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Milton Machado responde à pesquisa de Vagner Godói sobre arte e universidade

Há algumas semanas, o curador do Instituto PIPA, Luiz Camillo Osorio, investigou as relações entre arte e ensino universitário em um texto crítico exclusivo para o site do Prêmio, “Artista e universidade”. Buscando ampliar o debate iniciado pela coluna, publicamos aqui uma entrevista de Vagner Godói, doutorando em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo (USP) e artista, pesquisador e designer independente, com o também artista, pesquisador e professor Milton Machado. O questionário foi enviado a diversos artistas-pesquisadores brasileiros, e pedia que eles comentassem quinze afirmações que problematizam os mestrados e doutorados no campo das artes. Leia abaixo as respostas de Milton à pesquisa.

Milton Machado sobre a pesquisa do artista na universidade

Vagner Godói (perguntas) e Milton Machado (respostas)

A partir dos anos 2000, intensificam-se mundialmente os debates sobre as relações da arte com a universidade, a pesquisa, a educação, o pensamento, a teoria, e outros campos do conhecimento. Um dos ângulos desse fenômeno multifacetado pode ser resumido com a palavra-chave “pesquisa artística”.

PARTE 1) Averiguação sobre a relação entre produção artística e produção de texto nas pesquisas artísticas desenvolvidas no programa de pós-graduação que você atua.

1 – Não são aceitas pesquisas ou defesas de produções artísticas (exposições, obras de arte, criações, trajetórias, projetos artísticos etc.)

Pesquisa é produção, trabalho em progresso; defesa é finalização e, na melhor das hipóteses, provisória, parcial. A pesquisa não termina com a defesa, tampouco a trajetória profissional de um artista. Na linha em que atuo (Linguagens Visuais, PPGAV-EBA-UFRJ), cada orientador decide como e quais pesquisas orientar. Pessoalmente, evito orientar pesquisas com foco principal no trabalho de produção de objetos de autoria do candidato, embora tal produção deva fazer parte da investigação. Obras, projetos etc. são examinados e discutidos ao longo de todo o curso, de mestrado e doutorado; por exemplo, nos Seminários de Pesquisa em Andamento, que coordenei por cerca de 14 anos, nos quais o candidato submete seu trabalho – de produção de objetos e de textos, e com igual peso – ao coletivo.

2 – Privilegia-se o texto escrito (documentação, reflexão escrita). A produção artística, se fizer parte da pesquisa, tem importância menor.

A tese ou dissertação é complementada pelo trabalho produzido em ateliê, em geral com uma exposição no âmbito do curso, ou externo. Na defesa de viva-voz, a banca costuma examinar com atenção especial o texto escrito, já que se trata de tese ou dissertação, com exploração, pelo candidato, dos devidos marcos teóricos.

Não se trata de avaliar a “qualidade” do “trabalho artístico” do candidato. Não creio que um programa de pós-graduação em arte deva pretender “qualificar” esta ou aquela produção de artistas pesquisadores, já que se trata de um programa acadêmico, cujas avaliações são de outra natureza. Cursos de mestrado ou doutorado não são lugares para se avaliar produções artísticas visando certificados de conclusão ou diplomas. Em um ambiente de pesquisa em arte, o que se procura é a produção de discursos poéticos, seja por meio de textos ou trabalhos de estúdio. Como essa prática é coletiva e como acontece em um fórum, pode-se dizer que se trata de uma política.

3 – Os métodos da pesquisa artística/em arte são próximos ou semelhantes aos utilizados pela História da Arte ou por outras disciplinas que fazem leitura da obra de arte, como Filosofia, Sociologia, Estudos Culturais etc.

A pesquisa em arte implica a elaboração de métodos particulares, próprios à natureza de cada trabalho. Como não existe (não mais), a meu ver, o que se poderia chamar de uma “natureza da arte” (ou uma sua ontologia, já que não existe nada que seja “próprio” da arte, com exclusividade), cada trabalho (significativo) é um propositor de metodologias. A pesquisa em arte – embora isso possa se aplicar a outros campos – demanda uma certa plasticidade: uma metodologia flexível, macia, assistemática, adaptativa, que admita e encoraje a incorporação de quaisquer disciplinas. E de indisciplinas, daquelas que produzem sombras, monstros, máscaras, passos em falso, tropeços. A pesquisa em arte envolve processos de importação e exportação, muitas vezes escusos. Daí a importância dos contrabandos e da violação das fronteiras. As identidades da arte, assim como seus passaportes, são – por sua “imprópria natureza” – inevitavelmente forjadas, falsificadas.

