Vista da exposição "Projeto Cavalo: Quadrivium, 8 patas", 2017, Jacaranda

“Quatro em um: arte sem autoria” – Leia o texto crítico de Luiz Camillo Osorio

O que acontece quando quatro artistas (e amigos de longa data) decidem criar uma obra a oito mãos? O experimento, realizado por Adriano Motta, Cadu (vencedor do Prêmio PIPA 2013), Eduardo Berliner ( Finalista do Prêmio PIPA 2011) e Paulo Vivacqua para o “Projeto Cavalo” – em cartaz no Jacaranda, na Villa Aymoré, até 31 de janeiro – é objeto de mais um texto crítico de Luiz Camillo Osorio. O curador do Instituto PIPA parte da improvisação/experiência/instalação para repensar o mito do artista genial. Afinal, escreve, o “Projeto Cavalo” é “também uma lição de política – conviver com a diferença, com o incômodo, com o outro é fundamental para a criação”.

Quatro em um: arte sem autoria

Luiz Camillo Osorio

Projeto Cavalo: Quadrivium, 8 patas. O título é estranho. Várias indagações brotam daí. Como juntar cavalo e projeto? O que aproxima uma noção da pedagogia latina e 8 patas animalescas? Como cruzar o animal e o espiritual? Sabemos em seguida que é uma exposição com quatro artistas, mas não exatamente uma coletiva, com trabalhos reunidos de cada um deles. Na galeria externa, para ser fiel à exposição, há trabalhos individuais dos quatro. Mas já deixo claro que por melhor que sejam, por mais interessantes que se mostrem, não é isso que me move a escrever e que nos pega nesta exposição. É a reunião de trabalhos feitos em conjunto, dos artistas interferindo e atuando em parceria e compondo uma grande improvisação/experiência/instalação a 8 mãos. Ou patas, se quisermos ressaltar a pulsão física, orgânica, processual que aparece nesta reunião de obras.

O plural aqui – falar em obras – é uma questão a ser tratada. Por um lado, sim, vemos ali dentro do espaço Jacarandá, na Vila Aymoré, na Glória, uma série de trabalhos que podem ser vistos separadamente e nos interessar uns mais, outros menos. Por outro lado, é a agregação do conjunto, a contaminação de um trabalho pelos outros, do nosso olhar pelos nossos ouvidos, pelo movimento do nosso corpo ali dentro, pela aparente bagunça germinante, que acabamos percebendo que se trata de uma única obra, no singular, que fica se desdobrando em muitas. Essa articulação do um e do muitos remete ao modo pelo qual toda a coisa foi feita, em que um artista interfere e atua a partir da marca deixada pelo outro e é desse encadeamento de gestos inaugurais, sem sequenciamento causal determinado, que vão surgindo as obras e a obra-exposição.  A presença do som é um elemento importante para se entender isso. Muitas das “pinturas” trazem acopladas nelas uma sonoridade específica. Tendo inclusive nos fios elétricos uma dimensão gráfica importante. Entretanto, a orquestração de cada som-obra com a sonoridade que perpassa o ambiente é algo fundamental. A atmosfera que pulsa na exposição deve muito a esta sonorização que pulsa no ambiente.

A ideia por trás da exposição era simples: mostrar o resultado de alguns anos de troca entre quatro artistas amigos, dois deles dividindo ateliê: Adriano Motta, Cadu, Eduardo Berliner, Paulo Vivacqua. Individualmente diferentes em suas poéticas, carregam a cumplicidade da convivência amistosa e o desafio proposto de produzirem juntos algo inesperado. Um ponto em comum que serviu para disparar o processo de co-criação foi o desenho. Cada um tinha um bom pedaço de papel e começaram separadamente. Em seguida, pulavam no desenho do outro e a interferência tornou-se o fato principal. Não é fácil meter a mão em algo já começado por outro artista sem a massa do bolo desandar. Mais difícil ainda é deixar viva a pulsão de uma improvisação sem perda de uma realização formal e sem abrir mão da experiência do conjunto, que traz o olho e o corpo de quem entra na sala para dentro de uma expressividade compartilhada. Como escreveu Cadu em um pequeno texto sobre a exposição, “o resultado apresentado no Jacarandá é um híbrido de gabinete de curiosidades e jardim murado, em que objetos, sons, esculturas, desenhos, pinturas e vídeos, borram as fronteiras das linguagens, dos campos semânticos e refletem a gravidade de órbitas individuais e coletivas em curso de colisão”.

