“O MUZEH DE TEERÃ: estranho, mas único”, leia o texto crítico de Luiz Camillo Osorio

Um museu fundado em 1977 no Teerã cujo acervo inclui alguns do nomes mais icônicos da arte moderna e contemporânea ocidental. O Museu de Arte Contemporânea de Teerã – ou Muzeh, como é localmente chamado – conta com obras de artistas como Picasso, Andy Wahrol e Rauschenberg; um acervo de mais de mil obras adquirido em grande parte durante a crise do Petróleo e que sobreviveu à Revolução Islâmica. Com uma coleção tão diversa, que inclui também obras históricas e contemporâneas do Irã, o desafio do museu é propor uma curadoria que explore e aproxime trabalhos tão distintos cuidadosa e criativamente. “A oportunidade e a aquisição de uma quantidade superlativa de obras canônicas do modernismo e da arte contemporânea ocidental, acabou por legar-lhe um acervo único e que obriga um pensamento curatorial original”, escreve Camillo. “Misturar obras de arte de diferentes tradições deve ser algo estimulado, porém feito a partir das especificidades culturais de modo a não se criar falsas aproximações de caráter meramente formal”, constata. Leia o texto na íntegra:

 

O Muzeh de Teerã: estranho, mas único

por Luiz Camillo Osorio

Em 2012, em uma conferência do curador iraniano Tirdad Zolghadr durante o encontro do CIMAM em Istambul, ouvi pela primeira vez, cheio de surpresa, a história do Museu de Arte Contemporânea de Teerã (TMoCA), chamado localmente de Muzeh. Uma imagem mostrada por ele do espaço expositivo me marcou – um grande móbile de Calder gravitando em um vão meio escuro tendo ao fundo dois retratos dos Aiatolás Khomeini e Khamenei. Toda a história de como a coleção foi feita e dos desdobramentos misteriosos após a revolução islâmica é um capítulo fascinante e pouco conhecido no mundo da arte e da geopolítica contemporânea.

Inaugurado em 1977 por decisão da imperatriz Farah Pahlavi, esposa do Xá Reza Pahlavi, teve sua coleção comprada nas principais galerias de Nova York, Londres e Paris, em seguida à crise do petróleo de 1973 – que foi responsável por um abalo relevante no mercado de arte ocidental. Muito petróleo e preços camaradas tornaram a empreitada iraniana única no mundo da arte. São mais de mil obras de arte moderna e contemporânea ocidental – uns 30 Picassos, dezenas de Jasper Johns, Rauschenbergs e Warhols, fora os impressionistas, pós-impressionistas, expressionistas abstratos etc. Enfim, coisa de deixar qualquer museu de “primeiro mundo” rendido. A exposição de abertura, em1977, foi uma mostra individual do artista Pop inglês David Hockney.

Depois da revolução islâmica em 1979 o museu e sua coleção ficaram hibernando. Muitos acreditaram que a coleção ocidental teria sido destruída. Com a maior abertura do regime iraniano ao ocidente desde 1997, o museu começou a expor sua coleção e comissões ocidentais começaram a visitá-lo, assim como interessados em comprar suas obras. Todos estes compradores deram com os burros n’água. Nenhuma obra foi vendida, nem desapareceu. Na verdade, apenas uma obra foi destruída – um retrato da imperatriz feito por Warhol levou uma facada definitiva. Depois, em 1994, houve uma troca de uma pintura de De Kooning de 1950 por um livro de miniaturas islâmico de 500 anos, que pertencia a uma coleção americana. Este mesmo quadro foi vendido pelo novo proprietário, em 2006, por 137 milhões de dólares, um recorde para De Kooning.

Interessante pensarmos o projeto do Muzeh tendo como paralelo dois museus seus contemporâneos – o Pompidou de Paris e o New Museum de Nova York, inaugurados todos em 1977. Muito do que conhecemos hoje no mundo da arte globalizado começava a ser esboçado aí, a saber: (1) novas narrativas históricas para a arte moderna e contemporânea; (2) outras formas menos disciplinares de articular linguagens artísticas e pensar coleções; (3) expansão global de modelos expositivos (incluindo os franchising de museus); (4) interdependência entre museus e mercado de arte, como forma de financiamento institucional diante da crise das políticas públicas para a cultura; (5) a arquitetura arrojada dos museus como plataforma de renovações urbanísticas e de gentrificação nas cidades. O caso do museu de Teerã é o mais fora da curva, pois apesar de ter sido um projeto megalomaníaco do regime opressivo e ocidentalizado dos Pahlavi, legou uma coleção que pode gerar inúmeras releituras e diálogos novos. Há uma abertura de possibilidades que pode ser única.  

