“Aleta Valente – jogos de cena”, por Luiz Camillo Osorio

No novo texto de Luiz Camillo Osorio, “Aleta Valente – jogos de cena”, o curador do Instituto PIPA analisa o trabalho de Aleta Valente, ou Ex-miss Febem no Instagram. Aleta, no início do perfil, postava imagens de autoficção representando a si mesma e também “a mulher do subúrbio carioca”. Com isso, seu trabalho evidencia a disseminação das imagens nas redes sociais, “um processo que não a deixa fazer de sua poética uma pesquisa conceitual. A pesquisa aqui é o próprio fazer sem método definido, no que ele tem de tentativa e erro, programa e acaso, jogo de cena e achado poético”, segundo Camillo.


Aleta Valente – jogos de cena, por Luiz Camillo Osorio

No final de 2019 o Instituto PIPA adquiriu um conjunto de fotografias de Aleta Valente, sete ao todo, além de uma obra realizada sobre espelho. Seguem abaixo algumas anotações sobre sua poética e intervenções nas redes sociais. São observações pautadas no meu interesse por imagens que transitam sem um endereçamento certo, por uma produção sem lugar institucional garantido. Sendo e não-sendo arte.   

Meu primeiro contato com seu trabalho deu-se quando ela foi indicada ao Prêmio PIPA 2016 e, naquela ocasião, recebeu uma grande quantidade de votos na edição online do Prêmio. Vi ali, o que era incomum, um tipo de produção que se encaixava bem nessa circulação online, ou melhor, tinha sua origem associada a esse tipo de disseminação. 

Além disso, era um trabalho inteligente, bem humorado, sarcástico. Em 2015 ela criou uma personagem/avatar no Instagram chamada Ex-Miss-Febem. Durante dois anos, até ser interditada pela plataforma, ela postou ali diariamente comentários visuais e autorretratos, em que o cotidiano se apresenta descortinado e reinventado. O mais importante era a capacidade de deslocar e dar outra voz e cara ao que se passava no mundo e ao que se passava consigo. Ela vendo o mundo, nós vendo o mundo através dela, o mundo sendo desvelado por ela, ela se transformando através do mundo. Tudo na rapidez da vida online; despretensioso, porém contundente. Algo, todavia, se descolava da velocidade informativa e se fazia interrogação, reflexão, uma espécie de imagem pensante. 

Ficcionalizar a si mesmo. Comentar, desmontar, remontar a realidade. Pôr tudo em movimento. Fazia isso, aparentemente, pois não havia outra coisa a fazer. Tinha uma rotina, fazia disso um procedimento, não um aprisionamento. Repetir. Hesitar. Não parar. Deixar as imagens, imagens-frase, circularem. No fluxo da circulação surgem as estrias, uma espécie de quebra-molas abrupto que obriga o olho a frear. Nesse jogo da circulação e da reflexão foi se produzindo uma poética na dinâmica ruidosa das redes sociais. Uma poética contaminada pela urgência de ter que se realizar em um ambiente desprotegido. A tendência aí é a dispersão.  Voltamos aqui à pergunta de Walter Benjamin: como pensar na dispersão?    

Essa pergunta se responde fazendo. Daí sua incontornável experimentação e risco. Como diz a própria artista: “comprar o risco e mostrar que as coisas têm nuances”1. A ambivalência surge justamente como um preço a ser pago pela insegurança dessas imagens que transitam como enxames pela rede. Esse processo não a deixa fazer de sua poética uma pesquisa conceitual. A pesquisa aqui é o próprio fazer sem método definido, no que ele tem de tentativa e erro, programa e acaso, jogo de cena e achado poético. 

Por falar em Jogo de Cena fui rever o documentário do Eduardo Coutinho. Aleta Valente aparece nele. Ela é ela e a Fernanda Torres é ela também. O real e seu duplo. Uma vida-personagem dividida em duas: uma vida sentida e uma vida representada. Como distingui-las? Justamente por ser uma grande atriz, a Fernanda Torres não deu conta da fala alheia. Falhou, pois entre a representação e a vida há um incômodo do corpo que não se deixa capturar. Ali na fala da Aleta esse incômodo se expressava em um riso nervoso que saía nos momentos mais trágicos da entrevista. Esse riso vinha de um lugar que a atriz (Fernanda Torres) não encontrou, nem podia encontrar. A própria artista (Aleta Valente), indiretamente, fala desse incômodo em uma resposta dada à revista Select: “todo o desdobramento, de ver as pessoas na première rindo ou fazendo comentários, foi muito brutal. Tudo o que eu queria me distanciar estava explícito ali: vulnerabilidade, pobreza, desespero, medo da loucura….mas isso me abriu para entender também como eu representava a mim mesma”.