Desde a criação do Jacarandá, uma mistura de clube, ateliê, bar e laboratório, concebido e gerido por artistas, que a pergunta sobre sua especificidade está no ar. Como este lugar de reunião poderia se transformar em um ambiente expositivo e se diferenciar de outros espaços culturais? Como fazer desta procura por ambientes de convivência e troca amistosa um espaço também de exposição e de que modo estas exposições teriam ali uma situação privilegiada para acontecerem? Tive a sorte de ser o curador do MAM-RJ quando aconteceram conjuntamente as exposições do [Luiz] Zerbini, do Cabelo e do Raul [Mourão]. Abrindo juntas, conviveram em um mesmo andar. De algum modo ali deu-se uma experiência única, que reunia não só obras individuais, pinturas, esculturas, objetos etc, como também explorava ambientes indeterminados como o cafofo do Cabelo, que era um ambiente-performático, onde as coisas não paravam de acontecer, que misturava imagens, filmes, sons, objetos, desenhos. Da mesma forma, a grande mesa do Zerbini, instalada no centro do espaço monumental, trazia todo o repertório visual e plástico do ateliê e do imaginário pictórico do artista. O próprio desenho reticulado, formando uma grade geométrica onde se inseriam as várias coisas de seu gabinete de curiosidades, nos ajudava a perceber a poética do artista, o modo de construção de sua pintura, onde o excesso e a ordem se articulam.

Trago este exemplo, de artistas também ligados ao Jacarandá, pois o principal naquela exposição era a atmosfera de obras que não pareciam acabadas, não obstante muitas serem obras convencionais, em que o fazer-se da forma era uma experiência continuada e sempre no limite do transbordamento. O mesmo, como já dito acima, vemos aqui no Projeto Cavalo e é este tipo de experiência-experimentação, aqui mais radical, que me parece dar ao Jacarandá vitalidade, em que os artistas investem em projetos singulares que dificilmente teriam lugar institucional, ao menos com a liberdade e a improvisação – sem esquecer da qualidade – vistas aqui. Uma coisa que chama a atenção é o investimento de trabalho presente nesta exposição.

Há referências históricas óbvias para esse tipo de colaboração criativa. Os cadavre exquis surrealistas certamente aparecem aqui como exemplo. Os artistas faziam uma espécie de “telefone sem fio” em que rabiscos iniciais propostos por um artista iam se desdobrando num desenho depois de passar por algumas mãos diferentes. A ideia era de descondicionamento do gesto intencional, algo que Miró expressou de forma poética como a necessidade do pintor sempre precisar pintar com a mão esquerda, aquela não domesticada pelo virtuosismo. Na verdade, este jogo criativo buscava também desfazer a ideia de expressão individual, como se houvesse algo a ser espremido do interior do sujeito genial como o suco de uma laranja. Buscar vincular a criação ao não-saber, ao menos ir além do saber determinado pela consciência ou pela técnica. Fazer com que a criação se construa toda na superfície da matéria significante, enfrentando a resistência da inexpressão e do imprevisto.

Um outro exemplo, neste caso pela proximidade histórica uma espécie de diálogo pelo avesso, seria uma exposição realizada paralelamente à Bienal de Veneza deste ano. Refiro-me a “The Boat is Leaking. The Captain Lied” uma parceria multimídia feita também a partir de uma longa convivência entre o cineasta Alexander Kluge, o artista Thomas Demand, a cenógrafa Anna Viebrock e o curador Udo Kittelmann. Neste caso, a atmosfera cênica e fabulatória era mais sugestiva, mas sem a intensidade plástica e matéria do projeto cavalo. O que interessa nos dois casos é a interação criativa entre artistas e a vontade de produzir algo que desloque a ideia de autoria. Percebem-se registros de cada artista nos detalhes, mas o resultado do conjunto vai além, é outra coisa, é mais do que a soma das partes.

Eduardo Berliner na conversa realizada no Jacarandá durante a exposição sublinhou algumas vezes a dificuldade desafiadora desta experiência que era aceitar uma intervenção que o desagradasse. Ou seja, não ter borracha ou arrependimento reversível e se apropriar do “incômodo”, daquilo que a princípio pareceria um problema. Este desafio que fica patente em uma obra coletiva como essa, não deixa de ser importante para repensar a criação fora do legado da tábula rasa, da folha em branco, do criador original. Há sempre camadas de sentido prévias que se insinuam como materialidade inerente às obras. Criação é sempre apropriação e reinvenção. A expressão se dá fora do sujeito, no cruzamento de um contexto histórico, de referências culturais/institucionais, de afetos subjetivos e de um inominável desejo de forma. Como disse também Paulo Vivacqua, que aproprio aqui para falar desta expressividade que se dá fora do sujeito, ela se dá pelo gesto que é ao mesmo tempo gramática e acaso.

Para terminar, não poderia deixar de falar do vídeo principal que nos recebe na exposição. A produção audiovisual traz na origem a ideia de co-criação. A montagem, entretanto, é a alma da coisa. Juntar as partes, imagens, sons e textos e dar-lhes ritmo. Ele serve como a passagem nesta exposição do individual e do coletivo. Há a presença de cada um deles, na produção de imagens, na pontuação poética dos pequenos fragmentos de textos, nos sons, no fluxo narrativo. Mas tudo se organiza através da montagem, realizada pelo Adriano Motta, que é magnífica.

Da montagem do filme à montagem da exposição há este movimento em que muitos são um e que o um se desdobra em muitos. Esta experiência expositiva do Projeto Cavalo é, acima de tudo, também uma lição de política – conviver com a diferença, com o incômodo, com o outro é fundamental para a criação, para o mundo que se constitui pela criação.

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA, conselheiro e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015.



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