Revisão histórica em “Aquém-mar”, nova individual de Tiago Sant’Ana

“Aquém-mar” é a nova exposição de Tiago Sant’Ana e sua primeira individual em São Paulo. O artista baiano traz uma série de trabalhos feitos nos últimos três anos e em diversas linguagens, como performance, fotografia, vídeo e desenho. A mostra estará no Senac Lapa Scipião de 25 de novembro até 23 de janeiro de 2020, com abertura no dia 25 às 19 horas, e foi organizada pela instituição como uma das atividades do ciclo “Poéticas Negras”, estruturado pela unidade. Sant’Ana foi o vencedor do Prêmio Foco ArtRio deste ano, uma iniciativa que visa valorizar a produção de artistas do Brasil com menos de 15 anos de carreira.

Alguns dos debates frequentes na arte de Tiago são questões que dizem respeito à memória e à história a partir de um olhar negro, e seus trabalhos constantemente incorporam o açúcar para discutir os usos históricos deste e como os sistemas da exploração e da colonização ainda se mantêm atualmente. Nesta individual, Tiago apresenta um conjunto de obras que evidencia a necessidade de haver uma revisão histórica sobre a colonização brasileira.

Ainda permeados pelo açúcar, tanto física quanto subjetivamente, alguns trabalhos de Tiago são performances em antigos engenhos de açúcar que hoje se encontram desativados e em ruínas. Na criação “Passar em branco”, por exemplo, o artista segura um ferro de passar elétrico e passa roupas brancas em meio ao que restou do espaço. Como explica o release da exposição, “o passado e o presente são justapostos na tentativa de pensar quais imagens, papéis e estereótipos estão associados às populações negras no Brasil ainda hoje”.

O nome da exposição dialoga com as travessias atlânticas e com os fluxos históricos envolvidos com as diásporas negras, como comenta o artista: “Aquém-mar é uma mirada para o Atlântico feita pelo lado de cá, do Brasil. É uma palavra-chave para pensar na história, mas também se questionar sobre como existem chagas coloniais que ainda doem. Há muitas ruínas, de diversas ordens, naufragadas no Atlântico”.

O trabalho “Apagamento #1” é um dos produzidos por Tiago e que lida com as feridas ainda presenciadas hoje em dia: neste, o artista registra o crescimento do seu cabelo e o consequente apagamento do nome de uma comunidade de Salvador que estava raspada no couro cabeludo dele. A obra se refere à chacina do Cabula, na qual 12 jovens negros foram assassinados pela polícia militar baiana em 2015, como enuncia o release da mostra. Sobre isso, Tiago comenta: “Cabula também foi a região de um antigo quilombo, que foi reprimido e desmontado pelas forças armadas. Nesse trabalho estou tratando de uma estrutura contínua repressiva contra a população negra e da permanência do braço da violência estrutural do Estado”.

“Aquém-mar”, individual de Tiago Sant’Ana
De 25 de novembro de 2019 a 23 de janeiro de 2020

Senac Lapa Scipião
Rua Scipião 62, Lapa, São Paulo, SP
De segunda a sexta, das 8h às 21h, sábado, das 8h às 14h
Entrada gratuita



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