“Liminaridade”, leia o texto crítico de Raphael Fonseca para a individual de Frida Baranek

Raphael Fonseca, membro do Comitê de Indicação PIPA 2018, comenta a nova exposição de Frida Baranek, “Liminaridade”, que permanece em cartaz na Galeria Raquel Arnaud até 08 de junho. O curador do MAC-Niterói e doutor em Crítica e História da Arte pela UERJ analisa a trajetória da artista, marcada há décadas pela tridimensionalidade e pelo uso de materiais industriais torcidos, que em conjunto com elementos mais orgânicos cria uma ideia de “vazio do entorno” e de “acúmulo e excesso”. Nesse mais recente trabalho, o material mais utilizado é o arame de proteção, frequente na construção civil, que é normalmente usado para o isolamento de espaços. Em “Liminaridade”, Frida cria para o arame um novo tipo de interação com o público – que é convidado a circular no material e experienciar o processo de criação do artista.

“Liminaridade”

(por Raphael Fonseca)

Os limites entre materiais e também aqueles relativos à escultura e o seu entorno são alguns dos interesses centrais na nova série de trabalhos de Frida Baranek. Essa equação entre matéria e espaço é inerente à escultura em sua perspectiva histórica; da Antiguidade à efemeridade das instalações realizadas nos últimos 50 anos, mostrar um objeto artístico tridimensional sempre se configura como um tensionamento entre escalas, cores e materialidades.

Para quem conhece o percurso da artista, a linguagem tridimensional certamente é um de seus grandes interesses e a partir dela sua carreira se desenvolve há mais de três décadas. O uso de materiais industriais é constante e estes são sempre torcidos e afetados pela escala do corpo humano. Ferro, metal e aço são usados no formato de chapas, mas também como arames e fios que são embolados. O contraste desses materiais industriais com outros advindos de uma esfera mais orgânica – como a madeira e as pedras – chama a atenção desde os primeiros trabalhos de Baranek. Formalmente, parece haver uma tendência tanto ao desenvolvimento de trabalhos que se utilizam do vazio do seu entorno como elemento compositivo, como também uma linha de pesquisa que gira em torno do acúmulo e do excesso. Como bem percebido por Roberto Conduru, a poética da artista pode ir ao encontro do termo popular “bololô” 1 – ou seja, uma amálgama de elementos, uma confusão de encontros que gera uma materialidade por vezes opaca.

“Liminaridade” é o título desta exposição e de sua série mais recente de trabalhos. O termo diz respeito à experiência de proximidade com o limite subjetivo entre dois diferentes estados existenciais. Trazendo para uma compreensão mais física do termo, é interessante notar que o material central utilizado pela artista são as telas de proteção. Comumente encontradas em apartamentos e na construção civil, as telas costumam ser utilizadas para dividir espaços e impedir a circulação de pessoas e animais. Nas suas mãos, o material é dobrado em diversas partes e gera trabalhos que trazem ao público diferentes experiências.
Dois desses trabalhos são espacializados ocupando a galeria de diferentes formas. Um deles se apresenta como uma espécie de coluna que conecta o teto ao chão. O outro é pendurado no teto e pende como uma nuvem. Ambos convidam o público a circular no seu entorno e perceber como a transparência é um elemento-chave para a pesquisa da artista.

Outros dos trabalhos aqui apresentados pela primeira vez estão instalados diretamente na parede e nos recordam que a opacidade também é uma característica constante de sua pesquisa. Essas obras intrigam o olhar do público por seu contraste com outros materiais que têm feito parte do repertório da artista – madeira, ferro e acrílicos coloridos são acrescidos e transformam suas esculturas em ensaios sobre a forma. As dobras feitas pela artista são não apenas a estrutura desses trabalhos, mas também as responsáveis pelo ritmo com que percebemos seu movimento. A repetição e a singularidade de cada uma dessas dobras nos remetem à aceleração gestual que foi necessária para sua concepção.

Cabe, aqui, talvez recordar do estopim – também relacionado à aceleração e ao peso – para o surgimento desses novos trabalhos: a artista teve a oportunidade de realizar um voo em gravidade zero no ano passado. A força gravitacional, a aceleração de seu corpo rumo ao teto e a possibilidade de dobrar o próprio ar são elementos que certamente a levaram a essa nova série e que podem ser revistos de diversas maneiras no seu percurso.

Gosto de pensar nessas obras também como um convite a rever o caráter divisor e protetor do uso original dessas telas. Vertidas em esculturas expressivas, parece inevitável – à luz dos acontecimentos históricos recentes – olhar suas superfícies e não enxergar também uma dimensão discursiva nelas. Longe de dividir, essas esculturas somam e multiplicam – tanto como formas no espaço quanto como um convite para que outros olhares percorram suas texturas e pensem sobre os muitos limites que tentam nos impor, mas devemos dobrar e remontar cada um à sua maneira.

1 CONDURU, Roberto. Corpo como lugar, arte como exílio. In: Frida Baranek. Rio de Janeiro: Barléu Edições, 2014, p. 13.



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