Encerramento | 31ª Bienal de São Paulo – “Como (…) coisas que não existem”

(São Paulo, SP)

O título da 31ª Bienal de São Paulo“Como (…) coisas que não existem” – é uma invocação poética do potencial da arte e de sua capacidade de agir e intervir em locais e comunidades onde ela se manifesta. O leque de possibilidades para essa ação e intervenção está aberto – uma abertura que é a razão da constante alteração do primeiro dos dois verbos no título, antecipando as ações que poderiam tornar presentes as coisas que não existem. Começamos por falar sobre elas, para em seguida viver com elas, e então usar, mas também lutar por e aprender com essas coisas, em uma lista sem fim.

Considerando que a nossa compreensão e capacidade de ação são sempre limitadas ou parciais, muitas coisas ficam de fora dos modos comumente aceitos de pensar e de atuar. Porém, essas coisas que não existem são essenciais para superar expectativas e convicções. Quando nos encontramos sem saída, debatendo sobre explicações distintas sobre nossa experiência no mundo, as coisas que não existem se tornam tangíveis em sua ausência. Elas nos confrontam quando testemunhamos injustiças ou quando encontramos situações que nos parecem insuperáveis, pois nos fazem falta as ferramentas necessárias para agir.

Veja alguns dos projetos e participantes:

Armando Queiroz com Almires Martins e Marcelo Rodrigues – “Ymá Nhandehetama” (2009)

Almires Martins é indígena do povo guarani. Foi boia-fria, cortador de cana em usinas de açúcar e álcool, trabalhou na fundação Curro Velho e na Secretaria de Meio Ambiente (SEMA), em Belém, onde conheceu Armando Queiroz, que realizava uma pesquisa sobre estigmas históricos do contexto amazônico. Do encontro nasceu o vídeo Ymá Nhandehetama, que em guarani significa “antigamente fomos muitos”. A construção do vídeo contou com a participação do diretor de fotografia Marcelo Rodrigues.

A ação política que acontece em “Ymá Nhandehetama” é um reflexo da atividade de Armando Queiroz como artista, curador, professor, escritor e diretor da Casa das Onze Janelas, espaço cultural e de arte contemporânea em Belém. Todas essas atividades estão hoje caracterizadas por uma reflexão sobre a Amazônia como terreno de disputas geográficas, econômicas e identitárias. Nessa militância, Queiroz costuma empregar como estratégias de trabalho leituras e oficinas, nas quais ele e os participantes inevitavelmente compartilham poder e responsabilidade sobre uma pauta coletiva. Nelas, a negação é uma estratégia essencial. Como Queiroz escreve no texto “A Amazônia não é minha!”: “A Amazônia não é tua. A Amazônia não é. […] A Amazônia não é verdadeira. A Amazônia não é ingênua e plácida […] A Amazônia não é.”

Arthur Scovino – “Casa de caboclo” (2014)

Simplicidade e força são as principais qualidades do caboclo, uma das entidades fundamentais da umbanda e do candomblé. A simplicidade de articulação, tratamento e meios caracteriza “Casa de caboclo”, de Arthur Scovino: um ambiente em constante mudança que poderia ser tanto um espaço doméstico quanto cerimonial, em que um conjunto de imagens (desenhos, fotos e escritos) e ferramentas (livros, gases e líquidos) é reunido para auxiliar um encontro, que acontecerá dentro desse próprio ambiente.

O caboclo e sua casa funcionam como metáfora para o que o espaço da arte pode ser e fazer e também como uma superação de suas premissas e limitações. Juntos, eles nos permitem perceber que certos objetos, em condições específicas, podem nos afetar, que podemos nos envolver em uma troca significativa com eles e com o espaço que habitam.

Clara Ianni e Débora Maria da Silva – “Apelo” (2014)

“Apelo” surge da urgência em lidar com a institucionalização da violência no Brasil – consolidada ao longo da história do país, desde a invasão européia no início do séc. 16 – e a dificuldade em nos relacionar com seu legado. Filmado no Cemitério Dom Bosco no bairro de Perus, na periferia de São Paulo, onde a paisagem urbana e campestre se encontram, a obra conecta atos de violência do presente com os do passado por meio de um discurso público.

O cemitério foi criado em 1971 pelo governo militar (1964-1985) para receber cadáveres de vítimas do regime repressor, em sua maioria desaparecidos, que logo viriam a ser sepultados em vala clandestina comum. A porta-voz do discurso e co-autora da obra, Débora Maria da Silva, teve seu filho assassinado em 2006, vítima das ações conduzidas por esquadrões da morte da polícia militar de São Paulo – uma das mais letais do mundo – em resposta aos ataques da organização de encarcerados Primeiro Comando da Capital (PCC).

