Pop Arte das Contradições | Encerramento no MAM-Rio

“América do Sul, a Pop Arte das contradições”
Curadoria de Paulo Herkenhoff e Rodrigo Alonso

A década de 1960 na América do Sul foi atravessada por contornos específicos da Guerra Fria, com enfrentamentos ideológicos, utopia socialista, movimentos sociais, luta armada e resistência aos regimes militares, terrorismo de Estado, politização da arte, dependência do capital externo e as trocas artísticas entre entre a Argentina e o Brasil. A necessidade de fechar o foco conduz ao viés curatorial da resistência política. Não se trata de arte engajada no modelo zhdanoviano dos Partidos Comunistas, mas de arte como exercício experimental da liberdade, no aforismo de Mário Pedrosa. Entendida a impossibilidade de a arte mudar a sociedade, o signo estético assume sua potência de transformação do entendimento crítico do mundo. As referências internacionais da exposição incluem a Pop arte, sobretudo a norte-americana e a inglesa, oNouveau réalisme na França, além de processos como o Situacionismo, a Outra Figuración argentina, a Nova Objetividade e a Tropicália no Brasil.
A cultura popular é uma usina de produção de mitos que dão coesão a um universo simbólico e alimentam o imaginário social. A América Latina operou com dois mitos Pop de penetração internacional, extremamente carregado de conotações ideológicas de âmbito: um local, Che Guevara, e outro multinacional a Coca-Cola, nos termos do contorno negativo que toma na região como símbolo do “imperialismo ianque” e de negação das diferenças. A Otra figuración argentina foi um veemente mergulho crítico sobre a condição do sujeito moderno no turbilhão social de anonimato urbano, solidão na multidão, violência, fantasmáticas individuais, esgarçamento da subjetividade, déficit social, desesperança política e utopia. Macció, Noé, Deira e de la Vega propuseram uma outra forma de figurar este ser de um tempo social de mudanças e abandono. O impacto do grupo sobre os brasileiros é visível a partir de suas exposições no Rio na década de 1960. No oposto do trágico glamour hollywoodiano de Marilyn de Warhol, Berni criou personagens sociais como a prostituta Ramona e o menino Juanito Laguna, enquanto Gerchman elabora o retrato de Lindonéia. São situações metonímicas da relação indivíduo e sociedade. A melancolia do sujeito decorre de sua obliteração social. Aspectos contraditórios justapõem a Pop e seu viés nas comunicações de massas às sociedades sul-americanas onde ocorria a censura, o alto índice de analfabetismo (Brasil) e a expansão da televisão. Tais antagonismos contaminam a arte de extrato Pop na região.

No contexto da Guerra Fria, a liberdade de expressão e a expansão dos meios de comunicação de massas eram apresentadas pela Pop como um imperativo das comunicações no sistema do capitalismo liberal. Marshall McLuhan torna-se um profeta da sociedade de comunicação global. Numa sociedade ágrafa como a brasileira das décadas de 50 e 60, a cantoria do cordel se convertia em pequenos folhetos ilustrados por xilogravadores populares. O corte tosco e a inventividade no trato da forma, tornou o cordel um modelo de gravura crítica e popular para Antonio Henrique Amaral, Anna Maria Maiolino, Manuel Messias e Samico. Ainda na Guerra Fria, a Revolução cubana cria um processo político de engajamento coma a utopia socialista. No Brasil em 1964 e logo na Argentina, as reações em forma de ditaduras militares levaram a uma arte de crise. A arte torna-se trincheira de resistência sob a forma de guerrilha simbólica. O artista ora é o homo sacer proscrito ora é aquele que torna visível o espetáculo obscuro da opressão política. A intencionalidade política demanda estratégias de comunicação e construção da relação significante e significado no envolvimento do público e nas formas de circulação da arte. O objetivo era manter a contundência e a legibilidade da mensagem, mas também estabelecer um modo de comunicação que garantisse a sobrevivência dos próprios artistas diante do aparelho de repressão do Estado.

A arte no período opera com as contradições entre o capitalismo avançado e o capitalismo periférico no eixo Norte / Sul. No extremo da pobreza, a sociedade de consumo da Pop deve ser justaposta ao consumo marginal e ao lumpensinato de Juanito Laguna de Berni. Do lado brasileiro, os debates sobre o espaço social, limitações e potencialidades da arte em países periféricos produzir linguagem autônoma aglutinam esforços de interpretação de Mário Pedrosa, Ferreira Gullar, Barrio e Haroldo de Campos.

A geografia de Milton Santos, que discute as contradições a explosão das cidades urbano nos países subdesenvolvidos. A multidão política emerge na pintura e na fotografia e em Divisor de Lygia Pape, opões entre presentar o signo da força coletiva ou engajar pessoas numa experiência de espaço compartilhado, um diagrama da vida social. Em suma, cabe pensar um ethos da arte nesse período. No contexto dos anos 60, a obra de Frantz Fanon sobre a persistência da mentalidade colonial repercutiu no Brasil com grande intensidade. Conceitos como Terceiro Mundo e a teoria da dependência movimentam o debate, ao lado de visões marxistas de múltiplas nuances. A antropologia no Brasil acentuou no entendimento das sociedades indígenas e da origem híbrida do Brasil, com o papel da África. Celso Furtado pleiteou que o subdesenvolvimento não se explica como “fase” a ser superada, mas como dimensão estrutural no capitalismo. Josué de Castro argumentou que a origem da fome era social e econômica opondo-se ao determinismo que naturalizava a condição endêmica no Brasil. Paulo Freire defende uma educação para a emancipação. Nesse quadro, o cinema de Glauber Rocha ou o teatro do oprimido de Augusto Boal são paradigmas de uma nova cultura.
A Bienal de São Paulo foi a instituição que propiciou um olhar amplo do Brasil sobre a arte argentina, cujos grandes movimentos dos últimos sessenta anos foram apresentados no evento. O crítico argentino Romero Brest foi a primeira voz internacional de apoio à Bienal paulista. A arte abstrato-geométrica de Buenos Aires estimulou a consolidação do concretismo brasileiro. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi a instituição a manter laços mais densos com a Argentina e possui o maior acervo público de arte latino-americana no Brasil. Em 1965, o MAM carioca abrigou mostras como Otra figuración, um panorama da arte argentina e a retrospectiva de Antonio Berni.

