No estúdio do escultor Henri Presset, Geneva, 1962. Fotógrafo: © Jean Mohr, Musée de l’Elysée, Lausanne.

“JOHN BERGER: pensar com o olho, agir com o texto”, texto crítico de Luiz Camillo Osorio

Depois de ler a biografia do escritor e crítico de arte John Berger, “A Writer of Our Time: The Life and Work of John Berger”, editada pela Verso e escrita por Joshua Sperling, o curador do Instituto PIPA Luiz Camillo Osorio compara a política do século XX, de “pensar o impossível”, com a experiência do século XXI, que, segundo ele, configura tempos sombrios marcados pelo não pensamento.

Inspirado no livro bestseller “Modos de ver” (1972), de Berger, que se seguiu ao programa televisivo homônimo, Luiz Camillo analisa, com um tom nostálgico, aquele período em que era trivial imaginar caminhos para um futuro em aberto. No campo artístico, Berger representava esse paradigma ao lutar por movimentos heterogêneos e anti-hegemônicos no meio televisivo. Nas telas, Berger explorava as temporalidades da imagem recortada, da voz e do corpo performático, linguagem que configurava uma nova escrita visual da história da arte nos anos 1970.

“John Berger falava das imagens e dizia delas o que não cabia no visível. Ou melhor, retirava do visível, do que se vê, o que seria evidente e pré-concebido”, escreveu Camillo. Hoje, segundo o curador, “intelectuais públicos como Berger, para quem pensar pode ser infame, fazem falta”.


JOHN BERGER: pensar com o olho, agir com o texto

Nestes tempos difíceis em que vivemos, ando com nostalgia do século XX. Não se trata de uma fuga, é só um sentimento. Não que o século passado tenha sido um período sem turbulências. Muito pelo contrário; tivemos duas terríveis guerras mundiais, regimes totalitários e holocausto. Época que transformou o mal radical na banalidade do mal. Entretanto, havia horizonte para imaginarmos outros mundos possíveis. Construímos na segunda parte do século uma possibilidade concreta de combinarmos alguma liberdade e certa igualdade. O futuro estava aberto. 

A leitura recente da biografia de John Berger intitulada “A Writer of Our Time: The Life and Work of John Berger”, editada pela Verso e escrita por Joshua Sperling, foi mais um ingrediente para temperar a nostalgia. A vida intelectual de Berger desenvolveu-se no pós-guerra. Escritor e crítico polêmico, fez do texto uma arma de combate, misturando urgência e poesia. O embate de Berger – e de sua geração – era sempre por uma arte e uma escrita que se mantivessem filiadas à luta contra a opressão e em sintonia com formas de vida heterogêneas e anti-hegemônicas. 

A sensação, lendo esta biografia de John Berger, é de que sua escrita lutava por brechas em relação ao futuro. Importava mais abrir caminhos do que chegar. Hoje vivemos a gestão do não-tempo. Uma contradição desesperada. Perdemos o ritmo, ou seja, sucumbimos à ansiedade do movimento, de fazer tudo e não desejar nada. Estamos cercados de gente e a solidão cresce. O ritmo nos sintoniza com o mundo, cria as formas possíveis de viver junto. 

John Berger foi mudando ao longo de sua trajetória o ritmo de sua escrita, de seu estilo, de suas atividades críticas e criativas, procurando constantemente novas formas de vida. Desde a década de 1970 (até sua morte em 2017) viveu entre Paris e um vilarejo nos alpes, com menos de mil habitantes e vida ligada à terra e à natureza. Ali, segundo ele próprio, encontrou-se no mundo. Seus textos ficaram menos indignados, mas não menos combativos. Ali ele achou um tempo diferente, encontrou seu ritmo, sua respiração. 

Ele é conhecido por seu livro bestseller “Modos de ver” que se seguiu ao programa televisivo homônimo de 1972. Quando comecei a estudar história da arte em Londres em 1985 foi dos primeiros livros que li. Lia-o admirando a capacidade de juntar coisas, momentos históricos, tipos culturais contrastantes, imagens artísticas e publicitárias. A história da arte era atravessada de vida. Sua lição primeira era a capacidade de traduzir o que vemos em formas de intervenção no mundo – no nosso mundo. Não se trata de ilustrar ou determinar ideologicamente a arte e os modos de ver. Muito pelo contrário, tratava-se de tentar sempre comprometer o ver com o imaginar e o viver. Como ele apontava, já em 1959, “every way of looking the world implies a certain relationship with that world, and every relationship implies action”. 1

Para além do prazer inerente à experiência da arte, o fio condutor era a pergunta sobre o que fazemos com a arte, de que modo ela atravessa as vidas das pessoas e aponta para problemas a serem enfrentados – se de fato queremos dar à arte, a nós e ao mundo o que nos é de direito. Falar da arte era falar de algo ao mesmo tempo mais simples e mais complexo do que normalmente lemos a seu respeito. Simples pois trata-se de vida, complexo pois a vida não está dada, resolvida, disposta para ser reconhecida por quem vê. Não havia uma ideia de arte engajada; o que havia era a certeza de que a arte nos engaja na busca por algo indeterminado e a ser compartilhado. 