Thiago Martins de Melo – “Martírio” (2014)

Em Martírio, óleo é mesmo carne, que ganha massa e extrapola a espessura da tela, como uma pintura violenta ou violentada. A obra reúne esculturas, ganha forma de instalação, um ambiente para se adentrar. Carrega ainda uma lógica de pintura, mas se formaliza como um umbral, espaço entre a porta e o interior, nem lá nem cá, purgatório. Martírio é uma visada da Amazônia – “uma paisagem da periferia do capital internacional”, segundo o artista, referindo-se ao papel que a floresta ocupa em uma economia de exploração que mudou de configuração desde a chegada dos portugueses em 1500, mas que nunca foi superada.

A obra presta homenagem aos mártires amazônicos, centenas de trabalhadores e líderes comunitários que morreram anonimamente na luta pela defesa da terra. Uma paisagem virgem e a imagem de Carajás como um grande deserto – fruto do extrativismo voraz dos seus recursos naturais até hoje – são enquadradas pelo cerco fechado das colunas impostas pelo processo civilizatório. Nesse cenário encontram-se ainda dois caboclos do vodum, religião africana que concentra seguidores em São Luís, cidade natal do artista. Sua presença é de proteção e também de conflito, uma dupla de sensações que a instalação quer fazer sentir na carne do espectador.

Virgínia de Medeiros – “Sérgio e Simone” (2007-2014)

Em 2006, Virginia de Medeiros conheceu Simone, que morava na Ladeira da Montanha, uma das mais degradadas áreas da cidade de Salvador. Interessada pelos habitantes daquele local, a artista começou a documentar em vídeo aspectos da rotina de Simone. Cerca de um mês depois da primeira filmagem, Simone teve uma convulsão por causa do uso de crack, seguida de um delírio místico no qual acreditou ter se encontrado com Deus. Após esse momento em que “morreu de overdose”, Simone recuperou o nome Sergio, convencida de uma outra missão religiosa, ao lado de Jesus. Sergio, então, narra para a câmera da artista sua história de transformação e sua nova identidade.

Oito anos depois, em 2014, Medeiros retoma o contato com Sergio, que, em breve recaída, se tornou pai de santo e criou seu próprio terreiro de candomblé, no qual assumiu ambas as identidades, Sergio e Simone. O conjunto de imagens documentadas reflete a complexidade desse constante processo de transformação corporal e espiritual sobre a paisagem de uma cidade onde duas religiões conflitam. Sugere ainda a dificuldade de configurar uma outra existência em uma sociedade binarista, ou seja, que por via da discriminação exige que sejamos uma coisa ou outra.

Yuri Firmeza – “A fortaleza / Nada é” (2010-2014)

Em “A fortaleza”, Yuri Firmeza reencena a fotografia de infância em que ele faz a pose clássica do halterofilista, dobrando os braços e tensionando os músculos para demonstrar sua força. Entre uma imagem e outra – um intervalo de quase duas décadas – além do crescimento do menino, agora adulto, chama atenção a mudança radical da paisagem de fundo. Em uma foto, vemos casas, poucos prédios e um horizonte ao fundo; na outra, prédios mais altos preenchem os espaços outrora vazios. Mal se vê ao longe em Fortaleza, cidade onde o artista mora desde pequeno. A cidade virou uma fortaleza edificada, e Yuri se apresenta diante dela fazendo graça com seu corpo esguio, ao mesmo tempo assumindo sua parte de responsabilidade como morador.

Essa reflexão sobre a memória e as experiências individuais, sobre o coletivo e o bem comum a um grupo de pessoas ou a uma sociedade aparecem em Nada é, mas o fluxo criativo deu-se ao contrário. O filme começou na pesquisa sobre a cidade de Alcântara como espaço de manifestação de projetos nacionais brasileiros de diferentes períodos e culminou na busca por sentidos pessoais, subjetivos e presentes para o legado do lugar. A cidade foi a primeira capital do estado do Maranhão, no século 18, e era habitada por barões da cana-de-açúcar e do algodão. Quando a economia colonial faliu, Alcântara entrou no ostracismo e só voltou à pauta nacional quando recebeu um centro de lançamento de foguetes da Força Aérea Brasileira, em 1990.

– todas as informações retiradas da página da Bienal.

31ª Bienal de São Paulo
Parque do Ibirapuera, portão 3
Pavilhão da Bienal

Visitação:
6 de setembro a 7 de dezembro
Terça, quinta, sexta, domingo e feriados: das 9h às 19h (entrada até 18h)
Quarta e sábado: das 9h às 22h (entrada até 21h)
Fechado às segundas
Entrada gratuita



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