Foi também um aprendizado para perceber o quanto o “si mesmo” e a “imagem de si” não precisavam (não precisam) coincidir. Na verdade, querer colar um no outro é uma ilusão e um empobrecimento. Um fragmento de Fernando Pessoa que Wim Wenders grafita na parede em Lisbon Story vai nessa mesma direção: “Ah! não ser eu toda a gente e toda a parte”. A criação de si nos avatares do Instagram foi uma estratégia de heteronomia, de multiplicação de si diante do fluxo cotidiano e seus desafios de adaptação e fuga. 

Nos seus autorretratos as personagens vão sendo compostas pelo enquadramento da imagem, pelo uso dos objetos-acessórios, pelas poses, pela luz, pelas frase-títulos. Ela é objeto e sujeito das suas imagens, ela posa e ela provoca, por isso raramente está de frente, é mais comum vemo-la do alto ou do chão. Diferentemente das personagens de Cindy Sherman, a personagem aqui não é um disfarce, é um duplo. Ela vive a máscara, ela se expõe junto. A vulnerabilidade não é desfeita na construção autoficcional. 

Muito tem sido discutido de sua militância nas redes. Mãe adolescente, mulher do subúrbio, ex-miss-febem do Instagram, artista que produz e combate em ambiente contaminado. O melhor dessa militância tem a ver com a força das nuances, da vulnerabilidade, das imagens-frase que se descolam do fluxo e do lixo. Nesse aspecto cabe falar da intempestividade, de pertencer e de ser inadequada simultaneamente. De ser artista no instagram e ativista no meio de arte. De ser burguesa na periferia e periférica na burguesia. De atuar na aceleração e produzir freadas inesperadas. De produzir enxames de imagens e tirá-las da indiferença. Se apropriar de tudo e dar ao impessoal um estilo próprio.

Não posso não falar de sua exposição na galeria Gentil Carioca no final de 2019. Era um desafio levar esse vendaval das redes para o espaço sossegado da galeria. Como não estetizar a imagem ruidosa? Como apostar na singularidade da imagem diante da indiferença do enxame? A primeira questão parecia-me o maior perigo, pois na própria disseminação das redes era notável a presença da imagem pensante. Mas o risco de estetizar era fácil, galerias e mercado pedem isso, muitas vezes. Mas não. Sua montagem replicou a dinâmica em cascata das imagens no mundo virtual, sobrepondo imagens destacadas, impressas e emolduradas, com imagens ampliadas e plotadas como papel de parede. Em uma sala da galeria a personagem-mulher, na outra a mulher-personagem, a luta cotidiana e a ficção necessária, o estar dentro da imagem e o se colocar fora dela, arte e militância, tudo ao mesmo tempo e junto e sem afetação. Os espelhos, com autorretratos e frases plotadas multiplicavam a cacofonia e a reflexividade, no jogo entre a materialidade da imagem e a incorporação do olhar que vê de fora. 

Para terminar sem acabar, queria comentar seu último projeto ainda em fase de elaboração sobre a Avenida Brasil. Contemplada com a bolsa ZUM do IMS, este projeto de Valente é um mergulho nessa que é a via de acesso ao Rio, por onde circulam todos que moram em regiões da periferia carioca e trabalham no centro. Uma via pela qual ela circulou bastante, especialmente enquanto estudava no Fundão (UFRJ). Vivenciou ali de tudo. Engarrafamento, surpresa, exaustão, tédio, feiura, medo, poesia; uma variedade poliédrica de afetos e sensações típica de quem está circulando entre o anestesiamento e a atenção. A janela do ônibus e a tela do computador ou do celular dão acesso a um mundo em movimento, que se repete, que é chato e viciante. O desafio em projetos dessa natureza é como desdobrar a etnografia em poesia, a descrição em fabulação, retirando do já visto alguma vidência impensada. Do Instagram à Avenida Brasil, vivemos mergulhados em uma selva de signos e ruídos. Ou afogamos na insignificação catatônica ou trabalhamos na apropriação, deslocamento, mixagem de fragmentos e sensações, traduzindo e inventando, nessa cacofonia toda, algumas imagens pensantes, momentos de sentido.                       

1. Comentário da artista em uma live que fizemos juntos no projeto Not-Cancelled em 26/6/2020.

 

Obras de Aleta Valente adquiridas pelo Instituto PIPA em 2019:

           



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