Um ponto que nunca foi resolvido era sua indisposição para a arte abstrata. Não sabia vê-la e tomava a não-representação como auto-referencialidade, arte pela arte, alienação. Ninguém é perfeito. Comprou inúmeras brigas desnecessárias e deixou de perceber grande parte da melhor arte do século XX. A certa altura, talvez ciente de sua deficiência, começou a escrever sobre os mestres modernos e sobre fotografia. Foi na fotografia que assumiu sua contemporaneidade. Foi junto com o fotógrafo suíço Jean Mohr que John Berger escreveu seus ensaios político-visuais mais instigantes: Fortunate Man e Seventh Man. O primeiro sobre a vida de um discreto médico de província, dedicando sua vida ao cuidado e à saúde pública; o segundo sobre imagens de emigrantes na Europa, escrito ainda na década de 1970, mas que recentemente ganhou aguda atualidade. Além desses dois, há ainda o magnífico Another way of telling.

John Berger falava das imagens e dizia delas o que não cabia no visível. Ou melhor retirava do visível, do que se vê, o que seria evidente e pré-concebido. Encontro nas palavras de Foucault, escritas um pouco antes, em 1967, numa resenha que fez de dois livros de Erwin Panofsky, algo que vai ao encontro do projeto de Berger e sua vontade de bascular nossos modos de ver. Segundo o filósofo francês: “Estamos convencidos, sabemos, que tudo fala em uma cultura: as estruturas da linguagem dão sua forma à ordem das coisas. Assim, (…) as formas plásticas eram textos investidos na pedra, nas linhas ou nas cores; analisar um capitel, uma iluminura, era manifestar o que “isto queria dizer”: restaurar o discurso lá onde, para falar mais diretamente, ele havia se despido de suas palavras.” 2

Seja no livro modos de ver, mas mais evidentemente na série televisiva, Berger fez suas palavras intervirem junto à imagem, fazendo-as mobilizar o olhar para restaurar sentidos menos evidentes e mais atuais. Interessante compararmos este programa de arte para a TV com um outro anterior, também de enorme sucesso, apresentado por Keneth Clark, chamado Civilization. Este usava a Televisão como uma mídia neutra que trazia sempre o narrador falando sobre as obras como se fosse um livro ilustrado. Berger intervinha na linguagem televisiva, usava sua urgência e dinamismo, acelerava e desacelerava o olhar, fazia o telespectador consciente do veículo e do modo como suas formas de ver estavam condicionadas por este dispositivo. 

Há algo em Berger muito próximo do Museu Imaginário de Malraux: ambos repensam a história da arte na sua relação com a imagem técnica e o modo como a estrutura da percepção foi abalada pelos novos meios de reprodução (fotografia e TV). Junto a uma enorme montagem com imagens apropriadas e combinadas arbitrariamente, ambos desrespeitavam, quiçá desprezavam, as normas acadêmicas, apostando suas fichas no embate empírico e na capacidade das palavras, no estilo da escrita, traduzirem um momento da experiência que seria também invenção discursiva. O legível e o visível comprometem-se com a crítica e o encantamento inerentes ao olho e ao espírito. 

Todavia, o que em Malraux foi se transformando em uma ávida busca pela atemporalidade das formas, em Berger foi um esforço contínuo de situar as imagens no tempo. Assim constatamos o esforço em trabalhar no limite do televisivo, tensionando as temporalidades do (tele)visível e do audível, performatizando a narração, dando corpo, voz e imagem para uma nova escrita visual da história da arte. Quando o programa da BBC virou um enorme sucesso, foi pensada a transposição para a forma livro. Processo que implicou uma atualização e um novo modo de articular texto e imagem. Nesse caso, os 4 episódios viraram 7 capítulos, sendo que 3 deles são puramente visuais, uma experimentação de montagem que aponta para o modo como o gesto crítico se desloca para o gesto curatorial: juntando formas visuais e tempos históricos que muitas vezes parecem não relacionáveis, mas que, uma vez juntados, se tornam absolutamente instigantes.

Intelectuais públicos como Berger, para quem pensar pode ser infame, fazem falta em nossa época. Mesmo que discordemos muitas vezes dele, somos constantemente provocados a sair do lugar comum. Lê-lo trouxe-me um sentimento de que a radicalidade e a vivacidade, ou seja, a política do século XX, tinha a ver com pensar o impossível. Para o bem e para o mal. Em alguma medida, a mediocridade inerente ao não pensamento, tão em voga em tempos sombrios, tem algo a ver com o pensamento que só se compromete com o possível. Pensar, afinal, é inventar modos de ver.        


1- Berger, J. –  “This Century”, New Statement, 11 July, 1959.
2- Foucault, M., Dits et écrits, I, Gallimard, Paris, 1994, p.621 (tradução de Katia Muricy)

 


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