Carla Guagliardi, "Fuga II", 2017

“Ouvidos para o silêncio”: leia o texto crítico de Luisa Duarte sobre Carla Guagliardi

O ano de 2017 trouxe algumas mudanças importantes para o Prêmio PIPA. Uma das mais fundamentais delas foi a inclusão de uma série de textos críticos inéditos sobre os finalistas no catálogo da edição, disponível para download aqui no site. Cada um dos quatro artistas teve a oportunidade de convidar um crítico ou curador para escrever sobre a sua trajetória ou, especificamente, sobre o trabalho apresentado na Exposição dos Finalistas no MAM-Rio.

O primeiro texto da série a ser publicado no site do Prêmio PIPA é de autoria de Luisa Duarte, convidada por Carla Guagliardi. Com uma trajetória que data desde os anos 1990, a artista constrói, em suas próprias palavras, “variações sobre os mesmos temas”: mobilidade e imobilidade, peso e leveza, equilíbrio e vulnerabilidade. Para a crítica Luisa Duarte, assuntos urgentes em um “tempo intoxicado acúmulo de estímulos”: “Em meio à cacofonia generalizada na qual estamos imersos, a obra de Carla Guagliardi nos endereça a chance de um outro modo de estar no mundo, no qual o murmúrio possa ser melhor escutado do que o grito”, escreve.

Carla Guagliardi

Luisa Duarte

Nos trabalhos de Carla Guagliardi aquilo que não se vê é tão importante quanto o que se vê. Esse princípio revela-se, de saída, transgressor e dotado de um insuspeitado teor político. Vivemos em uma época marcada pelo excesso de imagens e pela disputa da economia da atenção. Somadas, essas características do nosso presente legam um olhar a um só tempo intoxicado pelo acúmulo de estímulos, ansioso e refratário a perceber as entrelinhas do visível.

Desde o início dos anos 1990, a artista vem construindo um programa poético coeso no qual comparece um mesmo corpo de questões, qual seja, aquele que evoca as relações entre mobilidade e imobilidade, cheio e vazio, peso e leveza, temporal e atemporal, equilíbrio e vulnerabilidade. Já em “Sem título (P.I.)” (1990) era possível notar essa forma de proceder, típica de sua obra, na qual os contrários são assimilados e convivem em simultaneidade. Testemunhamos ali uma série de tubos de polietileno encostados na parede, contendo água e uma vara de ferro no seu interior. A princípio o que vemos é um gesto minimalista, no qual a seriealidade de cunho totalizante norteia o trabalho. Mas será justamente no interior dessa visualidade asséptica que a artista irá instaurar o imprevisto, o orgânico. No limite, Guagliardi introduz o tempo como um elemento ativo na constituição do trabalho, este se torna um coautor da obra. O lento enferrujamento de cada tubo os diferenciam, os singularizam. O gesto serial que habitualmente abriga iguais em uma situação estática se vê contaminado por uma insuspeitada organicidade que insere a diferença, a mudança e o acaso. Essa ênfase dada ao processo, à duração, encontra-se, vinte e cinco anos depois, em “Opera II (ou Onde está o tempo que eu deixei nesse espaço?)” (2015). A instalação consiste em um bloco de gelo de 300 quilos, colocado sobre uma estrutura de madeira suspensa do teto pelos quatro cantos do espaço por cordas elásticas, mas pousada sobre o chão. À medida que o gelo derrete a estrutura é suspensa. Dar a “ver” o tempo, eis o que faz a artista na sua “Opera”. Tempo, aquilo sobre o qual Santo Agostinho certa vez afirmou: “Se ninguém me pergunta, eu o sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não o sei mais.”. O lento derretimento do gelo e a gradual subida da placa materializam essa categoria simultaneamente tão familiar e tão abstrata. Entre o estado sólido e o líquido se forma o trabalho de Guagliardi. Do mais pesado para o mais leve, do mais volumoso para o que, por fim, desaparece. Ocorre aí uma economia que privilegia o processo, a subtração e a lentidão, aspectos que caminham na direção contrária de uma experiência contemporânea marcada pela ânsia de resultado via adição e aceleração.

Essa espécie de paciência do olhar que a obra nos solicita encontra-se igualmente em “Fuga II” (2017), realizada por ocasião da mostra dos finalistas do Prêmio Pipa. Pensado especialmente para o espaço que lhe foi dado no MAM, o trabalho se constitui como uma espé- cie de desenho escultórico. Sete blocos maciços de cimento de diferentes tamanhos recebem tubos de cobre de variadas alturas, por entre estes passa uma única corda elástica vermelha tensionada. Esta, por sua vez, perpassa um tubo incrustado na parede e, assim como no seu percurso por dentro dos blocos, desaparece para a percepção visual. Estamos diante de uma linha contínua, embora descontínua aos nossos olhos. Assim, somos convidados a formar o todo mentalmente.

