Reprodução Fotográfica Vicente de Mello

“É isso o Inconsciente? Sei lá.”, por Guilherme Gutman em diálogo com o último texto de Luiz Camillo Osorio

O professor, psiquiatra e psicanalista Guilherme Gutman, que atualmente está ministrando o curso online “Uma erótica do tempo da arte”, escreveu um texto em diálogo com o último publicado na coluna de Luiz Camillo Osorio, “Isso é arte? Sei lá.”. Gutman, que realiza pesquisa na área de intersecção entre a psicanálise, a psicopatologia, a filosofia e a arte, discute em “É isso o Inconsciente? Sei lá.” a ideia da “indeterminação da experiência estética forte”, esse “saber lá” levantado por Camillo.

Ao longo do texto, Gutman destaca trechos de Camillo e os comenta, trazendo exemplos como uma entrevista de Clarice Lispector e uma expressão de Ligia Clark, além de referências à psicanálise, com o conceito de inconsciente, o “Outro lugar”, e sua relação com a arte. O psiquiatra menciona, também, o interessante “desconcerto de quem vê as suas certezas e referências em arte não bastarem para dar conta da potência de uma dada experiência estética para a qual, paradoxalmente, não se pode negar o estatuto de arte”.

Mais informações sobre o curso “Uma erótica do tempo da arte” podem ser acessadas aqui.


“É isso o Inconsciente? Sei lá.”, por Guilherme Gutman

 

Caminhávamos pelo vão central do MAM-Rio, quando Luiz Camillo me falou pela primeira vez do texto que ele havia escrito há anos, em sua coluna regular no jornal O Globo; e sobre a celeuma que o título havia então causado.

Em seu escrito mais recente, publicado agora na plataforma do PIPA, ele fala do episódio do modo que segue:

O título desta crítica, dada por quem editou o texto no jornal, dizia algo um tanto provocativo – que a obra de Bispo não era arte. Não estava exatamente errado do ponto de vista do que estava escrito na crítica, mas não era, tampouco, toda a verdade do texto. Foi o suficiente para gerar uma enorme polêmica, que no calor dos ataques acabava por reduzir meu argumento à negação do valor artístico de Bispo; como se um crítico pudesse calar aquela potência. Nunca foi esse o ponto. Certamente, se escrevesse hoje, escreveria de outro modo, com mais atenção aos detalhes e à complexidade do tema. Mas o núcleo do texto segue valendo e creio que nos remete para esse saber lá propiciado pela experiência estética. Em certa medida, esse era o ponto, limitar o que vemos na obra de Bispo a ser arte, parece-me pouco.

É precisamente sobre esse “saber lá” ao qual Camillo faz referência na citação acima (também no título de seu recente artigo – Isso é arte? Sei lá) que conversávamos no MAM e sobre o qual prosseguimos conversando, de um jeito ou de outro, ao longo do tempo, como neste meu escrito-diálogo a respeito da arte e de um “para além da arte”.

A indeterminação da experiência estética forte, em seu estado bruto, também faz lembrar a conhecida última entrevista dada para a televisão por Clarice Lispector. Em dado momento, lhe é dirigida uma pergunta sobre o significado, algo como um “o que você quis dizer” no conto x ou livro y, a qual ela responde com um surpreendente: “E eu sei lá.” Era como se o entrevistador pudesse receber de Clarice, em palavras, a potência de algo que, afinal, não nos adentra pela porta da frente, mas pelas frestas. Tudo o que ela poderia realmente dizer sobre algo que, ainda que escrito por ela, já lhe era inacessível, já não lhe pertencia; que veio de “Outro lugar” e que, àquela altura, já estava em “outro lugar também. É a esse Outro lugar que Freud e outras psicanálises chamam Inconsciente.

Quando Camillo escreve sobre um tal “saber lá”, ou quando reflete sobre a presença do “sei lá” no título inventado para o seu texto, ele parece convidar o psicanalista a levantar da cadeira e de caminhar e pensar com ele, mais uma vez, pelos espaços do Museu.

Vejamos este outro trecho do que escreveu Luiz Camillo:

(O “sei lá”) aponta (…) para um saber que se dá em outro lugar, fora do que convencionalmente denominamos de condições de possibilidade do conhecimento. Neste outro lugar, lá, eu sei. Ou melhor, não se trata de um eu que constitua o saber, mas de um saber que se faz em mim. (…).

