Luiz Camillo Osorio conversa com Cabelo

Luiz Camillo Osorio conversa com Cabelo 

1 – Cabelo, como foi sua formação no Parque Lage? Como se deu a passagem do criador de minhocas para o artista? Quais suas principais influências neste primeiro momento?

Minha formação no Parque Lage foi relativamente breve: entrei no dia 08/08/88 e fiquei até o início dos anos 90. Comecei frequentando as aulas de desenho, depois pintura, aulas teóricas, mas foi no galpão de escultura, nas aulas do João Goldberg, que comecei a realizar meus primeiros trabalhos. 

A passagem do criador de minhocas para o artista foi acontecendo gradualmente. Nesse período, chegava na EAV direto da roça, abria o porta-malas do carro e vendia feijão, arroz integral, banana, coco, inhame… 

Ao ingressar no Parque Lage minhas únicas referências eram praticamente Picasso e Miró. Depois me encantei pelos desenhos do Roberto Magalhães. Aos poucos, através dos professores e das palestras de artistas, passei a ter contato com as obras de Joseph Beuys, Artur Barrio, Tunga, Cildo Meirelles, entre outros que me influenciaram.

Confesso que ao deixar de criar minhocas deixei que elas me criassem: da merda ao húmus, assim em progressão infinita.

2 – Como foi ter ido tão cedo para a Documenta de Kassel (1997)? Como você assimilou essa oportunidade e o que você acha que ficou daí?

Ir cedo para a X Documenta de Kassel, em 1997, foi uma confirmação de que minha intuição em relação ao que estava fazendo estava no caminho certo, já que tinha pouquíssimo, ou quase nenhum diálogo com críticos ou curadores daqui. Paralelamente, estava gravando o disco da minha banda, o Boato, que sairia no ano seguinte. Foi a primeira vez que pisei na Europa. Tive problemas de censura com a minha obra e embates bastante agressivos ao defendê-la. Foi um belo aprendizado: perdi um tanto da ingenuidade e fiquei escaldado logo de cara.

3 – A relação entre a música e o artista visual esteve e está presente. Você percebe isso como divisão ou como potências complementares?

A produção visual e a produção musical sempre andaram juntas, e no princípio se manifestavam paralelamente. Aos poucos foram se contaminando, e se complementando, a ponto de, não só trechos de músicas inspirarem a produção de objetos plásticos, como também, por exemplo, uma escultura feita de restos de um barco com rodas de skate inspirar um refrão, virando musa inspiradora de uma canção. 

4 – A relação com a poesia, com a palavra, é outro elemento que perpassa sua ação performática e sua inquietação gráfica. Da palavra para o desenho, da voz para a linha, é uma mesma experimentação com a linguagem e com o corpo. Fale um pouco destes processos produtivos, destes momentos expressivos.

A poesia é a matriz da minha obra. Na origem da criação está o som, a palavra, frequência vibratória, a música… e com a música o corpo que dança, toca, escuta, canta, desenha , escreve… Flagro-me diversas vezes emitindo sons, cantando, enquanto desenho… tudo acontece simultaneamente… testemunho linhas tornando-se letras, sílabas formando palavras que se transformam em seres… para mim o corpo é o veículo, o meio, o cavalo, sismógrafo, estação de rádio… o desafio é administrar o encargo diário de energia que o corpo recebe… arte é o rastro que esse corpo vai deixando à sua passagem.

5 – Seu trabalho também teve vários momentos de parceria poética – Boato, Tunga, Jarbas (Lopes), Raul (Mourão). Como é para você este processo de co-produção? O que há de mais forte e mais difícil nestas cumplicidades poéticas?

Todos esses parceiros, cada um com sua personalidade ímpar, são amigos, parceiros na vida. Assim essas colaborações acontecem de forma natural, com muito prazer e pouca dificuldade. Aprendi e continuo aprendendo com todos eles. São sempre enriquecedoras essas parcerias, que se dão através do diálogo, do silêncio, respeito e confiança mútuos.

6 – O seu trabalho pertence ao universo poético do Rio de Janeiro ou ele não tem chão / céu próprio? 

Elementos da cultura carioca evidentemente fazem parte do meu universo poético, estão presentes no meu corpo e para onde quer que eu vá carrego tudo isso comigo. Da mesma forma, quando atravesso a cidade do Rio, sou atravessado pelas águas do rio de Heráclito, carregando no bolso O Casamento do Céu e o Inferno de William Blake, ouço o Cântico Cósmico de Ernesto Cardenal e me vêm visões da ayahuasca, os ensinamentos dos Vedas, o silêncio do Buda, imagens do telescópio Hubble e das eras imaginárias… 

7 – O que não te interessa como artista? O que mais te incomoda no mundo da arte?

Como artista tudo me interessa. Há certas coisas que não curto, mas sem tempo pra ficar incomodado; a arte é muito mais vasta que o mundo da arte.



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