Programação MAM-Rio | Final de semana

Confira a programação deste final de semana do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

ABERTURA | “LENA BERGSTEIN”
15 de Junho – 11 de Agosto
Curadoria de Luiz Camillo Osorio

O espaço do Foyer do MAM tem sido dedicado a projetos especiais. Os artistas são convidados a apresentarem ali um conjunto de obras – ou uma obra específica – que dê conta de uma pesquisa recente. No caso de Lena Bergstein, a investigação plástica atuando na fronteira da pintura e da escrita, da cor e da página, do tempo e do espaço, vem acontecendo já desde algum tempo e ela traz ao museu uma parte significativa e concentrada deste trabalho.

O azul é a tônica da exposição. Um azul profundo, opaco, que transita do olhar para a imaginação. Seja na tela, seja nas páginas dos seus livros-objetos, a cor e o gesto integram-se em uma escrita visual toda ela projetada para a origem do sentido. É como se nos víssemos diante de um grafismo atemporal, com manchas que parecem ter se fixado nas páginas e nas telas com a naturalidade do limo que nasce na superfície das pedras umedecidas.

Estes trabalhos nos fazem perceber um gesto que busca retomar a expressão simbólica anterior à linguagem codificada. O olhar hesita, desacelera-se e se deixa conduzir pelo virar das páginas, por um olho que vê tocando e por uma mão que toca vendo. Neste aspecto, voltamos à experiência ancestral da escrita em uma época marcada pela aceleração tecnológica. A arte é capaz de nos pôr diante de outras temporalidades que ficam esquecidas e reaparecem.

Luiz Camillo Osorio

Às noções de centro, equilíbrio e proporção, à harmonia como norma clássica do estabelecimento e da apreciação da boa forma, às firmes demarcações de território, Lena substitui o livro infinito, do qual cada pintura, cada página, cada anotação é captação e fragmento. Nelas, o Livro comparece e escapa. Os limites, no interminável livro da artista, são transcendidos em direção ao sentido, isto é, àquilo que foge a toda determinação, por ausência e por excesso.

Em sua arte, a iconografia mostra a importância da imagem visual como um operador de sensações e de afetos. Nos trabalhos da artista, aponta-se para o sentido por meio de um gesto que nada demonstra e nada clarifica. Manchas e triângulos suspendem as falas. Persiste uma obscuridade própria a nossa existência corporal no mundo. Não um ideal, mesmo não acessível, de transparência, mas o desejo de pensar sem conceito nem objetivo essa obscuridade, irmã gêmea das iluminações que Lena promete e provoca.

No encalço destes pensamentos inconstantes é que se desloca a deriva da artista, em busca de uma expressão plástica que acolha, nos espaços do ilimitado, a iconicidade da letra e da palavra. A configuração planar, o suporte tradicional do papel e do tecido, a estrutura do livro inconcluso ou do precário caderno de anotações servem aqui a um propósito contemporâneo. Nada a ver com o modernismo abstrato. Ao acolher diferentes linguagens, este trabalho é plenamente atual porque instala uma leitura multifacetada, que conjuga referências, tanto sagradas quanto profanas, filosóficas e literárias, à memória das histórias da escrita e da história da arte. Se há também busca de uma impossível reconciliação entre a imagem e a palavra, ela se dá na emergência de letras e de outras formas, no humor das linhas e das lacunas que costuram visão e escuta. Busca que ocorre nas páginas de um Livro todo ele escrito na linguagem ancestral de todas as línguas.

Páginas, livros e cadernos são arquivos: depósitos de conteúdos que se perdem na pura visualidade do traço, da forma e do plano. Menos que sulco (gravura) ou representação figurativa, a obra se torna passagem temporal, aérea ou aquática, em sua flutuação no espaço ilimitado. Recorte retirado de um mundo sem bordas, os limites do retângulo virtualmente se desfazem. Ao fundo, os espaçamentos. As linhas e geometrias, que pontuam o indeterminado, obedecem a uma coreografia sutil e desenham mapas para essas passagens do tempo. Virar uma folha, folhear um livro. E oferecer um espaço e um tempo para que se desdobrem o amor e a vida.

