Área de Convivência Crítica por Marta Mestre

Na edição do PIPA 2012, convidamos três críticos atentos à arte contemporânea brasileira para analisarem a exposição dos finalistas daquela edição, Marcius Galan, Matheus Rocha Pitta, Rodrigo Braga e Thiago Rocha Pitta.

Essa proposta teve como objetivo estimular a discussão crítica dentro do espaço expositivo e aproximar o público de uma discussão mais qualificada e fundamentada.

Um dos críticos convidados, Marta Mestre – que além de crítica é curadora assistente do MAM-Rio – propôs que sua atuação fosse para além da produção do texto crítico. Junto com a arte-educadora Virgínia Mota, ela propôs uma série de ações para ativação do espaço interativo da mostra do PIPA no museu (imagens abaixo/ Outras informações sobre a Área de Convivência Crítica na Exposição PIPA 2012, clique aqui.).

Leia a seguir a proposta e conclusões, no texto crítico de Marta Mestre para esse espaço na exposição dos finalistas do PIPA 2012:

“Área de Convivência Crítica”
por Marta Mestre

Da mesma forma que a experiência estética já não é monopólio da arte nem do museu, também a crítica deixou de ocupar os territórios tradicionais da imprensa ou do ensaio. Hoje ela se exerce em suportes variados, perde terreno nos jornais e ganha nas redes sociais, e torna-se “produto mercantil” que integra a denominada “economia da experiência”.
A crítica também já não é esse “fora” que olha um “dentro”, nem o combate da liberdade contra a instituição. Na verdade já não existe a “crítica selvagem” de que falava Marguerite Duras.
Foi tendo este contexto por base que considerei que o convite do Prêmio Pipa 2012 à crítica e aos críticos (elemento novo face às edições anteriores), teria de passar por repensar os seus modelos defuntos e operar com um novo contexto, onde os museus são cada vez mais espaços de dissenso e o foco se desloca de criação de obras-objetos ou exposições, para um maior ênfase nos espaços de diálogos com bases em formatos pedagógicos críticos.
“Área de Convivência Crítica” foi a proposta de constituir um ponto de escuta e interface dentro do MAM, relacionado pontualmente com a edição do Prêmio Pipa 2012, mas potencialmente constituinte de um museu crítico.
Começou-se a partir do que já existia nas edições anteriores, da “área de convivência” habitual do Pipa, um espaço de prolongamento da visita ao museu que adotava um modelo que passamos a ver em muitos museus, o espaço lounge com puffs confortáveis e post-its para deixar anotações sobre arte ou qualquer outra coisa. A proposta foi refletir de que forma este espaço se poderia “tornar crítico”.
Criaram-se ativações simples e pontuais na configuração visual do espaço (carpete, cor das paredes, disposição do mobiliário, e também ativações mais conceituais tais como a montagem off com imagens de arquivo das reuniões do júri no vídeo de divulgação dos quatro finalistas, a constituição de um “Livro de Critérios”, ou a inserção de bibliografia “crítica” para consulta do público (p. ex. anuários dos melhores vinhos e dos cavalos mais velozes, “O Príncipe”, de Maquiavel, ou best-sellers como: “How to become a contemporary artist”). Para além disso, a cada semana lançava-se uma pergunta do tipo “O que você daria como prêmio se não fosse monetário?”. A ação dos mediadores consistiu na aproximação destas ativações aos visitantes através de debates e conversas.
Criou-se uma página do Facebook que servia de contraponto crítico à modalidade de votação no Facebook do Pipa – um dos aspectos deste Prêmio que mais polêmica tem gerado -, e enviou-se questões para outros críticos sobre prêmios e instituições; as quais foram publicadas periodicamente no site sob o título “Reflexões críticas – …… responde a Marta Mestre” *. A “Área de Convivência Crítica” registrou ainda o fluxo dos visitantes, e disponibilizou um recorte dessas impressões. Desta forma, o estado “vazio” do início das atividades, foi sendo preenchido por uma quantidade babélica de comentários, conversas, desenhos, declarações, votações.

Tentando formular respostas sobre a autonomia sobre uma crítica a partir de dentro da instituição, julgo que podemos olhar a própria história do MAM-Rio. Destacaria dois momentos: Antonio Manuel entrando nu no museu depois de ter inscrito o seu corpo como obra e ter sido rejeitado pelo júri do Salão de Arte Moderna em 1970, e os passistas da mangueira usando os parangolés de Hélio Oiticica barrados à porta do museu.
A crítica bipolar que se fazia entre um dentro e um fora, deu hoje lugar à crítica num campo poroso e instável cujo dado mais relevante é a nova capacidade discursiva dos públicos.
Também já não acreditamos, como Adorno, que a salvação seja defender a alta cultura e a arte de vanguarda contra a cultura de massas.
“Área de Convivência Crítica” pretendeu contribuir para pensar um museu crítico e a defesa de espaços políticos, e de formas políticas que ainda existem no debate, na argumentação, na imaginação, e nos silêncios também, dando visibilidade (sem vencedores nem vencidos) às contradições do museu e à capacidade de dialogar com as pessoas que o freqüentam.

Área de Convivência Crítica é um projeto de Marta Mestre, com a colaboração da artista Virgínia Mota.
Mediadores: Jean D. Soares, Nadja Dulci, Chimenia Sczesny e Higgor Vieira.

* Leia os textos: “Reflexões críticas – …… responde a Marta Mestre”:

Agustín Perez Rúbio responde Marta Mestre
Luiz Camillo Osorio responde Marta Mestre
Rita Natálio responde Marta Mestre

A seguir os links para os textos dos outros 2 críticos convidados para escrever sobre a exposição PIPA 2012:

– Texto de Cezar Bartholomeu
– Texto de Santiago Navarro

Mais informações sobre a Área de Convivência Crítica – Exposição PIPA 2012



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