Exposições, teatro, cinema, intervenções e música na Trienal de Artes “Frestas”

(Sorocaba, SP)

Ao longo dos meses de outubro de 2014 a maio de 2015, a Trienal de Arte “Frestas” reúne artistas de diferentes partes do mundo em vários espaços, onde são realizados exposições, espetáculos de teatro e de música, intervenções em locais e museus da cidade, projeções de longas-metragens em uma sala de cinema construída na rampa do estacionamento do Sesc, além de performances e ações artísticas transdisciplinares.

Sobre o evento, segundo o curador-geral Josué Mattos:
O que podem as frestas em uma superfície urbana, em contextos sociopolíticos ou simbólicos? À primeira vista, suas cisões redefinem a experiência de espaço. Dividem, reconfiguram, renomeiam as coisas e os lugares circunscritos entre as suas fronteiras. Por outro lado, há frestas que, para além de irromper uma determinada superfície e estancar sua fluidez e o modo como ela é percebida, preenchida e experimentada, suscitam, por suas quebras de paradigmas espaço-temporais, a “invenção de memórias”, assim como ações capazes de interrogar a norma, potencializar a desordem, redefinir a obsolescência e a ruína.

As frestas também podem redesenhar os traços que ampliam ou restringem a cidadania, a atuação subjetiva e a decorrente emancipação do sujeito diante de situações imprevistas. Pois, como lidar com o inesperado, com o imprevisto e com o desconhecido se não os atravessando, o que não é diferente de construir frestas em suas verdades? Frestas também aparecem em relações humanas quando surgem para cindir máscaras ou para rasgar os valores cristalizados relativos ao fracasso e ao êxito no mundo contemporâneo; ao lucro e à perda, à ordem e à desordem na coletividade.

Saiba um pouco sobre as obras que alguns dos artistas participantes da “Frestas” apresentam:

Afonso Tostes – “Contingente”
Em “Contingente”, Afonso Tostes faz uma releitura de “Sala de Trabalho”, instalação que apresentou em 2014 na sua exposição individual na Casa França-Brasil (Rio de Janeiro). Madeira-osso, Madeira mão, Madeira pão nosso de cada dia. Ferramentas de trabalho usadas, anônimas, mudas, com os ossos à mostra. Uma espécie de memento através do qual o artista evoca, entre outras coisas, a divisão primordial entre artista e artesão, e que Tostes supera através da síntese no objeto.

Bárbara Wagner – “Crentes e Pregadores”
Na série “Crentes e Pregadores”, Bárbara Wagner buscou retratar as figuras menos conhecidas desse fenômeno em fotografias que utilizam técnicas publicitárias para apontar uma existência silenciosa. Hábitos, gostos e subjetividades pessoais são condensados nas formas de vestir, nos gestos, nas poses e nas expressões; os crentes e pregadores são muitos e distintos. Estes retratos não se apresentam como exemplares etnográficos de uma cultura distante, mas apontam para a presença de pessoas comuns que vivem sua fé à sombra de interesses políticos e sociais, cada vez mais influentes em plano nacional.

Bruno Vilela – “Erga-se”
Dotadas de certo mistério, as figuras de Bruno Vilela parecem se privar do nosso olhar; escondem-se em mata densa e nos observam ao longe. Como na tela “Erga-se”, na qual seu rosto e outros elementos que lhe atribuem características físicas parecem terem sido rasgados, dando lugar à penumbra que nos recorda as cores de uma trilha noturna: verde musgo, azul cobalto, tons de vermelho tímido, apagado pela luz noturna.

Caetano Dias – “Bicho geográfico”
A colonização é recontada por Caetano Dias de forma onírica. Carregadas de signos, suas narrativas são construídas de memória afetivas, coletivas ou individuais. “Bicho Geográfico” foi filmado no Palácio da Aclamação – construção colonial, antiga residência de governantes do Estado da Bahia – remonta à união de Diogo Álvares Corrêa (náufrago português) com a índia Catarina de Paraguaçu, o primeiro casal católico da colônia.

