Matias Mesquita, “Corpo Sólido”, 2014

Leia o texto crítico de Ana Avelar para a individual Matias Mesquita

Buscando aprofundar e informar ainda mais a discussão sobre arte contemporânea brasileira, o Prêmio PIPA vem publicando textos críticos, exclusivos ou não, dos críticos que já foram membros do Comitê de Indicação e do Conselho do Prêmio PIPA. Dessa vez, publicamos o texto escrito por Ana Cândida de Avelar, membro do Comitê de Indicação do Prêmio PIPA 2017, sobre a exposição individual de Matias Mesquita, artista indicado ao Prêmio PIPA 2016, na Casa de Cultura da América Latina – CAL/UnB. Partindo de investigação acerca das nuvens – sua forma, sua indefinição e sua possibilidade lúdica – o texto explora as imagens das nuvens no trabalho de Mesquita. O artista pinta as grandes massas de ar e água que flutuam no céu em placas de cimento, parecendo indicar, diante de uma paisagem urbana saturada, a possibilidade de um espaço de contemplação.

 

Fronteiriço, de Matias Mesquita

por Ana Avelar

Entre as nuvens e o concreto, o trabalho de Matias Mesquita acontece nas possibilidades da paisagem. É possível associar Fronteiriços a lugares comuns da cidade de Brasília pensados a partir da imensidão do cerrado – bastaria a máxima atribuída à Lúcio Costa: “o mar de Brasília é o céu”.

Entretanto, em termos de um assunto da representação, Mesquita conversa com referências mais distantes na história da arte, como, por exemplo, artistas viajantes que, partindo de um procedimento entendido como documental, buscavam reproduzir diferentes fenômenos atmosféricos criando uma espécie de inventário de nuvens.

Considerada um elemento enigmático da paisagem, em referência à complexidade de sua representação, cujo caráter gasoso impede de mensurá-la ou dar-lhe contornos fixos, a nuvem já configurou tema de pesquisa de historiadores da arte, sendo pensada sobretudo a partir de imagens produzidas pelo renascimento e o barroco.

Entretanto, a tipologia científica das nuvens realiza-se apenas no século XIX, quando ganham a nomenclatura – um tanto poética – que conhecemos hoje: cumulus, cirrus e stratus. Tais termos dizem respeito à morfologia – montes, cachos (de cabelo) e camadas, respectivamente. Note-se como é também uma tentativa da ciência de aproximar essa massa informe de algo que conhecemos no mundo, das coisas que possuem delimitação mais definida.

Ao nos determos mais de perto nos Fronteiriços, descobrimos, para além das nuvens, restos de paisagens, partes da copa de árvores e, aqui e ali, a indicação de contornos de edifícios; a sugestão de um skyline. Embora a pintura à óleo seja feita após a realização das placas em cimento, ela parece ter sido revelada pelo descascamento das camadas superficiais dessas placas, como se as paisagens surgissem aos poucos das camadas mais interiores. A montagem dessas placas encostadas na parede, entre a parede e o chão, evoca um tratamento dado a objetos arqueológicos recém-descobertos que, de natureza ainda desconhecida, esperam para serem identificados.

Para Mesquita, a percepção mais comum de que haveria, no trabalho, um encontro entre objetos de natureza aparentemente oposta – a nuvem e o concreto –, não configura seu interesse. Segundo ele, interessa a pintura e sua relação com um outro elemento construtivo. Mas, ainda, o caráter de expansão e contração do cimento; a efemeridade eternizada pela pintura aparecem ali. O objeto que é também plano pictórico, afinal, indica como a fronteira diz respeito à ideia de limites, ao mesmo tempo, como ela é, da mesma maneira, o ponto de encontro entre partes, coisas, áreas. Fronteiriços parecem indicar que na situação urbana contemporânea é concebível o espaço e um tempo para a contemplação.

SOBRE A AUTORA

Ana Cândida de Avelar é crítica, curadora e professora de Teoria, Crítica e História da Arte na Universidade de Brasília (UnB). Foi membro do Comitê de Indicação do Prêmio PIPA 2017.

O convite para a publicação de textos está aberto aos membros dos Comitês de Indicação, Conselhos e Júris de Premiação do Prêmio PIPA de todas edições. Vale ressaltar que o texto não necessita ser exclusivo. Para a publicação, basta enviar um email para premiopipa@premiopipa.com.



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