Archives of American Art – A life class for adults at the Brooklyn Museum, 1935 Wikipedia Commons

“Artista e universidade” – Leia o texto crítico de Luiz Camillo Osorio

“Arte não se ensina” declara Luiz Camillo Osorio já na primeira frase do seu mais novo texto crítico para o site do Prêmio PIPA. Em meio ao boom de cursos de graduação e pós-graduação em artes nas universidades brasileiras e internacionais, então, como conciliar o rígido modelo acadêmico com o fazer artístico? Mais importante: como tornar essa convivência fértil? Partindo de uma experiência recente – o curador do Instituto PIPA participou há pouco tempo da reformulação da grade da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, em Portugal –, Camillo delineia alguns caminhos possíveis para a questão. Mas adverte: “A materialidade do mundo e a complexidade do real não são dóceis e requerem enfrentamento, atenção, impetuosidade e escuta”.

 

“Artista e universidade – anotações a partir da Escola das Artes do Porto”

Luiz Camillo Osorio

Arte não se ensina. É possível, todavia, discutir uma formação para os artistas. Escolas livres de arte funcionam por todos os lados e não são tema deste artigo. O meu ponto é o lugar do artista na universidade. Esta relação não é trivial. O modelo acadêmico tem uma estrutura rígida e forjada a partir de uma concepção de pesquisa e conhecimento em nada próxima aos processos artísticos. Não obstante, cada vez mais cursos de graduação e de pós-graduação em artes são criados em universidades brasileiras e internacionais. Some-se a isso que a própria universidade, desde pelo menos A Condição Pós-Moderna de Lyotard, vem sendo questionada em seu modelo pedagógico e suas expectativas em relação aos métodos de ensino. Nesse aspecto, esta aproximação pode ser interessante para os dois lados – tanto para a universidade como para a arte, os artistas e sua formação.

Estive recentemente em uma comissão para se discutir a reformulação da Escola das Artes na Universidade Católica do Porto. O crítico e professor Nuno Crespo, assim que assumiu a direção da Escola, decidiu repensá-la tendo em vista a realidade portuguesa, o mundo globalizado da arte e as especificidades e história da própria instituição. Além dos professores, alguns convidados externos foram chamados para formar um conselho consultivo, entre eles artistas, críticos, teóricos. A ideia de se debruçar sobre um projeto de escola para artistas em uma universidade me fascina. Pelo sentido da própria presença dos artistas na universidade e pelo modo como essa presença pode ser tanto fértil como estéril.

Uma observação do artista Julião Sarmento, um dos convidados, logo na primeira rodada de debates, ficou ecoando em mim: “é decisivo para o sucesso desta escola que ela evite formar artistas profissionais”. Importante explicar melhor o ponto. Obviamente uma escola de arte deve levar em consideração a inserção dos seus alunos-artistas no circuito, tanto institucional como comercial. Entretanto há formas e maneiras disso ocorrer sem o engessamento apontado pelo Julião. Nada contra a profissionalização, mas o que se percebe é que há uma tendência das escolas em formatarem os artistas homogeneizando um tipo de linguagem contemporânea, como também definindo um modelo de inserção pouco crítico ao modo como a arte circula e se legitima e um tanto acomodado diante das suas possibilidades experimentais.

Isto posto, como formar um artista (não profissional)? Como garantir este tempo na universidade como um período de aprendizado, troca e experimentação? Um ponto importante é definir o que se espera para o artista ao sair da universidade. É claro que a entrada do artista no circuito – institucional e comercial – é relevante. Entretanto, ela não é a razão de sua formação, mas um resultado decorrente de um trabalho potente que acontecerá a posteriori. Diferentemente de um engenheiro, que deve aprender um repertório técnico e conceitual comum a todos os profissionais de sua área, o artista deve desaprender, no sentido de não meramente repeti-las, as fórmulas de sucesso e construir seu próprio repertório. A técnica na arte, pelo menos desde Duchamp, não é um saber-fazer, mas uma operação que articula história, contexto e invenção, ou seja, vai se internalizando uma prática relacional que implica combinar o máximo de aprendizado histórico com a certeza de que isso não é suficiente, que saber não é fazer, que a coisa escapa.  

Desta forma, a relação se dá sempre entre artistas em uma escola de arte. Há uma relação horizontal entre professor e aluno, mas há a consciência de que nesta troca há caminhos já percorridos que ajudam no aprendizado. A construção do currículo é um desafio. Por um lado, há que se viabilizar o querer-fazer; por outro, há que se estimular um fazer pós-disciplinar. Por mais que se deva acolher artistas com interesses em várias linguagens, não vejo mais as escolas de arte com disciplinas específicas de pintura, gravura, modelo vivo etc. Um curso comum e continuado a cada semestre em que se discutem projetos e processos e um conjunto de cursos com professores e artistas específicos em que pode se trabalhar tanto geopolítica contemporânea como literatura, história da tecnologia, desenho ou dança. Cada professor-artista define seu curso (muito referendado pela sua própria prática) e os alunos-artistas se inscrevem nas disciplinas a partir dos professores, não pela necessidade curricular, que deve ser a mais flexível possível.