4 – As pesquisas, dissertações e/ou teses giram em torno de conceitos ou reflexões sobre a trajetória do próprio artista.

Ver comentários acima, perguntas 1 e 2.

5 – As pesquisas, dissertações e/ou teses propõem conceitos ou reflexões para obras futuras.

Obras futuras, assim como obras passadas, se alimentam de obras futuras, e vice-versa. Las Meninas, de Velazquez (século XVII), se alimenta de Las Meninas, de Foucault (século XX), e vice-versa. Le Déjeuner sur l’Herbe, de Manet (século XVIII), se alimenta do Concerto Pastoral, de Giorgione (século XVI), e vice-versa. Uns conceituam os outros, outros refletem os uns. São, propriamente, obras, acionando o que chamo de “trabalho do trabalho”. Talvez isso se aplique a alguns casos de boas pesquisas acadêmicas, que, diferentemente dos vampiros, produzam reflexões no espelho.

6 – As pesquisas, dissertações e/ou teses não fazem diferenciação entre produção artística e produção teórica: ambas têm a mesma importância.

De quais pesquisas, dissertações e/ou teses estamos falando? Em qual instituição, em qual programa? PPGAV? Não há diferença – a não ser como modulações, como intervalos – entre produção artística e produção teórica. Ambas são Produção. Ambas são Trabalho.

O que mais importa é fazer com que a diferenciação produza a diferença, que é o que produz o movimento.

7 – As pesquisas resultam em produções artísticas, acompanhadas de documentação ou reflexão escrita, relacionadas com o processo de produção.

Não compreendi bem a questão. De qualquer modo, talvez já a tenha respondido.

8 – As pesquisas, dissertações e/ou teses são constituídas apenas de produção artística, apresentadas sem parte escrita ou documentação.

Idem.

9 – A pesquisa artística/em arte possui o status de obra de arte.

O que seria “status de obra de arte”? Também não estamos bem certos ainda sobre o que seria a “pesquisa artística”. Por isso este questionário. Arthur Danto arrisca afirmar, ou reivindicar, que seus livros de crítica de arte constituiriam obras de arte. Nós também: em tempos de Copa do Mundo, todo mundo se arvora em treinador.

10 – Existem outros tipos de pesquisa, dissertação e/ou tese de artista que não foram mencionados anteriormente.

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PARTE 2) Averiguação sobre o artista-pesquisador através dos circuitos

11 – Os artistas na universidade são mais artistas-professores do que artistas-pesquisadores.

O que mais importa é fazer com que a diferenciação produza a diferença, que é o que produz o movimento. “Basta que seja interessante” (Donald Judd). Não basta, mas já é um bom começo.

12 – A pesquisa do artista na universidade não precisa acontecer necessariamente em um programa de pós-graduação próprio para ele, podendo ocorrer em programas como História da Arte, Arquitetura, Comunicação, Estudos Culturais etc.

A universidade é uma espécie de site-specific. A pesquisa do artista não é uma produção site-specific. Site-specific é uma noção do século XX. Situação = sítio + ação. Todo e qualquer lugar pode ser um lugar para arte. Mesmo uma tese ou dissertação. Sim, as múltiplas e variadas trajetórias do artista contemporâneo (sítios) fazem com que ele pegue várias conduções (ações), muitas vezes embarcando em canoas que o levam a um lugar-nenhum. Tudo bem: mesmo uma ilha deserta pode ser um lugar para arte, desde que se pretenda, o quanto antes, habitá-la.

13 – A pesquisa artística/ em arte extravasa a universidade para outros circuitos (galerias de arte, museus, espaços e revistas independentes etc.).

O próprio termo universidade já denota um extravasamento.

14 – O artista-pesquisador não é necessariamente um pesquisador universitário.

Se o pesquisador universitário for um artista e se a universidade for uma necessidade…

15 – O artista-pesquisador sempre está interessado em outros campos do conhecimento.

Onde está Walli?

SOBRE OS AUTORES


Milton Machado é artista, professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAV/ EBA/ UFRJ).  Foi um dos artistas-pesquisadores brasileiros convidados a contribuir para a pesquisa de Vagner Godói, doutorando em Estética e História da Arte pela USP, assinalando ou comentando 15 afirmações que problematizam os mestrados e doutorados em artes, a produção artística e a produção teórica do artista-pesquisador – dentro e fora da universidade – e a conexão da arte com outras disciplinas.

Vagner Godói é pesquisador, artista e designer independente. Doutorando e mestre pelo Programa de Pós-graduação em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo (PGEHA/USP). É professor no curso de Design Gráfico do Istituto Europeo di Design (IED São Paulo).



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