Tiago Sant'Ana, "Refino #4"

Tiago Sant’Ana revisita relações de trabalho coloniais em individual

(Salvador, BA)

Tiago Sant’Ana inaugura nesta terça-feira, 27 de março, a primeira individual de sua carreira. Ocupando o Museu de Arte da Bahia (MAB) até o final de abril, “Casa de purgar” investiga as relações de trabalho dos engenhos coloniais de açúcar e seu impacto no Brasil atual através de trabalhos em performance, fotografia e vídeo.

– A casa de purgar era o lugar onde o açúcar passava pelo processo de refino e branqueamento. Essa imagem serve como um dado para a exposição, já que envolve relação de trabalho, separação e estratificação – explica o curador da mostra, Ayrson Heráclito. – Além disso, purgar, enquanto verbo e ação, significa purificar, limpar. Para a exposição, há um exercício de tornar límpidas essas memórias coloniais, agora sob uma perspectiva negra, identificando o quanto havia um processo perverso nas dinâmicas dos engenhos e ressaltar a continuidade disso.

A individual parte de um inventário elaborado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia (IPAC) e publicado 1975. De posse dele, Sant’Ana mapeou uma espécie de “rota do açúcar” na Bahia, selecionando engenhos e instalações coloniais localizados na região do Recôncavo. Os espaços – hoje descaracterizados em relação ao seu passado colonial em sua maioria – serviram de cenário para uma série de performances que chamam atenção para o trabalho negro e o espaço que ele ocupa, seja no século XIX, seja hoje.

– Em um dos trabalhos, eu realizo a ação de passar roupas continuamente nas construções de um antigo engenho. O ferro elétrico, os instrumento que utilizo, são atuais. Mas, a ação de estar naquele lugar desempenhando aquela atividade remete a um passado de escravismo colonial pautado no racismo e na exploração que permanecem ainda hoje – comenta o artista. – O açúcar moveu durante séculos a máquina colonial, sobretudo na Bahia, que se apoiava não somente na ideia do lucro e da propriedade, mas também da subjugação e escravização de povos negros.

Uma subjugação que, de acordo com Sant’Ana, é reproduzida ainda hoje. Para o artista, a sociedade contemporânea permanece vivendo sob uma égide colonial. Daí a importância desta sua primeira individual, no ano em que ele também é indicado pela primeira vez ao Prêmio PIPA:

– É muito complexo para um artista negro e que trabalha com performance realizar uma exposição individual. O sistema de arte ainda deixa em eclipse a produção de pessoas artistas afrobrasileiras, ainda mais se elas produzem fora do eixo Rio-São Paulo. Veja algumas das obras expostas em “Casa de purgar”:

“Casa de purgar”, individual de Tiago Sant’Ana
Curadoria de Ayrson Heráclito
Em cartaz de 28 de março a 28 de abril de 2018
Abertura: Terça-feira, 27 de março, às 19h

Museu de Arte da Bahia (MAB)
Av. Sete de Setembro, 2340 – Corredor da Vitória
Funcionamento: ter – sex, 13h às 19h; sáb, dom & feriados, 14h às 19h
T: (71) 3117-6902
museudeartedabahia@gmail.com
Gratuito



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