O projeto modernista do arquiteto Kamran Diba (primo da imperatriz) mistura traços de certo brutalismo arquitetônico com detalhes decorativos da tradição local. O museu iraniano tem 5 mil metros quadrados de espaços expositivos, descendo por uma rampa no subsolo, como se fosse um grande Guggenheim subterrâneo. Ao fugir de Teerã depois da revolução para Roma, onde ainda mora – o arquiteto que foi também o primeiro diretor do Muzeh deixou o inventário com as obras catalogadas em casa. Nunca mais foi recuperado. A coleção ter sobrevivido a este período inicial – radicalmente anti-ocidental – foi um milagre. Certamente ajudado pela dedicação sacerdotal de Firouz Shabazi Moghadam, inicialmente contratado para instalar o linóleo no piso do museu. Ainda em 1977 virou o responsável pela guarda das obras. Sem nenhum conhecimento prévio de arte, começou a estudar sobre aquelas obras e artistas e protegeu como pode o acervo pelos próximos 30 anos. Recentemente, dois anos depois de aposentado, foi reconduzido ao museu para ajudar na catalogação de todo o acervo, que inclui também obras importantes de arte iraniana e do oriente médio.  

Montagens menos historicistas das coleções e uma visão menos convencional do que cabe mostrar em um museu contemporâneo estavam em jogo quando o Muzeh foi criado, no final da década de 1970. O próprio sentido de “contemporâneo” começava a surgir como questão para além de implicar mero pertencimento ao presente. De certo modo, o contemporâneo servia como alternativa para escapar dos determinismos históricos e do monopólio da leitura formalista da arte modernista sem com isso cair no vale-tudo pós-moderno. Como manter algum vigor experimental, como explicitar atritos políticos e ao mesmo tempo incorporar valores multi-culturais, temporalidades heterogêneas e, acima de tudo, afirmar articulações múltiplas, problemáticas e ambivalentes entre narrativas locais e o sistema globalizado da arte? Os desafios são imensos e mantém-se mais vivos do que nunca.  

Apostar na diversidade não garante problematização de formas culturais hegemônicas; o mais importante é deslocar modos de narrar o(s) passado(s) a partir da abertura de novos imaginários poéticos, políticos e afetivos. Misturar obras de arte de diferentes tradições deve ser algo estimulado, porém feito a partir das especificidades culturais de modo a não se criar falsas aproximações de caráter meramente formal. Ter uma coleção que junte qualidade e diversidade é um passo fundamental para se ter autonomia curatorial e possibilidade de montagens originais. É cada vez mais difícil para os museus comprarem obras importantes.

No caso do TMoCA, a oportunidade e a aquisição de uma quantidade superlativa de obras canônicas do modernismo e da arte contemporânea ocidental, acabou por legar-lhe um acervo único e que obriga um pensamento curatorial original. Isto faz deste museu um caso bem diferente da realidade atual em que coleções ocidentais são emprestadas para museus árabes como estratégia de financiamento e com formatos expositivos engessados. O estranhamento de ver os retratos dos Aiatolás com o móbile do Calder é um sinal de que há uma abertura única neste museu e que ele tem um repertório singular para experimentar combinações singulares.

Como observou Alireza Sami-Azar, que ficou à frente do museu como curador chefe entre 1998 e 2005, uma das grandes obsessões da primeira geração de artistas nascida depois de 1979 foi com o sentido de contemporâneo que viesse descolado da identidade islâmica. Depois do período de isolamento, “esta nova geração estava bastante preocupada com novos materiais e linguagens artísticas atuais, não apenas como resposta às restrições anteriores, mas pelo próprio impasse do modernismo na arte. A reação a este dogmatismo, cuja necessidade era óbvia, fez com que a primeira exposição de arte conceitual fosse um evento no Irã”.

Ter um museu com uma coleção como é o caso do TMoCA é uma condição única para esta instituição participar de forma crítica na multiplicação das narrativas do contemporâneo na arte. Como articulá-la com o contexto local, como repensar as narrativas do moderno e do contemporâneo a partir de tradições históricas heterogêneas, como inserir a arte na busca de novos modelos de sociedade; tudo isso faz deste museu e de sua coleção um caso a ser acompanhado de perto.  Pena que a administração Trump esteja empurrando o Irã para mais isolamento e dificultando a circulação dos seus artistas e também desta incomparável coleção.

 

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015. Acesse a Coluna do Camillo e leia textos exclusivos do curador do Instituto PIPA.



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