Cao Guimarães, Beto Magalhães e Lucas Bambozzi – “O fim do sem fim”
Essa é a história do Brasil contada lá no fim do sem fim. Lá onde o nada deixa de ser ausência e passa a ser protagonista de histórias pessoais, produzindo necessariamente o efeito contraditório de resgate e perda. O documentário de longa-metragem intitulado “O Fim do sem fim” apresenta ao espectador imagens diretas de uma realidade pouco comum na contemporaneidade. Traz para mais perto, por meio de um registro artístico e histórico, o desaparecimento de ofícios e profissões no Brasil, tais como: benzedeiro, parteira, cordelista, garimpeiro, escrivão, relojoeiro, operador de elevador, produtora artesanal de candeeiro etc.

Lenora de Barros – “Utopy”
Como um fantasma, a voz que escutamos em Utopy sussurra, grita e ecoa fragmentos de duas frases negativas, embaralhando-as no espaço: Não há lugar como a Utopia / Não há Utopia como lugar. Fragmentadas, essas frases se dissolvem nas palavras que compartilham e se friccionam em sobreposições e antagonismos, criando brechas de sentido a partir de outras ligações possíveis. Assim, esta voz que se espalha pelo espaço parece anunciar um outro lugar nas brechas do que não está a dizer.

Malu Saddi – “O segundo evento de qualquer série”
O processo aparentemente ordinário de desacomodar formas estanques e parafernálias vinculadas a normas da representação permeia o conjunto de obras que Malu Saddi apresenta em Frestas – Trienal de Artes. Tenho o privilégio de não saber quase tudo. Os desenhos e objetos da exposição aludem ao “não saber” e percebem-no como um mote para pensar a organização das coisas inexistentes e os ditames da vida que limitam a espontaneidade. Isso porque, enquanto processam a figuração da morte, situações desestabilizadoras, lugares que constroem equilíbrio, acidente e vertigem simultaneamente, este conjunto de obras transpõe a mudez evocada por Gilles Deleuze em Diferença e repetição, para pensar a “pulsão de morte” como aquilo que interrompe de maneira indescritível determinado fluxo de gozo.

Raquel Stolf – “Assonância de silêncios”
Será possível, no silêncio absoluto que há dentro de “Assonâncias de Silêncios (Sala de Escuta)”, ouvir o atrito de moléculas que, ainda impulsionado pelo Big Bang, forma a matéria do meu tímpano? Mas, ao entrar na sala de escuta, ouço apenas os ruídos do meu cérebro assonando questões: nosso país ergueu-se sobre silêncios políticos que anestesiam nossa capacidade crítica e, ao mesmo tempo, somos cidadãos que não suportam ficar em silêncio. Mais que calma ou paz, Raquel, em tua cabine sinto o desconforto de estar em um país silencioso.

Trienal de Artes “Frestas”, com obras de Afonso Tostes, Bárbara Wagner, Bruno Vilela, Caetano Dias, Cao Guimarães, Lenora de Barros, Malu Saddi e Raquel Stolf
Em cartaz até 3 de maio de 2015

Locais:
Sesc Sorocaba

Rua Barão de Piratininga, 555 – Jd. Faculdade. Sorocaba/SP
(15) 3332-9930 | (15) 3332-9931 | (15) 3332-9933
De terça a sexta, das 9h às 21h30 com permanência até 22h; e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30 com permanência até 19h

Museu da Estrada de Ferro Sorocabana
Rua Álvaro Soares, 553, Centro. Sorocaba/SP
(15) 3231-1026
De terça a sexta, das 9h às 17h30 com permanência até 18h; e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 15h30 com permanência até 16h

Palacete Scarpa
Rua Souza Pereira, 448, Centro. Sorocaba/SP
(15) 3211-2911
De terça a sexta, das 9h às 17h30 (com permanência até 18h); e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 15h30 (com permanência até 16h)

Barracão Cultural
Av. Afonso Vergueiro S/N, ao lado da estação ferroviária, Centro. Sorocaba/SP
De terça a sexta, das 9h às 17h30 (com permanência até 18h); e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 15h30 (com permanência até 16h)

Pátio Cianê Shopping – Loja 118-1
Av. Doutor Afonso Vergueiro, 823 – Loja 118-1, Centro. Sorocaba/SP
(15) 3333-3333
De terça a domingo, incluindo feriados, das 12h às 18h



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