“Acervo MAM – Obras restauradas” | Últimos dias

(Rio de Janeiro, RJ)

É uma grande satisfação podermos oferecer ao nosso público a oportunidade de rever importantes obras de nosso acervo, que há tempo aguardavam restauro. Para os mais jovens será o primeiro contato com estas obras, de ícones da arte brasileira e internacional, desse que é um dos museus mais instigantes e queridos do carioca.

O MAM vem desempenhando seu papel de dínamo cultural, através de esforços que sustentam sua política de preservação de patrimônio, difusão da arte e incentivador na abertura de espaço para jovens artistas.

Desde sua fundação em 1948, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro construiu uma história e um acervo reconhecidos internacionalmente. Quando em suas instalações definitivas, projetadas pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy em um terreno de 40.000 m2, consolidou-se como uma instituição onde a arte podia ser vista, debatida e aplicada com projetos educativos em suas oficinas. Aos 30 anos de existência passou por forte revés com a perda trágica de 90% de sua coleção. Peças significativas puderam ser resgatadas e restauradas; uma pequena parte que não pôde ser recuperada ao longo daquele período foi mantida com zelo e paciência, aguardando uma solução. Hoje esse dia chegou e podemos rever obras de Ivan Serpa, Lygia Clark, Djanira, Manabu Mabe, Wega Nery, Nelson Leirner e Silvia Chalreo, para citar a vertente nacional. Alberto Magnelli, Serge Poliakoff, Oton Gliha, Maria Luisa Pacheco, Michel Patrix e Jorge Páez Vilaró na internacional.

Agradecemos a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro por ter compreendido a magnitude e importância deste projeto, que foi selecionado pelo concurso Pró-Artes Visuais 2012 da Secretaria de Cultura e, também, ao artista Nelson Leirner por ter aceito realizar a réplica de sua obra.Por Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand, Presidente do MAM-Rio

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro tem a oportunidade de exibir ao público algumas obras do seu antigo acervo que por muito tempo estiveram fora dos salões expositivos devido a complexos problemas de conservação. A recuperação dessas pinturas coincide com o período em que a instituição completa 66 anos de existência, o que sob determinado aspecto, assume não só o caráter de resgate histórico e artístico, como também de justa homenagem.

Por ser um dos museus mais importantes dessa cidade e também da América Latina, devemos observá-lo para além da bela arquitetura modernista de Affonso Eduardo Reidy, que em meio ao atraente projeto paisagístico de Roberto Burle Marx, se insere numa das mais belas paisagens cariocas. Nesse cartão postal está o museu, símbolo de compromisso com a arte, cultura e educação.

Oportuno lembrar que no curso de sua trajetória, o MAM foi cenário de grandes acontecimentos no plano das artes, da política e no desenvolvimento geral da cultura de gerações. E semelhante ao que ocorre na vida das pessoas, também atravessou momentos difíceis. Os mais jovens talvez até desconheçam parte de sua história que a ninguém agrada recordar e inegavelmente foi um dos piores golpes no mundo das artes no século XX: o incêndio de 1978 que quase o consumiu, levando para sempre grande parte de sua maravilhosa coleção.

A instituição reergueu-se aos poucos com o esforço extraordinário de seus idealizadores, mantenedores e funcionários.

Não foram poucos os obstáculos, muitas das obras danificadas foram tratadas e recuperadas. Ao longo desses anos a coleção cresceu novamente através de doações e aquisições, contando hoje com 6.466 obras. Além de seu acervo, o MAM mantém comodatos das coleções Gilberto Chateaubriand (desde 1993), Luis Carlos Barreto (desde 2002) e Joaquim Paiva (desde 2005), as duas últimas dedicadas à fotografia e a primeira às artes visuais no Brasil.

Conservação e Projetos

Conservar essas coleções tem sido um desafio para as equipes diretamente responsáveis. Se mirarmos o cenário de dificuldades econômicas que todas as instituições culturais atravessam, o MAM como museu privado tem um embate ainda maior, já que necessita do apoio de empresas patrocinadoras e sócios mantenedores fiéis para desenvolver todas as suas atividades. A conservação e manutenção de tantas obras geram gastos e cuidados constantes que sozinha, nenhuma instituição consegue manter, dado os altos custos. Nesse sentido, a recuperação de obras de arte que estão em estado fragilizado ou necessitando de intervenção mais profunda tem sido uma das preocupações da instituição. Através de projetos em editais públicos ou com apoios especiais, o museu tem conseguido o suporte para cuidar de seu valioso patrimônio. Foi marcante o apoio da Fundação Vitae que patrocinou a restauração de diversas obras em 1999-2000 (pinturas, desenhos e gravuras). Em 2012 o museu foi contemplado pelo programa Pró-Artes Visuais da Prefeitura do Rio de Janeiro. Esse projeto recebeu o título “Restauração de Parte da Coleção MAM anterior a 1978”, que temos a satisfação de apresentar como resultado para o público.

O objetivo principal foi a recuperação de obras que fazem parte do antigo acervo. Para isso a pesquisa na documentação histórica precedeu a fase de restauro para que determinados documentos e imagens fotográficas das obras fossem localizados com antecedência pela pesquisadora contratada e que depois servissem de consulta nos trabalhos de restauração. Foi um trabalho de pesquisa detalhado e paciente já que muitos documentos e fotografias daquele período também ficaram perdidos para sempre.

