“El devenir de una memoria” | Últimos dias

“El devenir de una memoria” é a segunda exposição individual de Max Gómez Canle na Casa Triângulo.

O PINTOR E SUAS SOMBRAS

A pura luz e a pura obscuridade são dois vazios que são a mesma coisa. Apenas sob uma luz determinada – e a luz é determinada pela obscuridade – e portanto apenas sob uma luz enturvada, pode se distinguir algo.

G. W. F. Hegel, citado por Víctor Stoichita

Um dos vícios mais atraentes de muitos artistas modernos foi utilizar a datação de suas obras como fator antecipatório [penso agora em James Ensor, em Giorgio de Chirico, e seria fácil multiplicar os exemplos]. Eles costumavam arcaizar suas pinturas ao datá-las antes do dia, mês e ano em que haviam sequer sido pensadas. Adulteração, licença poética? Uma exclui a outra? Vamos converter o gesto em premissa e levá-lo um pouco mais além. Não poderia se tratar, ao modo de uma observação em espécie, de uma indagação deslocada sobre a arbitrariedade das correspondências entre figura e tempo?

De fato, o que é uma imagem fixa sem tempo em repouso?

Invertamos agora a equação. Diante do paralisado sossego da fixação histórica, gerações de artistas se dedicaram a projetar variáveis. Variações. Recorrências do detalhe. Tensões. Pacientes – e muitas vezes virtuosas – defasagens. Não com o fim de alimentar o glossário de formas, mas a fim de detectar (e convidar a percorrer) os caminhos anunciados e ainda não percorridos. Um membro contemporâneo e destacado deste clã de modificadores é sem dúvida o artista que nos ocupa, Max Gómez Canle.

Mais que uma retórica da variável, o que ele parece nos propor é uma propedêutica. Uma imagem fechada fatalmente implica um número acidental de métodos e instrumentos de leitura que contêm – ao mesmo tempo em que restringem – a potência da mesma. A ação de Gómez Canle não atua sobre esses instrumentos, e sim na confecção da própria imagem.

Nesta exposição, propõe três tipos de recursos não excludentes: primo, um fator de intromissão – que observamos na morfologia de sombras e nos reflexos aquáticos geométricos-; secondo, um fator de superposição – presente no tríptico de nuvens-; e terzo, um último fator, talvez mais amplo, que denominamos provisoriamente como cotejo de materiais, reunindo obras tão diversas como um estudo sobre Torres de Babel pintadas no século XVI [nada menos que um século de Torres de Babel], um cone tridimensional que altera a bidimensionalidade do papel e, finalmente, uma investigação sobre as distintas tonalidades da cor negra [assim como os esquimós reconhecem distintos tons de branco, Gómez Canle ensaia a interação de diferentes densidades da obscuridade].

Resumindo: com a soma de proposições de cada um desses fatores – dos presentes nesta exposição e dos que vem propondo desde o início da década passada -, nosso artista constrói um mundo, isto é, um estilo. Sua alusão propedêutica não é nenhuma outra coisa: na intimidade de seu método, cada imagem não é apenas um capricho, mas também uma enciclopédia visual que esquadrinha os ensinamentos de uma tradição inesgotável.

Rafael Cippolini

(fonte: Casa Triângulo)

“El devenir de una memoria”
Abertura 29 de agosto, das 19h às 22h
30 de agosto a 21 de setembro

Casa Triângulo
Rua Paes de Araújo, 77
Itaim – SP – Brasil
T: 3167-5621



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