Berna Reale critica a violência da polícia e o sistema prisional em performance

(Belém, PA)

No dia 29 de novembro, a perita criminal e artista finalista do PIPA 2019 Berna Reale, realizou em Belém, no Pará, uma performance que começou a ser idealizada em 2017. “Ginástica de Pele” reuniu mais de 100 jovens entre 18 e 29 anos (média de idade da população carcerária no Brasil de acordo com o Infopen 2016) que já foram abordados pela polícia. Segundo a artista, o trabalho critica a violência policial motivada por preconceito racial, de classe e homofobia.

– O trabalho mostra negros, brancos, excluídos, gays, silenciados, todos os que vivem à margem e sem os olhos do Estado sobre eles, sem as mesmas chances, todos fazem parte das estatísticas prisionais. Este trabalho simula o exercício de prender, de abordar, de encarcerar nossa juventude – explica Berna.

Na performance, a artista encena uma policial, com o objetivo de construir uma analogia irônica ao tratamento físico realizado pelos policiais civis e militares, assim como por agentes das forças armadas. “Ginástica de pele” também analisa a questão carcerária no país. De acordo com o Infopen (2016), a proporção de presos no Brasil é de aproximadamente 67% de negros e pardos e 33% de brancos em situação de cárcere, enquanto os negros representam cerca de 53% da população nacional. Berna questiona esse desequilíbrio social e afirma, como perita criminal, que mesmo tendo a quarta maior população carcerária do mundo, o Brasil não pode ser considerado um país seguro. “A estratégia de prender mais, portanto, não tem sido capaz de reduzir a criminalidade”, diz ela.

Durante a idealização do projeto, um dos participantes, de 19 anos, foi assassinado. Berna diz que a morte do adolescente a desestabilizou e que são acontecimentos como esse que a revoltam e fazem com que ela use a arte como espaço de denúncia.
– Conversei muito com esses rapazes sobre o trabalho durante todo o processo. Fico feliz de vê-los compartilhando fotos da performance nas redes sociais, orgulhosos de terem participado, porque queriam denunciar as situações que enfrentam. Estamos vivendo um momento terrível. Não tem diálogo, o governo atual não preza pela cultura, e a arte não acessa as camadas mais pobres da sociedade. As pessoas estão se odiando sem escutar o outro, não se consegue nem olhar e nem ouvir. Existe um templo de acusações e ignorâncias. Mas acredito que podemos trabalhar para melhorar esse quadro, pois a arte e a filosofia são as únicas coisas que deslocam, que fazem pensar, refletir.

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