Um aspecto determinante é a percepção de que este espaço da escola de arte é um laboratório para se experimentar possibilidades poéticas independentemente de mercado e de viabilidade institucional, sabendo-se que a experimentação deve manter sempre contato com algum princípio de realidade. Esta autonomia da escola, esta indeterminação do risco inerente ao fazer da arte, deve acontecer junto ao acompanhamento contínuo de professores-artistas, curadores, críticos, teóricos. A relação tutorial entre estudante-artista e professor-artista deve atravessar os anos de formação, sendo mais importante este diálogo do que o cumprimento de um currículo fixo.   

O que se apresenta é uma formação não pautada na especialização. O artista é um generalista que está sempre fazendo perguntas. Faz isso, mobilizando materialidades e sensações que nos tiram do fluxo cotidiano em que todos os sentidos estão determinados pela lógica funcional. Funcionar, em grande medida, é não problematizar. A oposição entre especialista e generalista não deve ser tomada pela separação entre rigor e imprecisão, preocupação com o método e displicência conceitual, verdades demonstráveis e delírios subjetivos. O que interessa é definir dois tipos de rigor diferentes, no qual o compromisso da pesquisa é menos com a objetividade (definida pelos termos de uma coerência intrínseca a um jogo de linguagem determinado), mas sim com a problematização dos termos que regulam este jogo, abrindo novas possibilidades de argumentação, outras formas de percepção, outros critérios de avaliação. Há na produção artística um interesse em desfuncionalizar o instituído, para que outros funcionamentos sejam inventados. Neste aspecto o método do artista é o desvio. Coisa difícil de se ensinar.

Importante, todavia, não estabelecer nenhuma oposição entre arte e ciência. Há trocas enriquecedoras para ambas as metodologias. Neste aspecto, como colocado por Sabeth Buchmann da Academia de Viena, seria importante afirmar o compromisso pós-disciplinar, já implementado na Escola das Artes do Porto, pautado em grandes áreas de ensino e pesquisa como “Som e Imagem”, “Patrimônio”, “Indústrias Criativas”, atrelando investigação, projeto e participação social. Conseguir flexibilizar os currículos e a periodização dos cursos garantiria a presença de artistas, técnicos e pesquisadores com forte inserção profissional como professores residentes, em alguns casos visitantes, alargando o convívio extra-acadêmico e os processos de ensino e troca de experiência. Fazer da galeria da escola um espaço vivo e das mesas da cantina um lugar de convivência e debates. Um aspecto fundamental é a cumplicidade a ser desenvolvida entre os estudantes-artistas na busca compartilhada de inquietações e caminhos. Como arte é sempre manipulação de material sensível, o contato com outras sensibilidades é um alargamento de possibilidades e um aprendizado constante de limites. A materialidade do mundo e a complexidade do real não são dóceis e requerem enfrentamento, atenção, impetuosidade e escuta.   

Só o fato de se abrir ao debate visando reconfigurar seu projeto pedagógico, dá à Escola das Artes da Universidade Católica do Porto uma oxigenação promissora. Criar uma escola internacional, em parceria com outros departamentos da universidade e outras instituições artísticas e culturais da cidade, como Serralves e a Casa da Arquitetura, é um sinal de que a preocupação com a inserção dos artistas-estudantes no circuito deve se dar paralelamente ao esforço experimental. O momento de formação deve manter contato com espaços institucionais. O museu, assim como a universidade, está comprometido com a transmissão de conteúdos tradicionais que se sabem em crise profunda de identidade. Retomando o texto de Lyotard mencionado no início deste artigo, percebemos ali, isso há quarenta anos, um esforço inaugural em repensar o conhecimento e a universidade a partir de modelos instáveis que iriam forçar outros modos de aprendizado e transmissão dos saberes. Segundo ele, “a ciência é um modelo de sistema aberto no qual a pertinência do enunciado está em gerar ideias, isto é, outros enunciados e outras regras de jogo”, aproximando-se, assim, da errância metodológica das artes.

Ou seja, um departamento de arte deve ser um lugar em que se ensina a trair modelos, assumindo-se uma transmissão pelo desvio e pelo diálogo conflituoso entre gerações. A Escola das Artes da Universidade Católica do Porto promete ser um espaço bastante acolhedor para artistas em formação.

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015. Acesse a Coluna do Camillo e leia textos exclusivos do curador do Instituto PIPA.



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