Seminário amanhã na Casa França-Brasil

Seminário
sábado, 20 de abril

Expandindo as possibilidades de interação entre a obra de arte e seu entorno, o artista Laercio Redondo propõe um seminário sobre Cidade do Rio de Janeiro e seu contexto urbano, arquitetônico e social.

Tema: Ontem, das 15h às 17h
com Ana Luiza Nobre, Pedro Duarte e Fernando Cocchiarale

Tema: Hoje, das 17h30 às 19h30
com Pedro Évora, Sérgio Martins e Jailson de Souza

EXPOSIÇÃO

“Contos sem Reis”, de Laercio Redondo

Em Contos sem Reis, o artista convida o público a revolver a historia do prédio que abriga a Casa França-Brasil, pensado como emblema da cidade do Rio de Janeiro e do processo de construção de uma identidade nacional. A mostra, que reúne um conjunto de obras heterogêneas, traz também personagens centrais dessa conturbada narrativa, tais como Debret e Carmem Miranda, muito para além dos clichês do atraso social ou do tropical.

As artes visuais, em boa parte dos seus trabalhos contemporâneos, flutuam de vento em popa rumo ao mundo, muitas vezes deixando soterrados histórias, personagens e imagens de seus próprios espaços. Na contramão dessemomento, o cosmopolitismo da arte, às vezes, pode ser temperado com reflexões locais para nunca perdermos a dimensão de onde estamos e de onde viemos.

A exposição Contos sem reis trata disso, mas vai muito além. Aqui, Laercio Redondo sugere que histórias contadas muitas vezes sobre a cidade devem ser repensadas fora da ótica oficial. Não sendo carioca, e vivendo há mais de uma década no exterior, Laercio olha a cidade com uma perspectiva generosa – e, por isso mesmo, crítica. Seu trabalho visa à criação de um espaço que alie prazer e reflexão. Nesta exposição, Laercio revolve a terra da memória e nos apresenta um questionamento em forma de palavras, imagens e ideias. Expõe as vísceras do edifício que desde 1989 é a sede da Casa França-Brasil, deixando à mostra os fluxos subterrâneos da cidade para o público e instalando em sua grande sala principal a palavra-escultura Revolver como representação de todas as ideias que circulam pela exposição.

O espaço, assim, fica limpo, amplo e sem adornos, apenas com palavras ecoando ao redor da grande palavra de madeira que nos leva ao mote central de tudo que está em movimento na Casa: revolver, isto é, enfiar novamente a mão na terra, mexer novamente no arquivo, ativando memórias que, se não são conhecidas de todos, estão presentes em cada pedra desse espaço.

Ao partir da vida para pensar a arte – e não o caminho contrário –, Laercio transforma a Casa França-Brasil em uma metonímia da cidade que abriga sua sede e que, por séculos, abrigou as sedes dos poderes coloniais, monárquicos e republicanos. Laercio sabe de toda essa trajetória e ativa essa trama histórica a partir de dispositivos estéticos que sintetizam o imaginário – e a imagem – do carioca.

Portanto, quando vemos reunidos aqui os fragmentos de um discurso amoroso sobre esta cidade através das referências diretas a Debret (um dos pintores franceses que vieram na Missão Francesa de 1816) e Carmem Miranda, Laercio nos oferta dois polos imagéticos poderosos para nos entendermos como população no mundo e para o mundo. O francês que pintou como poucos a cultura negra e escrava do Rio de Janeiro durante o século XIX cria um liame tênue, porém contundente, com a portuguesa que levou ao resto do mundo uma forma de fazer arte e cultura oriunda, justamente, dos descendentes daqueles que Debret nos legou suas imagens. O trabalhador pobre urbano das ruas é também o sambista da Lapa que batia na caixa de fósforo o último refrão para Carmem Miranda se encantar e gravar.

Ao acrescentar fotos suas, atuais, de trabalhadores urbanos contemporâneos em sua impressionante, mas não surpreendente, semelhança com os escravos de ganho retratados por Debret, Laercio nos mostra muito mais do que seus trabalhos apresentam. Conto sem reis é uma exposição cujas histórias e imagens reverberam as mudanças urbanas conduzidas pelo poder público em diferentes momentos da nossa história. Em um momento da cidade em que passamos por novas transformações urbanas – e pelos conflitos inerentes que tal processo suscita dentre a população –, esta exposição amplia sua moldura para as ruas e estabelece na Casa França-Brasil um contraponto ético com o cotidiano carioca e brasileiro. No solo fértil da arte de Laercio Redondo, descobrimos que revolver nossa memória coletiva é a melhor forma de lançarmos novas sementes transformadoras do presente.

Frederico Coelho, curador

Para saber mais sobre a carreira e obra do artista e assistir a uma vídeo entrevista, acesse sua página:

Laercio Redondo

“Contos sem Reis”
17 de março a 05 de maio
terça a domingo, das 10h às 20h

Casa França-Brasil
Rua Visconde de Itaboraí, 78
Centro – RJ CEP 20010-060
Telefone: 21 2332-5120

Horários de visitação:
terça a domingo, das 10h às 20h.



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