“Só mais uma brincadeira ou mais que isso? Banksy e a Sotheby’s”, leio o texto crítico de Luiz Camillo Osorio

Como impedir que a arte seja engolida e formatada pelo mercado de arte? Como se apropriar do mercado e não se deixar ser apropriado? Como provocá-lo? E como evitar que a própria provocação seja incorporada e gere ainda mais valor de mercado? É possível? No texto exclusivo escrito pelo curador do Instituto PIPA, Camillo discute a complexa relação entre arte e mercado. A partir da espécie de performance de trituração da obra “Girl with a ballon”, do Banksy, realizada no leilão da Sotheby’s, Camillo coloca perguntas sobre a capitalização da arte e reflete como o episódio “performático” de Banksy abala as noções de valor, objeto, status e mercado.

 

Só mais uma brincadeira ou mais que isso? Banksy e a Sotheby’s

 

Não esperem uma resposta a esta pergunta aqui. A relação entre arte e mercado é cheia de contradições. Não poderia ser de outra forma. Por um lado, é determinante para garantir às obras circulação, visibilidade e preço. Por outro, tende a ser impiedoso com o artista, especialmente quando o sucesso bate à porta, sugando e formatando processos e obras. Indiscutivelmente, grandes artistas são grandes quando sabem como lidar com o mercado, ou seja, quando não fazem o que o mercado quer, mas impõem ao mercado o que eles produzem. Isto não é trivial e desde Yves Klein, Joseph Bueys e, muito especialmente, Andy Warhol, apropriar-se do mercado, interferir nele e deslocá-lo constantemente, é parte de suas poéticas e do modo como interferem no circuito.

De uns tempos para cá esta relação com o mercado foi ficando mais e mais complexa. As feiras estão quase superando em relevância e publicidade as bienais – em crise grave de propósito e escala. Muitas galerias se assumem como centros culturais, realizando exposições históricas de artistas consagrados, coletivas com desenho curatorial independente, produzindo publicações volumosas, disseminando debates e viabilizando para o artista um circuito institucional, muitas vezes impossível sem esta mediação. Por fim, as casas de leilão conseguem nas vendas de obras contemporâneas seus preços mais astronômicos e disparam um desejo histérico por parte de colecionadores deslumbrados e bilionários.

Em 2008, no mesmo momento em que derretia o mercado financeiro global, Damien Hirst realizava um leilão de suas obras na Sotheby’s. Durando dois dias, ele vendeu 223 obras e arrecadou 200 milhões de dólares, resultado acima do previsto não obstante a falência generalizada. Atravessar galerias e ir direto para o mercado secundário de leilões foi um gesto inusitado. Diria mais, genial. Intervir no mercado desta forma e criar tamanho alvoroço não é pouca coisa. Ele não atravessou quaisquer galerias, mas Gagosian e White Cube, dois monstros. Acabou ficando na geladeira por alguns anos até voltar em grande pompa durante as olimpíadas de Londres com retrospectiva na Tate e exposição simultânea em todos os espaços da Gagosian espalhados pelo planeta.

Agora, o novo lance deste jogo agônico e apaixonado da arte contemporânea com o mercado, tem, de um lado, mais uma vez a Sotheby’s e, de outro, o polêmico artista, para dizer o mínimo, Banksy. Depois de ter uma pintura sua – Girl with a baloon – leiloada pelo preço recorde de 1,3 milhão de dólares, ele acionou um mecanismo triturador que dilacerou in loco a obra, realizando uma espécie de performance cinético-dadaísta. Esta engenhoca estava camuflada na grande e pomposa moldura. Deveria ser acionada caso a obra fosse algum dia leiloada.

Algumas perguntas surgiram imediatamente na imprensa especializada: estava a casa de leilão sabendo da “performance”? Sendo a pintura datada de 2006, quanto tempo este mecanismo ficou camuflado? Quem foi o proprietário que a colocou à venda? Por que ela estava exposta no salão principal (coisa inusual para o tamanho desta obra específica)? Após o episódio, restam ainda as questões: O que fazer para que se mantenha a credibilidade da Sotheby’s e das obras do artista? Seria a credibilidade algo ainda relevante para o mercado de arte?

Todas estas perguntas são pertinentes, mas patinam quando assumem parâmetros de avaliação que tomam as obras, o mercado e os preços da arte como entidades que respeitam uma racionalidade dada. A relevância de Banksy está diretamente relacionada com sua capacidade de fazer o inimaginável, provocar situações de atrito, desorientar os mecanismos de valoração, desestabilizar expectativas e normas. Colocar uma boneca inflável vestida como um prisioneiro de Guantánamo na Disneyworld, grafitar o avião presidencial americano e o muro da segregação em território palestino, introduzir objetos fakes em exposições na Tate e no Louvre, tudo isso parecia impossível até ser feito. Antes e acima de tudo, o mais inacreditável, no caso deste artista específico, é a façanha de sua identidade continuar desconhecida em um mundo de celebridades.

Todas as suas ações são de enorme reverberação pública. Ele produz pequenas explosões e sai de fininho. É um artista de rua desejado pelos colecionadores e, portanto, pelas casas de leilão. Ele desmonta este desejo e o torna ainda maior. Depois de triturar Girl with a baloon ele possivelmente tornou esta obra ainda mais valiosa e histórica. A colecionadora já garantiu que quer ficar com a peça e que vai rebatizá-la para lhe dar o devido destaque histórico. Será que estavam todos acertados? Isso importa pouco, nunca teremos certeza, afinal o que mais importa no caso é que tudo que envolve Banksy tem estridência e isso tem valor de mercado.

Usar a moldura como elemento performático não deixa também de ter a sua graça. Durante séculos era o que demarcava o campo simbólico da representação. Foi sendo incorporada pela pintura moderna até se tornar elemento plástico de integração com o espaço exterior. A quebra da moldura e do pedestal é determinante para uma arte que se projeta na realidade e interfere na visualidade do mundo. O museu foi aos poucos incorporando a arte moderna e o cubo branco tornou-se a nova moldura separando arte e mundo. O grafite nasceu na rua, sempre foi ruído. Mas o mercado domestica o ruído, assim como incorporou o jeans rasgado dos punks.

Quando uma casa de leilão como a Sotheby’s abre as portas para um artista de rua, em mais um movimento iconoclasta ele incorpora a moldura e seu mecanismo de destruição como agente poético. A arte não sabe mais como respirar livremente sem ter logo um preço querendo ditar o seu valor. O jeito é brincar com o preço da arte, provocá-lo a ser o que sempre foi – um valor abstrato definido por um desejo de consumo e nenhuma utilidade concreta. Como disse certa vez Richard Serra “o único caminho para a arte pública existir é ela redefinir seu contexto”. Cada novo lance poético de Banksy não deixa de passar por aí, sendo o mercado elemento determinante do contexto público da arte contemporânea.

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA, conselheiro e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015.



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