Essas obras estiveram ocultas do público por 36 anos, algumas devido aos graves danos recebidos em 1978, outras com alterações de menor impacto, embora comprometidas estruturalmente. Explicar o prolongamento de tais prejuízos nas obras não é simples, envolve diferentes contextos e particularidades. No passado, as obras danificadas e passíveis de serem recuperadas o foram, tão logo o museu começou a se reorganizar. No entanto, um pequeno grupo de obras parcialmente destruído e considerado irrecuperável pela profunda extensão dos danos, foi mantido e acondicionado na reserva técnica. Era consenso entre os profissionais da área de restauração que obras com grandes áreas queimadas e com perdas de parte da imagem e suporte, eram guardadas, não havendo o que fazer para reverter sua situação:

“Nos casos em que a tela foi parcialmente destruída pelo fogo, não há restauração possível e só recuperamos a parte não atingida, que fica como documento. Até um terço de uma obra deve ser salvo e mantido”. Edson Motta (1).

Não era possível a total recuperação de algumas obras na época, mas também era impossível a idéia de descarte, uma vez que possuíam um percentual significativo de existência estética e de fato, eram e ainda são um registro histórico, quase como peças arqueológicas.

Do final da década de 1970 até os dias atuais, a ciência da restauração vem evoluindo gradualmente com o desenvolvimento de técnicas, procedimentos e o surgimento de novos materiais que possibilitam ao restaurador obter resultados mais avançados no presente, desde que em acordo aos códigos de ética da profissão e respeitando cada caso específico.

Entre o grupo de obras restauradas nesse projeto, algumas merecem destaque especial, tanto pela importância artística, a extensão e complexidade dos danos como pelo impressionante resultado final. São as pinturas do italiano Alberto Magnelli, do russo Serge Poliakoff e da brasileira Lygia Clark. Essas obras estavam com grandes áreas perdidas (lacunas) na camada pictórica e suporte, muito escurecidas pela fuligem e em processo de descolamento generalizado da superfície.

O departamento de Museologia, manteve diálogo regular com os profissionais contratados (2), dois restauradores de sedimentada experiência profissional e respectivas equipes. Visitas periódicas foram realizadas para acompanhamento de registros fotográficos das diferentes etapas do restauro, com fotógrafo especialmente contratado. (3)

No tocante às decisões sobre metodologias e soluções disponíveis para recompor as grandes lacunas dessas obras e considerando que cada escolha está subordinada a uma série de fatores também vinculados aos diferentes gêneros de obras, nesse caso específico pinturas do século XX, duas possibilidades poderiam ser seguidas e foram bem dialogadas entre os restauradores e o museu: a complementação das imagens nas áreas perdidas ou a aceitação dessas perdas nas pinturas, salvaguardando mais o aspecto estrutural das obras, com reintegrações cromáticas neutras. O trabalho de pesquisa frutificou e imagens raras das pinturas foram localizadas. Com isso, foi dado sinal verde para que os restauradores fizessem a complementação estética das pinturas, usando a referência das antigas fotografias.

Os restauradores buscaram soluções técnicas apropriadas para cada caso, aliadas a materiais estáveis e reversíveis, dosando equilíbrio estrutural e estético para reaproximar cada pintura à sua unidade potencial de obra de arte, com resultado admirável. Dos métodos de reintegração pictórica não imitativa, os restauradores escolheram o retoque pontilhado, absolutamente perceptível a olho nu, deixando evidente as áreas reintegradas, evitando a contrafação da técnica e da fatura dos artistas.

Desse modo, essas pinturas carregam em si sua singular história, documentada por registros fotográficos de antes e após o tratamento.

São ao todo treze obras, que “voltam à vida” para ocupar novamente seus nichos de obras de arte, para o deleite do público.Por Fátima Noronha, Conservadora

(1) Restaurador e diretor do Museu Nacional de Belas Artes em 1978. Fonte: MAM quase pronto como antes do incêndio. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 jun. 1979.
(2) Primeiro grupo de obras: Alberto Magnelli, Ivan Serpa, Jorge Páez Vilaró, Maria Luisa Pacheco, Serge Poliakoff e Silvia de Leon Chalreo, restauradas pelo Prof. Edson Motta Jr. e equipe. Segundo grupo de obras: Djanira, Lygia Clark, Manabu Mabe, Michel Patrix, Oton Gliha e Wega Nery restauradas por Cláudio Valério Teixeira e equipe.
(3) Jaime Acioli.

Acervo MAM – Obras restauradas
Em cartaz até 13 de abril de 2014.

Horários de funcionamento:
De terça à sexta: das 12h, às 18hs
Sábados, domingos e feriados: das 12h às 19h.

Ingressos:
Inteira – R$8,00
Estudantes maiores de 12 anos – R$4,00
Maiores de 60 anos – R$4,00
Amigos do MAM – grátis
Crianças até 12 anos – grátis
Ingresso família (somente aos domingos) para até 5 pessoas – R$8,00

Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Av. Infante Dom Henrique, 85
Parque do Flamengo
Rio de Janeiro – RJ
Tel: (+5521) 2240-4944



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