é o do trabalhador rural, vigia e pintor (entre muitas outras atividades) José Antônio da Silva que, no final dos quarenta, tornou-se uma “celebridade” no meio artístico paulistano. Em 1946, Silva participou da exposição de inauguração da Casa de Cultura de São José do Rio Preto, evento que foi também um salão de pintura, cujo júri era composto pelos críticos Lourival Gomes Machado, Paulo Mendes de Almeida e pelo filósofo João Cruz Costa. Os jurados premiaram três trabalhos de Silva: Boizinhos, Dom Pedro e José Bonifácio e Passeio de Jangada. As pinturas eram feitas sobre flanela, com gestos aparentes, cores estridentes e sem nenhuma ilusão de profundidade. Na ocasião, os críticos fizeram uma palestra em que Lourival Gomes Machado mostrou os quadros de Silva de cabeça para baixo para provar que, em arte, as questões cromáticas e formais são mais importantes que o tema, pois os trabalhos “funcionavam” em qualquer posição. A elite da cidade não deixou que o prêmio fosse dado a Silva, mas o episódio serviu de passaporte para sua entrada no circuito artístico da capital paulista.

 

 

Era a arte virgem entrando junto com a abstração e o construtivismo nas instituições. No final da década de quarenta, os desenhos, pinturas e esculturas feitos por pacientes dos psiquiatras Nise da Silveira e Osório César começaram a ser expostos em centros culturais e museus. Mário Pedrosa defendeu publicamente o valor artístico dos trabalhos produzidos por pacientes de Silveira e apoiou as primeiras escolinhas de arte para crianças coordenadas por Ivan Serpa, futuro líder do Grupo Frente, a partir de 1947, no Rio de Janeiro. Para ele, não havia oposição entre a arte virgem e a arte construtiva, pois ambas revelavam os padrões estéticos universais que haviam sido identificados pela teoria da Gestalt. Pensava que os “virgens”, por não estarem condicionados às normas artísticas convencionais, estariam mais aptos a manifestar espontaneamente formas de origem inconsciente que corresponderiam a valores estéticos objetivos, tais como noções de simetria, equilíbrio e ritmo. Segundo o crítico, da mesma maneira, a arte concreta correspondia a impulsos elementares e inconscientes de organização. O fenômeno artístico era considerado como “natural” e justificado cientificamente pela Gestalt.


Manoela Medeiros, indicada ao Prêmio PIPA 2018, utiliza em sua pesquisa diferentes mídias, essencialmente: escultura, pintura e instalação. Tendo a presença e a utilização do corpo como o principal instrumento no processo de pesquisa do seu trabalho, a artista tenta tocar abstrações através de questionamentos sobre tempo e espaço, vazio e invisível. Para esses trabalhos, Manoela realiza escavações em paredes, muros e ruínas e os utiliza como matéria-prima o próprio trabalho. A artista brasileira prefere trabalhar in situ, dentro e a partir dos espaços. “Evoco essas presenças de diferentes formas, muitas vezes pela própria ação da ruína – por exemplo, a decomposição de uma matéria orgânica ou de uma parede. A ruína me interessa muito a partir de sua ligação com a arqueologia, que mostra o tempo todo que as histórias são contadas de diferentes pontos de vista”, analisa a artista em entrevista ao RFI.

Manoela já apresentou seu trabalho na Galeria Thaddaeus Ropac (Paris), Fundação Iberê Camargo (Porto Alegre), Fortes D’Aloia & Gabriel (São Paulo), Caixa Cultural (Rio de Janeiro), Le Beffroi (Paris) entre outros. Dentre suas exposições individuais recentes destacam-se “Poeira Varrida”na galeria Fortes D’Aloia & Gabriel (São Paulo, Brasil), 2017 e “Falling Walls” Double V Gallery (Marselha, França), 2017.


  • Bispo (Arthur Bispo do Rosário)

Arthur Bispo do Rosário (Japaratuba, Sergipe, 1911 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1989) é considerado artista visual, mas seu trabalho nunca foi desenvolvido com essa intenção de torná-lo arte. Diagnosticado como esquizofrênico-paranoico, é internado na Colônia Juliano Moreira, no bairro de Jacarepaguá. No começo da década de 1960, trabalha na Clínica Pediátrica AMIU, onde vive em um quartinho, no sótão. Ali, inicia seus trabalhos, criando, com materiais rudimentares, diversas miniaturas, como navios de guerra e automóveis, além de vários bordados. Em 1964, regressa à Colônia, onde consolida por volta de 1.000 peças com elementos do dia a dia.

Os trabalhos de Bispo variam entre justaposições de objetos e bordados. Nas obras do primeiro tipo, geralmente usa itens de seu cotidiano na Colônia, como canecas de alumínio, botões, colheres, madeira de caixas de fruta, garrafas de plástico, calçados e materiais comprados por ele ou pessoas amigas. Para os bordados, usa tecidos disponíveis, como lençóis ou roupas, e obtém os fios ao desfiar o uniforme azul de interno.

Bispo preparava com seus trabalhos uma espécie de inventário do mundo para o dia do Juízo Final. Nesse dia, ele se apresentaria a Deus com um manto especial, enquanto representante dos homens e das coisas existentes. O manto bordado traz o nome das pessoas conhecidas, para não se esquecer de interceder junto a Deus por elas. Também faz estandartes, fardões, faixas de miss, fichários, entre outros, nos quais borda desenhos, nomes de pessoas e lugares, além de frases referentes a notícias de jornal ou episódios bíblicos, reunindo-os em uma espécie de cartografia. A criação das peças, para ele, é uma tarefa imposta por vozes que diz ouvir.

 


  • Manuel Messias 

Manuel Messias (Aracajú, SE, 1945 – Rio de Janeiro, RJ, 2001) chegou ao Rio de Janeiro com cinco anos de idade acompanhado de uma tia e da avó. Ao fazerem esta viagem de ônibus pararam em Salvador e ali permaneceram por dois anos. Leonídio Ribeiro, diretor do Museu de Arte Moderna, contratou mais tarde sua tia  como doméstica. Isso facilitou seu ingresso no mundo artístico e o levou a frequentar as aulas do artista plástico Ivan Serpa. Foi aluno da Escola Nacional de Belas Artes, por alguns meses e assistiu ali aulas de Abelardo Zaluar. Nesse tempo dedicou-se tanto à xilogravura que se tornou seu primeiro e único meio de expressão. Dentre as primeiras imagens que expressou foram aquelas que deixaram marca em sua infância nordestina: a fome, a miséria, entre outros temas.

Teve sua primeira exposição individual na Galeria Fátima, em 1968. Participou das bienais da Bahia (1966) e recebeu três prêmios em 1980, na II Bienal Iberoamericana do México, na Mostra Anual de Gravura de Curitiba; III Salão Nacional de Artes Plásticas no Rio de Janeiro. Participou também do Salão Nacional de Arte Moderna (1965 e 1968); do II Salão Esso de Artistas Jovens (1968) e do II Salão de Verão (1970); A exposição “3 aspectos da gravura brasileira”, foi uma exposição itinerante e percorreu muitos países da américa latina (1968). Além dessas mostras fez parte da “Depoimento de uma geração – 1969-1970”, na Galeria BANERJ, Rio de Janeiro (1986); e da mostra com Goeldi e Marcelo Grassmann na Bolsa de Arte, Rio de Janeiro (1974). Em meados dos anos 80 o artista foi tema de reportagens em jornais cariocas: vivia na completa miséria, depois de ter sido considerado pela crítica um dos nomes mais importantes da arte da gravura no Brasil.


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