Francisco Dalcol escreve texto crítico de “Túlio Pinto – Momentum”

Francisco Dalcol, curador da individual “Túlio Pinto – Momentum”, de Túlio Pinto, é também autor do texto crítico da exposição. No texto abaixo, Dalcol discorre sobre o trabalho do artista, uma seleção de obras produzidas nos últimos anos e agora selecionada para o MARGS. Segundo o curador, “Momentum chega justamente para pontuar e celebrar o instante de adensamento da produção e de maturidade da trajetória do artista, sobretudo pelo alcance de sua atuação”. Nos últimos anos, Túlio Pinto participou de exposições em instituições, museus, galerias, feiras, eventos e programas de residência, como a Bienal de Veneza em 2019.


Túlio Pinto — Momentum

Diante das obras de Túlio Pinto, somos invariavelmente acometidos por uma experiência impactante, a um só tempo também instigante e não menos desconcertante. 

Lidando com a tensão e o equilíbrio levados aos extremos de seus limites, suas peças e conjuntos escultóricos nos atingem como um sedutor apelo à visão, por conta da clareza, da concisão e da harmonia que emanam. 

Ao mesmo tempo, são obras que nos tornam conscientes da nossa presença, como parte integrante das situações que instauram; o que nos leva a perceber os nossos próprios corpos como parte constitutiva da experiência do ver e do sentir. 

Situados entre a escultura e a instalação — explorando, portanto, a tridimensionalidade e a espacialidade —, os trabalhos de Túlio Pinto resultam da elaboração de mecanismos e sistemas que exploram e articulam as potencialidades físicas e visuais dos materiais e das formas. São pedras, vigas de aço, lâminas e bolhas de vidro, cubos e estruturas de metal; os quais se sustentam e se acoplam por cabos, roldanas, barras, pedras pendulares e porções de areia, entre outros. 

Essas obras encontram sua linguagem visual e seu fundamento conceitual-poético não apenas na feição da matéria e nos modos com que é mobilizada e empregada; mas, sobretudo, nos tensionamentos e confrontos que estabelecem entre rigidez e fragilidade, força e resistência, equilíbrio e queda. 

Trata-se de uma produção orientada por um pensamento escultórico que lida, acima de tudo, com o movimento — ou, mais precisamente, com a sua contenção e anulação —, entendendo aqui a acepção mais tradicional, a da física mecânica, que define ser o movimento a variação de um ponto ou objeto no espaço em relação ao tempo. 

Contudo, a noção de movimento pode ser pensada de diversos modos no trabalho de Túlio Pinto, sempre operando um deslocamento, seja dos materiais ou dos corpos, tanto do artista como do observador. 

A partir desse entendimento, é como se os seus trabalhos transferissem a sedução inicial advinda do arranjo formal para o equilíbrio que encontram na tensão precisa investida na sustentação das estruturas. Nesse sentido, a ênfase que o olhar dirige à estrutura é conduzida para o sistema de forças que mantém o mecanismo estendido no limite de seu colapso. Estar entre um e outro é também se colocar em movimento. 

Assim, frente a tais obras, somos seduzidos pelas operações que as engendram, pela visualidade que adquirem e, acima de tudo, por aquilo que insinuam, ameaçam ou sugerem estar momentaneamente interrompido — ou na iminência de acontecer. Levados a essa profunda e elevada experiência da percepção do visível e do sensível, somos mais do que apenas e meros observadores daquilo que as obras proporcionam, uma vez que passamos a participar de um espaço-tempo específico, porque são peças e objetos que se espacializam no tempo ao mesmo tempo que se temporalizam no espaço. 

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Essas linhas de força que configuram, perpassam e contingenciam os trabalhos de Túlio Pinto podem ser ainda melhor percebidas e compreendidas à luz da história da arte e das práticas artísticas que se seguiram aos anos 1960. 

Ao privilegiar uma prática escultórica enquanto campo expandido, Túlio Pinto dá corpo a uma obra que, sob o ponto de vista dos aspectos formais e processuais, encontra antecedentes na herança minimalista e em nomes como Anthony Caro, Charles Ginnever, Carl Andre, David Smith, Donald Judd, Giovanni Anselmo, Mark di Suvero, Richard Serra, Robert Morris e Tony Smith. 

A mesma aproximação vale para as chamadas neovanguardas, a exemplo dos conceitualismos, da land art, das performances, das instalações, da site-specificity, do in-situ e das práticas que enfatizam o processo e o espaço. 

Não se trata, contudo, de encapsular a produção de Túlio Pinto em uma leitura estritamente vinculada a paradigmas críticos e teóricos, notadamente os de matriz norte-americana da segunda metade do século 20, operação esta dada como insuficiente. Até porque, em suas peças e conjuntos escultóricos, é também possível identificar aspectos ressoantes das vertentes construtivas da arte brasileira dos anos 1950 e 60, desde o pensamento geométrico das formas aliado ao pensamento sobre os materiais, a exemplo de Amilcar de Castro e Franz Weissmann; até os diálogos estabelecidos com o vocabulário formal e conceitual de artistas brasileiros contemporâneos como Cildo Meireles, José Resende, Nelson Felix, Nuno Ramos e Waltercio Caldas. 

Com suas proposições experimentais que se materializam ao concatenar o mundo das leis físicas em potência plástica, Túlio Pinto confere particularidades a seu trabalho diante da produção contemporânea, por conta das articulações tensas e limítrofes entre duas dimensões: a sugestão de equilíbrio precário e a sensação de queda iminente. 

Em nenhum caso anulando verdadeiramente as linhas de força que incidem sobre os objetos e os corpos, até porque essas forças estão ali trabalhando, tensionando-se, como um sistema provisoriamente resolvido, ainda que comungando do mesmo silêncio dos materiais, que são levados às fronteiras limítrofes da resistência que suportam. 

No que esses tensionamentos podem oferecer e sugestionar, Túlio Pinto atesta que é nos limites que podemos experimentar um fascínio singular do nosso estar no mundo. 


Túlio Pinto – Momentum” traz ao MARGS uma proposição do artista para as Pinacotecas, apresentando uma seleção de trabalhos de anos recentes, incluindo alguns inéditos, cuja ocupação no espaço expositivo, o mais nobre do museu, foi pensada para proporcionar ao público uma profunda e intensa experiência a partir de uma ampla exposição de caráter escultórico e instalativo. 

Em sequência à exposição nas mesmas Pinacotecas em homenagem ao centenário de Francisco Stockinger (1919-2009), um artista vinculado ao ideário da arte moderna, “Túlio Pinto – Momentum” oferece agora uma circunstância para se pensar e experenciar acerca dos desdobramentos contemporâneos operados pelas pesquisas das linguagens escultóricas, em um campo já expandido de possibilidades, e no qual a abordagem da tridimensionalidade e da espacialidade se aprofunda por práticas e pensamentos que exploram uma intensificada fundamentação conceitual, visual e poética. 

Francisco Dalcol
Diretor-curador do MARGS
Doutor em Teoria, Crítica e História da Arte



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