Ser afetado esteticamente é ser deslocado do seu lugar, ser convidado a sair de si e ir, pela experiência, em direção a um não-saber que abre caminho para a instalação de um outro-saber. Experiência estética aqui não é só o arrebatamento, é também o movimento interno de espanto diante de gestos desconcertantes dos artistas que introduzem o inesperado revelador.

É claro que não foi sonegada a qualidade de arte às tão impressionantes criações de Bispo do Rosário, ainda que para Bispo, o mandamento maior para que produzisse incessantemente e por tanto tempo os seus objetos magníficos fosse da ordem de um imperativo delirante. Para Bispo, a qualidade estética de seu trabalho era experimentada como secundária.

A questão é a de entender que, de uma experiência estética total, não nos cabe uma aproximação com aquilo que já sabemos mas, antes, cabe a nós pela coragem, a abertura a um saber “que se faz em mim”. 

É arte e é para além (ou “para fora”) da arte. Ou como escreveu Camillo “A coisa é, e não é arte”, o que nos leva todos à expressão de Ligia Clark: “estado de arte sem arte”.

Pela força de um mandamento divino, Bispo construiu sob formas e técnicas sortidas todos os objetos presentes no mundo que conheceu ou imaginou, com a intenção de que fossem apresentados por ele a Deus, no dia do juízo final. Bispo trabalhou sério; o que fez, foi com todo cuidado, com paciência e com o esmero que se deve esperar de uma missão enviada diretamente por Deus. Como disse Mario Pedrosa a respeito de outros criadores “virgens”, ainda que movidos por outros vetores, muitas vezes passando ao largo de qualquer elemento da assim chamada cena artística, acontece daquilo que foi produzido poder ser – peço atenção à riqueza simples da palavra – “belo”.

Neste caso, estamos pisando o terreno da art brut, assim chamada por Dubuffet em oposição à então chamada “arte psicopatológica”. Contudo, o alvo de Camillo é outro: a força do impacto que certos trabalhos – oficialmente artísticos ou não – possam ter sobre cada um de nós.

Em outras palavras, o que se interroga fundamentalmente é o acontecimento estético que não é nem programado nem dicionarizado e que retira dessa atopia a sua força e o seu poder de provocar no expectador espanto, estranheza e uma espécie de deslocar-se de si mesmo.

É possível reconhecer no pensamento freudiano, em especial em sua vertente clínica, a tematização desse “deslocar-se de si mesmo. De algum modo, toda a montagem do chamado set analítico promove a reunião das condições de possibilidade para que o sujeito que busca a análise faça contato com um material que, sem deixar de ser dele mesmo, está fora de sua consciência e inacessível a ela.

Não que se esteja falando necessariamente da loucura ou mesmo de qualquer coisa que concerna apenas à clínica. Bem, talvez também não seja preciso “separar tanto” onde terminaria o pensamento filosófico e a partir de que ponto a psicanálise entra; um pensamento parece beneficiar o outro. Assim como se perderia tempo na tentativa inglória de encontrarmos critérios para o estabelecimento de uma espécie de fronteira entre o que é arte e aquilo que não deveria ser arte, algo também nos é subtraído quando pensamos diferenciar o que deve ser objeto da clínica, daquilo que é apenas o conjunto de possibilidades expressivas de uma outra forma de viver.

Camillo começa com Bispo, mas seu escrito se desdobra pelos trabalhos de outros criadores, que apresentaram criações que também resultaram naquele desconcerto de quem vê as suas certezas e referências em arte não bastarem para dar conta da potência de uma dada experiência estética para a qual, paradoxalmente, não se pode negar o estatuto de arte.

Por onde entra em nós mesmos esta experiência que buscamos cercar agora, e que carrega a mesma potência de deslocamento existencial, mas que escapa do discurso precisamente porque a sua característica capital é exatamente a de não fazer parte de nosso universo simbólico: o da linguagem?

Há nisso duas coisas que se articulam: primeiro, a qualidade real desta experiência simultaneamente estética e existencial; desconcertante e desestabilizadora ao mesmo tempo. Há também um segundo momento, parte deste mesmo desconcerto. Nele, notamos pela via da experiência que esse “sei lá de onde” nos atinge como um raio; ou como uma chuva fina. Quando algum tempo depois pode ser vertido em palavras, podemos dizer que ele tem seu ponto de origem em um Outro lugar, parte de nós mesmos.



O PIPA respeita a liberdade de expressão e adverte que algumas imagens de trabalhos publicadas nesse site podem ser consideradas inadequadas para menores de 18 anos. Copyright © Instituto PIPA