Ainda no Rio, manteve laços fortes com a Argentina até a década de 90 através dos galeristas Giovana Bonino, Jean Boghici e Thomas Cohn. Na segunda metade do século XX, no eixo Argentina-Brasil, parece ser que o Brasil tenha se beneficiado mais do regime de trocas entre os dois países. A marca argentina sempre foi mais visível sobre a produção brasileira que o contrário – melhor para o Brasil antropofágico.

Paulo Herkenhoff
 | Curador
 
 

A década de 60 é um período de profundas transformações. Em poucos anos os acontecimentos políticos e culturais levaram ao mundo simultáneamente uma euforia social, a criatividade radical e as crises. A emancipação juvenil, a libertação sexual, a explosão dos artistas da vanguarda, os hippies, o avanço da sociedade capitalista, o impactante desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e a publicidade convivem com a perseguição ideológica, a censura, as lutas de liberação e descolonização e as ascendentes ditaduras latinoamericanas.

Neste contexto, a pop arte e os novos realismos propuseram voltar com o olhar para o contexto social depois de longos anos de abstração. Mas essa visão não pode ser a mesma entre os centros onde se concentram o bem estar econômco e as regiões que buscam acessá-lo com dificuldade.
Arte das contradições. Pop, realismos e política. Brasil – Argentina 1960 explorou a produção artística desses anos desde a perspectiva específica destes dois países. Ao longo de suas salas, são evidentes as tensões entre a necessidade dos artistas de renovar os universos estésticos, sensoriais, simbólicos e o desafio ético e político em que empurram a gravidade dos conflitos da época.

Rodrigo Alonso
 | Curador

Surgido na Inglaterra em 1956 com Richard Hamilton, o movimento da pop art utilizava imagens da sociedade de consumo e da cultura popular e criticava o modo de vida dos americanos através das histórias em quadrinhos, propagandas e dos objetos produzidos em massa. Na pop art americana, o movimento tinha como objetivo criar produtos para a sociedade de consumo.

A pop art representa um período de transformação na arte, principalmente na arte brasileira, visto que o país enfrentava o período da ditadura militar, quando vários artistas, intelectuais, jornalistas, músicos e formadores de opinião, entre outros, eram perseguidos e presos. Por isso a interpretação do conceito de pop art utilizado pelos americanos é diferente do entendimento dos artistas brasileiros. Durante a década de 1960, os artistas brasileiros aderiram apenas à forma e à técnica utilizadas nesse movimento. Imprimiram sua personalidade e opinião crítica às obras, registrando sua insatisfação com a censura proporcionada pelo regime militar. Já a pop art dos americanos criticava a alienação e a sociedade de massa, discutia o vazio e a repetição provocada pelas máquinas, muitas vezes recorrendo ao humor negro.

A Nova Figuração foi um movimento da década de 1960 que de forma indireta tratava a pop art, utilizando-se da iconografia urbana e do abuso de cores, uma inovação em relação ao construtivismo. Os artistas tentaram resgatar alguns conceitos da pop art americana, porém esbarraram na ditadura militar e na precariedade do sistema de artes no Brasil, que não lhes oferecia condições de pesquisa. Sendo assim, eles se restringiram às questões sociais e políticas e à violência sexual e urbana. As novas técnicas contribuíram para esse avanço dos artistas brasileiros, resultando num trabalho de qualidade.

Uma das exposições mais importantes nesse período foi a Opinião 65, realizada no MAM – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, composta por 17 artistas brasileiros e 13 estrangeiros. Essa mostra representou o momento privilegiado no qual as discussões sobre a volta da figuração tomaram corpo pela primeira vez e de forma variada. Além disso, a exposição abordava a manifestação dos artistas em relação ao golpe militar de 1964. Porém, ela também aconteceu em outros países, como por exemplo: na Argentina intitulou-se Nueva Figuración, influenciado por
Francis Bacon, apresentando cores brilhantes e uma impressionante habilidade linear; na França, Figuration Narrative.

Esta importante exposição, fruto da profícua parceria entre o MAM e a Fundación Proa, de Buenos Aires, com o patrocínio do Grupo Techint – Tenaris/Confab, nosso mantenedor, visa também um intercâmbio cada vez maior entre as culturas de nossos países.

Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand
 | Presidente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

“América do Sul, a Pop Arte das contradições”
21 de junho – 14 de agosto

Horários de funcionamento:

De terça à sexta: das 12h, às 18hs

Sábados, domingos e feriados: das 12h, às 19hs.

Ingressos:
Inteira – R$8,00

Estudantes maiores de 12 anos – R$4,00

Maiores de 60 anos – R$4,00

Amigos do MAM – grátis

Crianças até 12 anos – grátis

Ingresso família (somente aos domingos) para até 5 pessoas – R$8,00

Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Av. Infante Don Henrique, 85
Parque do Flamengo
Rio de Janeiro – RJ

Tel: (+55 21) 2240-4944



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