David Almeida, "Seguro", 2018, Óleo e cera sobre tela, 160x140cm

David Almeida abre primeira individual no Rio, “Encalço”

(Rio de Janeiro, RJ)

David Almeida, indicado ao Prêmio PIPA 2018, expõe pela primeira vez no Rio, com a individual “Encalço”, na Mul.ti.plo Espaço Arte. Na mostra, Almeida aborda a própria interação com o espaço das cidades e da paisagem natural que, segundo ele, demonstram uma “relação fugidia”:

“Em determinado momento do meu percurso, acontece um fato invisível, um gatilho desencadeado nessas cenas ou nesses objetos encontrados, que os transforma em imagens para mim. No momento do encontro com essas imagens porvir, acontece uma suspensão da história, um estanque de qualquer narrativa, onde eu me vejo de frente a uma espécie de mistério, de fantasma. Me dou conta de que não sei nada sobre aquele lugar ou coisa e de que o não saber é o que importa. Nesse breve momento de dúvida, é que se revela a imagem. É imagem, é espaço, mas também não é nada disso, pois é também superfície, cor, matéria, tempo, linguagem”.

Assim, com desenhos, objetos, fotografias, instalações, performance e, sobretudo, pintura (dez telas de médio e grande formato, que variam entre 25x30cm a 180×240 cm inéditas para a exposição), Almeida representa lugares de sua memória, mas também vazios e ausências que o marcaram.

Confira o texto curatorial de Ana Roman escrito para a exposição:

O termo “paradeiro” traz, em si mesmo, uma certa noção de movimento: designa um lugar onde uma pessoa ou coisa está, vai parar ou permanece. Remete, ao mesmo tempo, ao ponto de partida e de chegada de algo; a um fim ou a uma situação transitória. Tal ambiguidade e indefinição realizam-se na série de obras reunidas na mostra individual de David Almeida. O artista ocupa-se da representação de fragmentos do espaço sem localização ou marcos geográficos específicos: não pertencem ao urbano ou ao rural. Esses fragmentos operam como não-lugares. Apesar de sua atualidade material, eles não apresentam singularidades que os tornem únicos. E, como consequência disso, tornam-se estranhamente familiares a todos. Há, nos trabalhos, uma certa narrativa sobre o comum: apesar de compartilhados no imaginário de todos, esses não-lugares existem somente enquanto lugares-comuns, cujo vazio de significado realiza-se em e por sua generalidade. Acidentes geográficos, buracos e refúgios improvisados criam espécies de pequenas paisagens e diluem o horizonte do espectador diante da pintura. Como em Teodolitos, série anterior realizada pelo artista, a pesquisa orienta-se para a apreensão e representação do espaço existente entre as coisas no mundo. Nesses trabalhos anteriores, a paisagem era subitamente interrompida por objetos e fendas intencionalmente marcadas. Já nos trabalhos reunidos na mostra, David Almeida parece explorar a fratura em si, aprofundando-se em uma busca pela indeterminação dos espaços e dos referentes imagéticos que permeiam nossa imaginação geográfica. Os espaços criados, marcados sempre pela sombra ou buraco, são invariavelmente ausências, que, ao mesmo tempo, estão presentes enquanto pintura, como em Ravina e Barrafunda. Intitulados como fatos geográficos, nesses dois trabalhos, as camadas de tintas parecem se
comportar como horizontes subsuperficiais do solo – muitas vezes sem que haja uma transição abrupta dentro da paleta de cores. O artista suspende a escala real dos fenômenos representados, confundindo nossas referências acerca de certos fenômenos: em Estivemos aqui em algum lugar no tempo uma espécie de cânion é reduzido a escala fotográfica, e sua dimensão real assume caráter secundário diante da concretude e matéria contida na pintura. Os fragmentos do espaço, porém, ao se tornarem objetos centrais da pintura, têm condição de não-lugar suspensos. A dialética entre não-lugar e lugar realiza-se nos trabalhos presentes na mostra: há uma dinâmica específica proposta pelo artista, na qual o não-lugar, representado, adquire status de lugar pela operação artística. Como paradeiro, a pintura é ponto de partida e de cessação dessa dinâmica e, na mostra, Oferenda funciona como uma espécie de índice para tal operação. Diferente de todos os outros, o trabalho remete diretamente a um fragmento urbano e, como obra, ele opera na reconstrução de dada espacialidade. Tal operação realiza-se em uma espécie de concessão do estatuto de lugar a fragmentos espaciais quase indiferenciados. No limite, diante das imagens evocadas e contidas nos trabalhos, a operação da pintura possibilita o surgimento de narrativas polissêmicas sobre esses não-lugares. Constrói-se, desta forma, um possível enunciado sobre o fim desses fragmentos espaciais, no qual se inscreve seu próprio recomeço: nos abrigos improvisados – com caráter quase apocalíptico – nas ravinas, buracos e cenas de solo remexido desmancham-se certezas sobre o futuro.

“Encalço”, individual de David Almeida
Em cartaz de 22 de novembro a 19 de janeiro de 2019

Mul.ti.plo Espaço Arte
Rua Dias Ferreira 417/206 – Leblon, Rio de Janeiro, RJ
Horário de funcionamento: seg-sex, das 10h às 18h30; sab, das 10h às 14h



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