Tal como ocorre em inúmeras outras obras da artista, chama atenção em “Fuga II” a interdependência das partes que sublinham, a um só tempo, as suas particularidades. É preciso a opacidade, o peso e o volume dos blocos de cimento para que possamos enxergar melhor a textura metalizada dos tubos e, mais ainda, a leveza do finíssimo traço que cinde o ar desenhado pela corda. A singularidade de cada parte é potencializada não pelo isolamento, mas pela proximidade – lição que poderia ser extrapolada, mais uma vez, para a experiência do nosso presente, sinalizando o lugar do trabalho como aquele que caminha na contra mão de uma contemporaneidade na qual o convívio entre diferentes se constitui em um dos nossos maiores desafios.

Note-se que o visitante apressado tende a enxergar não uma única corda, mas sim trechos de diferentes cordas. Somente pacientemente percebemos o sentido de continuidade guardado nos fragmentos. O fato de ser uma linha contínua provoca a sensação de looping para o olhar que nos faz incorporar o ar como um elemento estrutural do trabalho. Através de procedimentos simples, a artista convoca tudo ao redor a fazer parte do obra: as paredes nas quais os fios estão tensionados, o chão e o “vazio” do ar cortado pelo fio vermelho. O que antes passaria desapercebido é como que iluminado pelos gestos sutis e agudos de Guagliardi.

O título “Fuga”, por sua vez, remete tanto ao sentido espacial da palavra, traço aleatório determinado por circunstâncias, como também aquele relacionado à música. No universo musical fuga é um estilo de composição no qual um tema é repetido por inúmeras vozes que entram sucessivamente de modo a se entrelaçarem. Ou seja, trata-se de uma sonoridade capaz de determinar o espaço da simultaneidade em diferentes momentos. Essa relação da obra da artista com o vocabulário sonoro não é nova, “Verso” (2007), “Partitura”(2012) e “Os Cantos do Canto”(2012) são exemplos desse diálogo. Tampouco é de agora a incorporação do ar não como representação do nada, mas como aquilo que existe e afeta.

Em “Verso” (2007), por exemplo, ocorre um equilíbrio delicado entre gravidade, geometria e ar. Pesadas tábuas de madeira encontram-se sutilmente equilibradas sobre balões de borracha. Com o passar do tempo o ar lentamente despendido dos balões modificará a geometria – que nasce segura, estável. A tensão entre aquilo que estamos vendo e aquilo que conseguimos supor que irá ocorrer é o intervalo no qual reside o sentido da obra. O ar e o tempo, ambos invisíveis, são instâncias ativas do trabalho. Interessa menos a resultante final do processo, o desinflar dos balões e a possível queda da escultura, do que a constante promessa de mudança contida na peça e a lembrança da dimensão inexorável do tempo. Já nas diferentes versões de “O Lugar do Ar” (a 1ª versão é de 1993) testemunhamos malhas de barras de ferro conectadas por elásticos que tecem uma relação sutil entre geometria, gravidade e ar. Estamos diante de obras ritmadas – mais uma vez o sentido musical – nas quais o peso das barras articuladas pela matéria maleá- vel produz transformações constantes, mesmo que quase imperceptíveis.

Percorrer o programa poético da artista significa encontrar um contraponto em relação a uma contemporaneidade marcada pelo regime do espetáculo e da hipervisibilidade. Em meio a tempos acelerados, nos quais parecemos viver em uma “frenética imobilidade”, nos quais o excesso de impulsos imagéticos provoca uma progressiva cegueira em cada um de nós, o trabalho de Guagliardi surge como uma experiência que nos recorda a importância da paciência do olhar, a importância da ênfase no processo, assim como a chance da convivência entre contrários. Sem se conformar como uma intenção deliberada, todas essas escolhas surgem dotadas de uma alta voltagem política de resistência. Em meio à cacofonia generalizada na qual estamos imersos, a obra de Carla Guagliardi, na sua convergência entre delicadeza e potência, nos endereça a chance de um outro modo de estar no mundo, no qual o murmúrio possa ser melhor escutado do que o grito, no qual lembremos que é ali, no espaço em branco entre um verso e outro de um poema, que encontra-se o sentido do que está sendo dito. Para isso, há que se ter ouvidos para o silêncio e olhos para o vazio.

SOBRE A AUTORA

Luisa Duarte é crítica de arte e curadora independente. Mestre em filosofia pela PUC-SP e doutoranda em Teoria da Arte pela UERJ(2017), foi por cinco anos membro do Conselho Consultivo do MAM-SP (2009-2013). Foi curadora do programa Rumos Artes Visuais, Instituto Itaú Cultural (2005/ 2006).



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