Francisco Dalcol faz curadoria de “Fauna Guarani”, de Xadalu

(Porto Alegre, RS)

Francisco Dalcol, membro do Comitê de Indicação PIPA 2017 e 2018, é curador de “Fauna Guarani”, nova exposição de Xadalu para a galeria Bolsa de Arte, em Porto Alegre. O artista é reconhecido pela temática da arte urbana e pela questão indígena, que frequentemente são observadas em seus trabalhos. Desta vez, com pinturas, instalações, fotografias e cartazes, ele explora o campo de atuação para destacar uma incursão artística pela mitologia Mbyá-Guarani.

O artista esteve em imersão por alguns anos em comunidades indígenas latino-americanas e observou como os povos repassam ensinamentos e culturas próprias de geração em geração. Através dos relatos orais, nos rituais cotidianos e nas práticas diárias em aldeias, ele se concentrou em analisar a comunicação oral das comunidades indígenas e, também, a produção de artesanato, duas essenciais formas de expressão para esses povos. “Partindo dos significados e das formas escultóricas que os Mbyá-Guarani emprestam aos animais, Xadalu fornece um tratamento gráfico a esse imaginário e suas representações, consoante às linguagens de arte urbana que pratica por meio de seus cartazes e adesivos — a chamada sticker art”, em que transporta a cultura indígena para as cidades em ato de protesto contra a invisibilidade e falta de representação desses povos no meio urbano.

Confira o texto curatorial feito por Francisco Dalcol:

Somos ensinados a crer que aquilo que denominamos por espécie humana resulta do desenvolvimento de capacidades e habilidades que nos distinguiriam dos outros animais. Ou melhor, que nos colocariam como superiores. Ocorre que ao nos apartarmos dos demais animais acabamos por nos alçar à posição de dominadores; e assim também nos separamos de uma ordem coletiva da qual antes participávamos de modo mais integrado. Nada disso corresponde à compreensão de culturas ancestrais como a dos Mbyá-Guarani. Às suas sucessivas gerações — e apesar dos processos de colonização e das tentativas de aculturação —, continuam sendo transmitidos saberes milenares em que os seres dos reinos animal e vegetal participam igualmente da organização de uma totalidade coesa. Na cosmovisão Mbyá, bichos e plantas são considerados todos entes fundamentais da experiência existencial. Exercem um papel mágico-sobrenatural de implicações espirituais, e também um papel material-terreno relacionado à natureza e à sobrevivência. No saber indígena, os “seres da mata” integram e dinamizam uma trama de significados sociais e religiosos que transcendem o indivíduo, sua vida presente e a experiência imediata do agora. É exatamente algo desse caráter ritual, mediador e comunitário que encontramos já nas primeiras manifestações artísticas das sociedades primitivas. Uma função que a arte ocidental perderia ou deixaria de exercer tal qual, a partir
da progressiva destituição do sentido integral da harmonia primeva que conectava homem e natureza.
***
Com o projeto “Fauna guarani”, que já vem sendo apresentado nas ruas e agora ganha destaque nesta exposição individual na galeria Bolsa de Arte, Xadalu se lança a uma incursão artística pela mitologia Mbyá-Guarani, aprofundando uma relação estabelecida há mais de década com a cultura e as comunidades indígenas. O saber desses povos sobrevive nos relatos orais, nos rituais cotidianos e nas práticas diárias em aldeias no Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, sendo algumas delas o destino para onde Xadalu se dirige em suas temporadas de imersão, no que seriam as suas residências artísticas. Um dos modos com que são repassados aos mais jovens os ensinamentos Mbyá quanto à importância dos animais e da natureza, bem como de seu conhecimento e funcionamento, está no artesanato. Mais especificamente na realização das esculturas de animais de madeira em miniatura, trabalhadas a lâminas de ferro e instrumentos em brasa. São essas as peças que costumam levar das aldeias à cidade para expor à venda nas calçadas, compondo uma corriqueira — e renegada — imagem da segregação social. Partindo dos significados e das formas escultóricas que os Mbyá-Guarani emprestam aos animais, Xadalu fornece um tratamento gráfico a esse imaginário e suas representações, consoante às linguagens de arte urbana que pratica por meio de seus cartazes e adesivos — a chamada sticker art. Ao operar o deslocamento para as ruas da simbologia dos
“seres da mata” segundo a mitologia indígena, Xadalu fabula o que seria a disparada desses animais rumo à invasão da cidade. Sua motivação é de protesto, como se os bichos fossem os emissários de um grito de alerta sobre a invisibilidade das culturas marginalizadas e a luta pelos direitos das comunidades periféricas. Do ponto de vista visual e mesmo formal, Xadalu explora a ampliação da escala real dos animais, a potência das cores vibrantes que elege e a força dos largos contornos que imprime. E assim faz com que suas figuras da “Fauna guarani” pareçam efetivamente gritar em uma explosão visual quando coladas no espaço urbano, particularizando-se frente à estridência da profusão de imagens que concorrem por espaço e atenção no entorno das ruas. Contudo, são operações não apenas visuais, mas também conceituais, uma vez que não se desvinculam dos processos que as originam e engendram.
***
De modo a situar a produção de Xadalu, procurando apontar inter-relações e desdobramentos na sua pesquisa das convergências entre arte urbana e cultura indígena, a exposição apresenta também outros trabalhos, entre eles alguns novos ou mesmo realizados em tempos recentes. Um exemplo é a série “Xe Ramôi”, que já figura em colagens nas ruas de Porto Alegre. São grandes pôsteres que chamam atenção pelo poder de impacto da frase “Resistência Mbyá-Guarani”, estampada junto às já expressivas imagens de lideranças indígenas registradas em fotografia, e cujos retratos são acompanhados de padrões gráficos relacionados a significados da cultura indígena. Em outras das obras apresentadas na exposição, é possível perceber os modos com que Xadalu transita entre diferentes técnicas e linguagens. Além de privilegiar os processos gráficos de impressão como a serigrafia e de se valer da fotografia para a obtenção de imagens, a pesquisa das soluções visuais é ainda acompanhada da realização de objetos tridimensionais e de trabalhos que se inserem no campo expandido da pintura. O que leva a observar que sua produção é perpassada pelos diálogos entre o grafismo, o pictórico, a colagem, a apropriação e a imagem fotográfica.
***
O caráter contemporâneo da arte urbana de Xadalu vem dessa mescla de referências, empregadas em grande parte de modo intuitivo e experimental. De origem humilde e morador da periferia, o artista teve formação autodidata. Encontrou seu caminho artístico após a oportunidade de um emprego em uma empresa de serigrafia como alternativa ao trabalho de gari. Ao descobrir as potencialidades criativas dos meios gráficos, logo passou a atuar e se manifestar como artista visual urbano. Sensibilizado pela condição dos grupos marginalizados, envolveu-se com as causas indígenas ainda no início da descoberta da vontade artística, expressando suas questões sob a forma de um ativismo artístico já em seus primeiros trabalhos. Portanto, desde criou o personagem Xadalu em 2004 e o tomou para si como nome artístico, o
aspecto visual de sua produção não pode ser desassociado das questões sociais e políticas que o mobilizam em seu trabalho. Gesto fundador de sua obra, a figura do indiozinho que começou a ser colada em adesivos logo se multiplicou como uma espécie de ação viral pelas ruas de Porto Alegre, sendo hoje vista em dezenas de cidades do mundo por conta da rede estabelecida com outros artistas que compartilham seus stickers pelo correio. Daí não ser exagero poder afirmar que a circulação do personagem Xadalu ganhou uma escala internacional, também amplificando a chance de alcance da denúncia que o artista procura veicular por meio de seus trabalhos sobre o apagamento das culturas indígenas.
***
Importante assinalar que o processo de produção de Xadalu nas aldeias se dá em colaboração com os moradores, para depois apresentar os trabalhos nas ruas da cidade como resultado de ações de intervenção urbana. O que também envolve uma ética quanto ao compromisso de responsabilidade de sempre oferecer um retorno e contribuição às comunidades, em acordo com as mesmas. Se é nas ruas e nas aldeias que Xadalu aguça a consciência de seu olhar e encontra os elementos de suas manifestações visuais, é nos trânsitos entre esses territórios materiais e simbólicos que sua produção encontra a força expressiva e o poder ressonante que as imagens podem oferecer como modo de desencadear reflexões e sensibilizar os imaginários.

Francisco Dalcol
Curador da exposição “Fauna guarani”, de Xadalu, galeria Bolsa de Arte.

Fauna guarani, individual de Xadalu
Curadoria de Francisco Dalcol
Em cartaz de 13 de novembro a 22 de dezembro

Galeria Bolsa de Arte 
Rua Visconde do Rio Branco, 365 – Bairro Floresta, Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Horário de funcionamento: seg – sex, das 10h às 19h; sab, das 10h às 13h30



O PIPA respeita a liberdade de expressão e adverte que algumas imagens de trabalhos publicadas nesse site podem ser consideradas inadequadas para menores de 18 anos. Copyright © Instituto PIPA