Denise Gadelha 2018

Denise Gadelha ressignifica obras destruídas

(Porto Alegre, RS)

“Acidentes nos expõem à fragilidade da existência. Despertam a consciência de que a finitude é inevitável. Mas, por outro lado, se todo fim é também recomeço, então, podemos eleger entre alternativas que enquadram a perspectiva do nosso olhar.” Aceitar uma perda e transformar em algo novo é o que a artista Denise Gadelha decidiu fazer quando suas obras foram atingidas por um drástico vazamento de água no antigo atelier em Porto Alegre. O conjunto de trabalhos apresentados na exposição “Náufragos na Correnteza do tempo” foi desenvolvido a partir da ressignificação de fotografias atingidas no vazamento.

O apartamento da artista estava fechado por três meses, quando o interior foi tomado por uma espécie de microclima onde a água acumulada entrou em um constante ciclo de evaporação e condensação – literalmente chovia lá dentro. As obras que estavam no atelier entraram num acelerado processo de fermentação, degradação e derretimento de superfícies, mas o que poderia ter sido tratado como um desperdício, foi tomado como uma transmutação, um recomeço, pela artista.

Grande parte dos trabalhos no local eram colagens manuais de fotografias analógicas, portanto, eram peças únicas. Com isso, a artista se deparou com o desafio de dar continuação à sobrevivência da arte apesar do desapego da obra. Apenas dois trabalhos originais que sobreviveram ao acidente fazem parte da mostra; os demais projetos foram concebidos especialmente em diálogo com o ambiente da Fundação Iberê Camargo. A exceção é “Espaço-tempo permeável” que foi comissionado para uma exposição de 2017, que agora é apresentado em uma versão expandida, experimentando a dispersão de seus módulos.

Náufragos na correnteza do tempo, individual de Denise Gadelha
Em cartaz de 08 de dezembro de 2018 a 03 de março de 2019

Fundação Iberê Camargo
Avenida Padre Cacique, 2000, Porto Alegre – RS
Horário de funcionamento: sab – dom, das 14h às 19, qua a dom – a Fundação Iberê Camargo também atende por agendamento, basta ligar para o Programa Educativo – 51 3247 8000

 

Leia na íntegra o texto escrito pela Denise Gadelha sobre a exposição:

Náufragos na correnteza do tempo

O conjunto de trabalhos apresentado nesta exposição foi desenvolvido a partir da ressignificação das obras atingidas por um drástico vazamento de água ocorrido no antigo atelier de Denise Gadelha em Porto Alegre. A aceitação da perda lhe pareceu facilitada quando tratada como matéria-prima fértil a outros desdobramentos criativos.

Apenas duas obras originais que sobreviveram ao acidente compõem a mostra; os demais projetos, em sua maioria de caráter instalativo, foram concebidos especialmente em diálogo com o ambiente da Fundação Iberê Camargo. A exceção é Espaço-tempo permeávelque foi comissionado para a exposição Antilogias: o fotográfico na Pinacoteca, em 2017, entretanto, agora é apresentado em uma versão expandida, experimentando a dispersão de seus módulos.

Por se tratarem de trabalhos de base fotográfica, tal situação conduz à reflexão acerca da ambiguidade em torno da obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, já que a própria efemeridade física do suporte fotográfico pode agregar aura pelo valor histórico de sua existência enquanto objeto. Boa parte dos trabalhos que estavam naquele local sofrendo tal decomposição eram colagens manuais de fotografias analógicas, e portanto, peças únicas. Com isso, Denise se depara com a necessidade de encarar procedimentos no intuito de sobrevivência da arte apesar do desapego da obra.

Contra a noção corrente da fotografia como documento que eterniza a memória, aqui a imagem é tomada como um estágio em uma genealogia de reencarnações de obras desdobradas em corpos temporários de imagens-técnicas. Assim, o trabalho segue em transformação, reconfigurando sua história, mesmo que isto signifique protagonizar sua própria ruína física.

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