Ana Linnemann apresenta sua nova individual, “Exposição de galeria”

(Rio de Janeiro, RJ)

A Luciana Caravello Galeria de Arte recebe até 29 de agosto a individual de Ana Linnemann, “Exposição de galeria”. Segundo a artista, “Exposição de galeria vai examinar formatos comuns ao universo das galerias: pinturas e desenhos, porém numa condição de dissidência — pinturas, mas nem tanto assim e desenhos, mas nem tanto assim. Poderia-se dizer que são esculturas, cujo material é a pintura e objetos, cujo material é o desenho. Existe também uma máquina, que chuta a parede repetidamente. Ela se chama O artista.”

Ana Linnemann

“Exposição de galeria”: mais derrisório que tautológico, o título sugere a existência de um “estilo” ou maneira de conceber e realizar exposições em função da teatralidade própria à situação-galeria. A disposição estática de objetos em uma cena frequentemente impensada, ou assumida em sua dimensão positiva, sustenta-se na crença e na aposta no encontro entre o que o artista mostra e o que o espectador vê. Contrariando esse modelo, Ana Linnemann propõe aqui um conjunto de objetos que expõem o que em geral neles está oculto por estar demasiado presente.

A galeria torna-se assim o espaço de uma outra pesquisa e de uma inusitada cumplicidade: entre a artista e a desobediência silenciosa mas plasticamente eloquente de pregos e molduras, chassis e telas. Constrangidos por uma vida inteira de bom-comportamento e adequação entre função e forma esses objetos ordinários, ao serem desfigurados, tornam-se protagonistas.

Ana Linnemann não reflete sobre objetos, pensa com eles. O próprio objeto, em sua concretude aparentemente imutável, revela-se aqui dispositivo dinâmico, deflagrador de perguntas para as quais as respostas são novas questões que conversam entre si. O que mostramos quando expomos? Será o/a artista um tipo de Sísifo obstinado na repetição infinita de um gesto tragicamente ineficaz? Ou um tipo de clown cujo heroísmo é a exibição de sua própria impotência? E um objeto? E um objeto mutante? Será o estorvo da espécie que arrasta a espécie consigo ou a aberração que inaugura uma nova linhagem? Uma moldura que deixou de emoldurar, pode ainda pertencer à categoria dos objetos circunscritos por esse nome ou essa insurreição afeta sua ontologia, direcionando-os para o mundo vivo do animal humano, o insatisfeito da espécie. É impossível não notar que estes trabalhos se comunicam com o espírito de revolta antropomórfica presente nos cartoons da década de trinta, quando pianos, harpas e garrafas de leite ganhavam braços e tocavam em si mesmos entre gotas de chuva e sapos dançantes.

Se o dinheiro falasse, a história econômica seria certamente diferente. Se a história da saída da moldura tivesse sido narrada do ponto de vista do prego e da moldura, seria outra a história da arte contemporânea. A pintura mil e uma vezes libertada, morta e ressuscitada, abafou o caso da moldura descartada e reabilitada sem nunca ter vivido o gozo glorioso de sua liberação.

Ao tomar o partido das coisas, a artista propõe um exercício perspectivista e o faz evitando simultaneamente o caminho da utopia materialista ou do onirismo surrealista. Nada aqui está situado numa região revolucionária de sonhos, são objetos infrarealistas que liberam o riso das formas aptas a mudar de espécie, perder ou abandonar sua anatomia. Impossível saber se esse riso é um mau presságio ou sintoma de um alívio, mas é seguramente o índice do tumulto criado na lógica identitária que postula tradicionalmente o objeto a partir do ajuste entre forma e função.

A insurgência sardônica deste conjunto parece realizar bem mais do que um deslocamento, desarma a crença herdada da existência de uma diferença ontológica entre o objeto artístico e os “outros” objetos – cotidianos ou extraordinários. Torna-se então possível enfrentar a funcionalidade (decorativa ou estética) da própria arte “de galeria”, jogando-a contra o fundo de uma lógica de produção mais ampla e insidiosa, que não cessa de administrar a distância entre a aparente passividade das obras e suposta vida ativa do olhar.
Texto de Laura Erber

“Exposição de galeria”, individual de Ana Linnemann
Em cartaz até 29 de agosto

Luciana Caravello Arte Contemporânea
Rua Barão de Jaguaripe, 387 – Ipanema
Funcionamento: de segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 14h
T: 2523-4696
contato@lucianacaravello.com.br



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