Rogério Luz

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ENCERRAMENTO | “CARNE MISTERIOSA” – RUI CHAFES
26 de abril – 16 de junho
Curadoria de Marcio Doctors

“Esta é uma exposição que tem por objetivo apresentar, para o público brasileiro, no Ano de Portugal no Brasil, a obra de Rui Chafes, um dos mais importantes escultores portugueses da atualidade.

A exposição foi concebida a partir da vontade de juntar dois elementos: o ferro e as palavras. O ferro porque Rui é um artista ferreiro e esse é o material com que trabalha, e as palavras porque elas também são parte fundamental de sua obra e do seu interesse como artista (basta conferir os títulos de suas esculturas). Da dureza do ferro ele erige presenças, criando potências precisas de cutelo que nos afetam, atingindo nossas lembranças com imagens inesquecíveis, que são como epifanias; e com as palavras ele tece os sentidos impalpáveis que envolvem suas esculturas, permeando-as com ideias, conceitos e poesia. Por isso “carne misteriosa”: o conteúdo de suas esculturas são as palavras; o continente de suas palavras são as esculturas negras de ferro. Como o mistério da carne – como de toda expressão da natureza para o homem – a matéria, o espírito e o sentido.

Mas não me bastaram o ferro e as palavras. Para mim Rui Chafes é mais do que isso. Não resisto aos vocábulos “deriva” e “fenda”. Suas palavras deslizam e nos induzem para um território de desmaterialização do objeto, colocando-o sempre em xeque, criando sulcos que revelam as verdadeiras intensidades da vida. Ele não é um fetichista. Apesar de escultor, o objeto em si não lhe interessa. O que lhe interessa, assim como para Giacometti, é a luta constante com e contra a forma para dela extrair a potência da expressão, que faz parte do mundo dos mortos, onde a presença já não é o mais fundamental. A forma não lhe basta. Suas esculturas, como ele próprio diz, são como módulos de pensamento, catalisadores e transmissores de forças. São pontos baços de resistência para que abram caminhos para as intensidades dos afetos e das energias que circulam e que circundam o mundo, que vêm do acúmulo do passado e que abrem o caminho para as potências do devir, revelando-nos a densidade e a intensidade da existência, em que a carne do mundo palpita: onde o fim se junta ao começo.

Por isso, certas estratégias, para além da forma da escultura, que percebi presentes em sua obra me interessaram e busquei destacá-las nesta exposição: o roubo, o abandono, a destruição, a fala, o grande, o pequeno, o leve, o pesado, a proximidade, a distância, o monumento, o amuleto, a solidão, a morte.

Juntamente com Gerardo Vilaseca concebemos uma exposição em dois níveis. O visitante se deparará com uma exposição que induz um duplo olhar: ela pode e deve ser vista tanto de cima quanto de baixo. No rés do chão são sete salas. No alto, estão as grandes esculturas e alguns textos do curador. Já nessa estrutura há uma incursão na relação do grande e do pequeno. No alto ou penduradas, elevam-se, contra o próprio peso, esculturas monumentais que nos dão a sensação de leveza. As salas abrigam esculturas menores, projeções, gravações e fotografias.

SALA UM: estão reunidas as obras da série l’inomminable feuille de…, que mais tarde passou a se chamar também pick-pocket. Elas foram moldadas a partir da anatomia da mão do artista e nela se encaixam perfeitamente. Elas poderiam ser roubadas sem grandes dificuldades, por se esconderem com facilidade entre a mão. Mas elas são como amuletos que nos protegem ou são como pequenos segredos que trazemos escondidos na alma.

