Conversa com Romy Pocztaruk, por Luiz Camillo Osorio

Do flerte ao namoro com a fotografia: Romy Pocztaruk, finalista da nona edição do Prêmio PIPA e indicada pela terceira vez este ano, é a terceira entrevistada da série de conversas exclusivas com o curador do Instituto PIPA Luiz Camillo Osorio e fala aqui sobre sua relação com a fotografia e o lugar dessa mídia na sua produção. Apesar da presença constante da fotografia nos seus trabalhos, a artista não se identifica estritamente como uma fotógrafa: a fotografia é, para ela, “apenas uma maneira que encontrei nos últimos anos de dar forma às minhas ideias”. Seu processo criativo é movido por um extenso processo de pesquisa que antecede a concepção de seus projetos. Articulando campos como os da arte, ciência, publicidade e comunicação, a matéria-prima de Romy Pocztaruk está, na verdade, nas ideias que nascem do processo de exploração e investigação de um assunto. Essas ideias ganham corpo – ou não – em meios e técnicas diversas, possibilitando a experimentação de linguagens, ainda que a artista reconheça na fotografia um dos suportes que mais permeia seus trabalhos.

 

CONVERSA COM ROMY POCZTARUK, POR LUIZ CAMILLO OSORIO

 

Romy, como começou sua trajetória na fotografia? Sei que você fez um mestrado em Poéticas Visuais na UFRGS, mas sua relação com a fotografia deve ser anterior, não? Como foi sua experiência na universidade?

Na universidade eu flertava bastante com a fotografia, mas ainda estava experimentando várias coisas. A formação no Instituto de Artes na época era um passeio por várias disciplinas e no final tínhamos que escolher uma habilitação específica. Me formei em escultura, mas pedi o reingresso para fotografia e acabei entrando no mestrado e não terminando a habilitação em fotografia. Foi nessa época, depois de terminar a graduação que comecei a me interessar mais por fotografia. Usava a fotografia para documentar diversas ações e performances que fazia na rua. Aos poucos fui vendo que o flerte era namoro e a fotografia apareceu de outra forma no meu trabalho. Acho que muitos dos meus trabalhos acabam usando a fotografia, mas vejo que é apenas uma maneira que encontrei nos últimos anos de dar forma às minhas ideias e sigo experimentando outros suportes e linguagens.

Seus projetos sempre começam com alguma pesquisa, articulando campos que pouco se comunicam, como os da arte, da ciência, da publicidade, da indústria, tudo sempre calibrado com uma preocupação política em mostrar o que não se vê. Fale um pouco deste processo de trabalho, de como nascem seus “objetos de pesquisa” e como eles se desenvolvem em trabalhos de arte.

É um processo que sempre tem surpresas, porque cada trabalho tem uma motivação específica que se relaciona com interesses ou situações que acontecem na minha vida. Quando morei em Berlim, por exemplo, estava acompanhando um amigo num trabalho e por acaso acabamos visitando o Spreepark para a pesquisa que ele estava desenvolvendo. Acabei voltando lá para filmar um super 8, porque o lugar é fantástico e tem um background histórico importante para a cidade, pois era o único parque de diversões da Alemanha Oriental. Já o projeto Crossing Islands, que desenvolvi em Nova York, para a Bolsa Iberê Camargo, foi sobre uma ilha situada no East River, South Bronx. A ilha foi habitada em 1885 com a construção do Riverside Hospital de Blackwell’s, um hospital que tratava e isolava pacientes com varíola. Descobri a ilha pesquisando na Internet, mas levou 2 meses para conseguir ir até lá, o trabalho acontece nesse momento. Já Fordlândia, uma das cidades que fotografei no meu percurso pela transamazônica nem estava no meu roteiro inicial. Mas acabei indo para e lá e ficando alguns dias, tive que mudar todo roteiro da viagem porque não conseguia ir embora de Fordlândia. Cada trabalho tem um processo bem particular e que abre margem para acidentes e desvios. Geralmente meu planejamento e pesquisa inicial mudam ao longo do processo.

Um outro aspecto que me parece importante discutir é o das negociações inerentes no interior do processo de trabalho, algo que implica sempre uma vivência e uma interlocução interna no meio deste outro campo – seja a transamazônica, seja a usina de angra, sejam as cidades que sediaram alguma olimpíada. Como isso se impregna no trabalho e nas imagens?

Essas vivências são parte do trabalho, e também a minha motivação inicial quando inicio qualquer pesquisa. É como num processo investigativo ou até exploratório. Estimula a minha vontade de produzir ter que articular negociações durante o trabalho porque nunca tenho certeza do que vai acontecer. Seja em uma viagem como a da transamazônica, seja em um trabalho como o da energia nuclear que precisei de uma autorização especial para entrar nas usinas de Angra I e II – partindo dessa experiência acabei chegando nos arquivos da Comissão de Energia Nuclear e entrevistando engenheiros e cientistas. A primeira parte do trabalho acontece nesse campo imprevisível, partindo da negociação com pessoas, agencias, empresas, governo. Nessas negociações sempre surgem imprevistos e o trabalho acaba tomando rumos que não estavam delineados. Gosto de trabalhar assim, sem um plano pré-definido, deixando as situações e a intuição levarem.

Já houve pesquisa de trabalho que não resultou em trabalho? Como você percebe o fracasso, em que etapa isso se evidencia? Ou sempre há um jeito de transformar a coisa falhada e desdobrar um trabalho?

A maioria das pesquisas não resulta em trabalho, isso é interessante porque ficam ideias/projetos na gaveta que em algum momento podem virar trabalho ou não. É como um arquivo que espero o momento para abrir.

Você fez uma residência na Alemanha. Há alguma influência da arte alemã, mais especificamente da escola de fotografia alemã, em seu trabalho? Quais artistas te interessam mais hoje?

Fui para Berlim fazer uma residência de 2 meses e acabei ficando 8 meses. Foi um período importante na minha formação pois várias questões que eu tinha interesse em pesquisar estavam vivas na cidade como ruina. Produzi alguns trabalhos em lugares abandonados na cidade que hoje são pontos turísticos. Me pergunto, como e porque isso acontece? Acho que uma parte da minha pesquisa pode estar tentando responder isso, de uma maneira bem pessoal, claro, mas contribuindo para uma discussão importante na atualidade sobre as ruinas da história. Com certeza tem bastante influência da fotografia alemã no meu trabalho, principalmente da escola de Düsseldorf. Mas acho que hoje minhas influências vêm mais do cinema, design gráfico e literatura.

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA, conselheiro e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015.



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