“Sofia Borges: curadoria como poética ou artista-curadora?”, leia o texto crítico de Luiz Camillo Osorio

Neste texto exclusivo, o curador do Instituto PIPA se debruça sobre o projeto curatorial de Sofia Borges para a 33 Bienal de São Paulo. “O que me interessou neste caso específico da Sofia Borges foi como ela se apropriou das outras obras, as pôs em movimento através da sua própria poética e construiu uma experiência visual e espacial de indiscutível intensidade plástica”, comenta.  Aqui, Camillo reflete sobre o lugar da curadoria e as possibilidades de criação poética e interferência propositiva do ‘artista-curador’ na montagem de uma exposição e de sua narrativa.

Sofia Borges: curadoria como poética ou artista-curadora?

 

Este não é um texto crítico sobre a Bienal de São Paulo. Quero apenas tratar do projeto curatorial de Sofia Borges – A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um – realizado a partir do convite do curador Gabriel Pérez-Barreiro para esta edição da bienal. Como todos já sabem, uma das novidades foi ele ter chamado sete artistas e pedido a eles que realizassem curadorias. A ideia é interessante e já havia sido uma das propostas do mesmo curador quando realizou a Bienal do Mercosul. Há vários tipos de artista-curador. O que me interessou neste caso específico da Sofia Borges foi como ela se apropriou das outras obras, as pôs em movimento através da sua própria poética e construiu uma experiência visual e espacial de indiscutível intensidade plástica. Intensidade e desconforto.

O que há de comum nas obras de Sarah Lucas, Antonio Malta Campos e Adelina Gomes? Ou entre as de Sara Ramos, Sônia Catarina e Leda Catunda? O gesto curatorial de Sofia Borges, sua deliberada aproximação de coisas que pareciam distantes. Gesto arriscado que incluía a anulação da arquitetura de Niemeyer e a introdução de uma cenografia abafada e labiríntica. Digo cenografia e não museografia pois o gesto curatorial foi se montando a partir de pequenas cenas, como se fossem esquetes plástico-poéticas que vão se desenrolando ao longo de nossa deambulação. Há uma provocação ao bom gosto na mesma medida em que há uma clara aposta no que escapa ao significado. Tunga, um artista central nesta exposição, dizia que temos que estar sempre à altura dos nossos sonhos, buscando responder àquilo que se apresenta inesperadamente.

A curadoria sempre esteve confrontada entre assumir-se como criação ou retirar-se para dar a ver as obras. Esta me parece uma falsa disjuntiva. Cabe pensar o quanto neste dar a ver é também criação, para isso há que se assumir que não há um único modo de ver as obras e que elas sempre estão sendo atualizadas por inúmeras relações que se estabelecem nos momentos e contextos em que são vistas. Curadoria é, acima de tudo, montagem.

Gostaria de trazer aqui o filme “Adeus à linguagem” de Jean-Luc Godard. Não se trata de comparar, mas perceber procedimentos e inquietações similares. Logo no começo deste filme aparecem duas citações que me interessam usar aqui, a saber: “todos aqueles que não tem imaginação se refugiam na realidade” e “resta saber se o não-pensamento contamina o pensamento”. A realidade como refúgio e a imaginação como desvio. Mais que desvio, perturbação da ordem. Todos os artistas e obras levadas para dentro da exposição interessam à medida em que insinuam algum desacordo normativo – escapam à representação. A montagem é fundamental aqui para extrair da imagem qualquer subordinação à representação, ao referente e, por conseguinte, à identidade.

Explorar o esgotamento da linguagem pela linguagem, experimentar visualmente o que escapa ao significado visual, aproximar imagens desconexas, cores saturadas, experimentar o que há de indefinido entre o real e a ficção, a imagem e a coisa, nos trazendo para dentro da cena e empurrando a cena para o limite do (ir)reconhecível. Todos estes procedimentos explorados por Godard têm alguma reverberação nesta exposição de Sofia Borges. O que resta ser visto? O que ainda nos comove visualmente? Como a sensação escapa aos apelos exagerados do entretenimento e do espetáculo? Como fazer do mau gosto algo similar ao que Walter Benjamin chamava de barbárie positiva?

O não-pensamento que provoca o pensamento é o surpreendente que não pede para entrar em cena, incomoda, se aloja e mobiliza nossa atenção. As esculturas / instalações da fase final de Tunga, espalhadas em várias cenas da curadoria, com seus fragmentos de corpos, misturando materiais brutos e artificiais, cores desbotadas quase irreais, insinua algo estranho e familiar, monstruosidades tranquilas que se esparramam pelo chão sem se acomodarem. Fotografar as obras, detalhes delas e articulá-las entre si e pô-las junto aos originais, explicita o quanto separar as partes e o todo é irrelevante para o olhar, que ver é ir além do que sabemos reconhecer. Uma pincelada muitas vezes é suficiente para seduzir nosso olhar. Diria mesmo que trabalhar no campo da expressão é explorar o tempo todo este campo aberto pelo que escapa ao reconhecível, ao dizível, e amplia por dentro nossa pulsão significante.

Entramos no espaço desta exposição e somos tragados para dentro de um labirinto em que as imagens se deslocam entre o delírio e o assombroso, entre restos mitológicos, paredes brutas de concreto, cortinas brilhosas de hotéis decadentes ou salões de gafieira, pequenos fragmentos de textos, ora banais ora poéticos. Somos conduzidos por pequenos núcleos dramáticos ou o que prefiro chamar de cenas curatoriais. A arquitetura de Niemeyer, com sua amplidão e impetuosidade formal é apagada, isolada, desconstruída. No dia da abertura, as obras estavam espalhadas sem etiqueta, retirando o poder de identificação imediata, restando as mais conhecidas ao olhar especializado. Tendo em vista que a própria Sofia Borges fotografa detalhes de muitas destas obras e que as pinturas do museu do inconsciente deslocam os sentidos de autoria, parecia que havia aí um gesto deliberado de apropriação, uma recusa da autoria e afirmação da autoridade/assinatura curatorial.

Em se tratando de uma curadoria de artista, parecia um gesto provocador, mais uma “morte do autor” tendo em vista a explicitação da exposição como obra de arte. Em uma segunda visita, as etiquetas estavam já em seus lugares. Se por um lado, fez justiça às normas expositivas, por outro, acomodou a experimentação e a própria lógica de sua poética que desestabiliza as categorias da representação. Parecia-me mais radical o gesto de tornar as obras partes de um todo instalativo, de fazer das obras momentos de uma vontade de expressão que vai se deslocando de poética em poética, sem se deixar fixar a não ser no movimento inacabado do labirinto expositivo, em que estamos ora perdidos, ora surpresos, ora incomodados.

É claro que esta não é uma prática curatorial recorrente, não serve de modelo para ser reproduzido, mas na sua excepcionalidade artística nos faz pensar sobre sentidos menos assimilados de curadoria. Indica, acima de tudo, que há sempre na curadoria, na montagem de uma exposição, uma vontade de experiência mais que de narrativa, ao menos, que há alguma legitimidade em se pensar a curadoria como gesto poético.

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA, conselheiro e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015.



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