SALA DOIS: Inferno. Aqui Rui faz uma incursão ao mundo dos mortos. Remetendo a Jean Genet, que gosta de citar, “[…] a arte é feita para o imenso povo dos mortos”. Há nessas obras uma clara referência aos desenhos de Botticelli para a Divina comédia, de Dante. O que é importante destacar é que, para o artista, a arte é um fluxo contínuo no tempo, daí sua resistência e o poder de catalisar as energias do passado. Seus interlocutores são os grandes mestres do passado. A presença da consciência da morte nos lembra a importância da vida.

SALA TRÊS: Solidão. Rui é um artista solitário. Assim como solitários são todos os artistas porque estão sozinhos nas suas singularidades. Desviam-se do tempo e o paralisam para inaugurarem seus próprios tempos. Nesta sala, prestamos uma homenagem a Novalis e a Rui Chafes, que ó o seu tradutor para a língua portuguesa, citando a frase de Novalis: “Estamos sós com tudo aquilo que amamos”.

SALA QUATRO: Durante o fim. Nesta sala é projetado o vídeo Durante o fim, realizado por João Trabulo sobre a obra de Rui Chafes. É mais do que um vídeo sobre uma obra, trata de apreender o que envolve a sensação da obra e do pensamento de um artista. O fim não é visto nem como destinação nem como um corte, mas como extensão no tempo; uma permanência porosa. A morte como extensão da vida. O fim encontrando-se com o começo.

SALA CINCO: O sonho de Giorgio de Chirico. Nesta sala, que guarda o segredo da arquitetura renascentista, de criar estruturas quadradas por fora e redondas por dentro, o público poderá se surpreender, na visão do paradoxo da forma arquitetônica e na distância que o separa da obra, como forma de proteger o sonho de Giorgio de Chirico, na sua busca solitária em meio à arte moderna, indo contra os desígnios de seu próprio tempo. Da mesma forma, Rui Chafes cria uma obra que vai contra certos modismos de nosso tempo marcados por uma arte superficial, voltada para a espetacularização.

SALA SEIS: O silêncio de … É uma instalação de uma obra em progresso que vai crescendo com o tempo. O artista mantém o hábito de escrever à mão e de tempos em tempos queima seus escritos e sela as cinzas em caixas de aço. Aqui, a destruição é usada como uma forma de libertação, tal como a criação, só que como desprendimento, renovação e purificação pelo fogo. A chama que carrega a força da arte e o mistério da criação através do tempo.

Andrej, filho de Andrej, filho de Andrej. Série de fotos que registram mais uma obra em progresso. Desde 1999 até os dias de hoje, o artista abandona esculturas na costa atlântica, na área onde se encontra seu ateliê e onde passou a infância. Mais uma vez aqui é posta em prática uma ação marginal que contesta a história do fetiche do objeto: o abandono. Rui entrega essas obras de volta à natureza ou para o passante desavisado que se interessar, como se quisesse instaurar uma arte anônima, em que o que vale é fluxo de trocas de energia entre ele e o mundo, fazendo-as retornar para o lugar ao qual a arte pertence.

SALA SETE: A história da minha vida. Nesta instalação audiovisual pode-se entrar em contato com uma surpreendente narrativa da história da vida de Rui Chafes. É uma história da história da arte através da vida do artista em que vamos descobrindo a espessura de suas criações. Suas convicções, suas escolhas, suas influências e seus comprometimentos.”

Marcio Doctors, curador

Horários de funcionamento:
De terça à sexta: das 12h, às 18hs;
Sábados, domingos e feriados: das 12h, às 19hs.

Ingressos:
Inteira – R$8,00
Estudantes maiores de 12 anos – R$4,00
Maiores de 60 anos – R$4,00
Amigos do MAM – grátis
Crianças até 12 anos – grátis
Ingresso família (somente aos domingos) para até 5 pessoas – R$8,00

Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Av. Infante Don Henrique, 85.
Parque do Flamengo.
Rio de Janeiro – RJ
Tel: (+5521) 2240-4944



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