Antonio Obá, "Variações especulares – Narciso", da série "Ambiente com espelhos", 2017

“O que persiste como falta”: Cinara Barbosa escreve sobre a obra de Antonio Obá

O finalista do Prêmio PIPA 2017 Antonio Obá convidou a pesquisadora e crítica independente Cinara Barbosa para escrever um texto sobre seu trabalho, suas inquietações e práticas artístas. O texto, que compõe a série de textos exclusivos para o catálogo do Prêmio PIPA 2017, aborda os temas recorrentes na produção de Obá, que é frequentemente atravessada por questões ligadas à religiosidade, afrobrasilidade e negritude.

Cinara ressalta o diálogo que a obra de Obá estabelece entre a história e o passado do próprio artista com todo um repertório de símbolos culturais. Também reflete sobre a maneira como o artista explora o corpo e a concepção de performance, que se mistura com a ideia de ritual. A curadora também comenta o trabalho “Ambiente com espelhos”, exibida na Exposição dos Finalistas do Prêmio PIPA 2017: “O espelho que pouco reflete é o anteparo da visão, um reflexo que não serve à exterioridade, sugerindo a volta para dentro de cada um”, ela pontua.

O que persiste como falta

“Quando criar diz mais respeito à teimosia que à inspiração”

Cinara Barbosa

A atualização do passado colonial por meio de seus rituais domésticos e a adestração de corpos escravizados ressoa na atualidade para reflexão sobre as consequências históricas dos amálgamas sociais. Ao enveredar por esta autobiografia de caráter genealógico cultural, uma história de si, Antônio Obá nos coloca em situação de risco consciente. Demonstra de que maneira seu resgate será sempre licencioso, ou melhor, um acerto de contas consigo, dada a ausência de referências cotidianas e familiares recentes que vão além do fenótipo corporal. Expõe dúvidas sobre comportamentos humanos e políticas decisórias diversas que podem se expressar estrategicamente nos universos místicos e religiosos.

O artista propicia a recondução do tema da Arte Sacra, o que é percebido somente em uma visada apressada, pois é preciso insistir e ir adiante. A performance “(…) Receita de como fazer um santo” serve como uma síntese dos atributos a que recorre em sua produção. Ali temos objetos, corpo e pintura que dizem também sobre a síntese de quadros, instalações e performances. Entre os temas indicados nos títulos dos trabalhos temos: a representação religiosa, a sexualidade mítica negra ou a ambivalência de gênero, a servidão privada, a ‘eugenia’ cultural e racial (embranquecimento), a expurgação dos traumas, a reconstrução do presente pela manipulação ritual dos objetos.

Obá faz refletir também sobre a concepção de ‘performance-ritual’ que domina grande parte de seu trabalho. Se, em geral, toda performance transparece princípios ritualísticos, de maneira específica o artista invoca e institui o rito também como tema. As cenas têm efeito de purgação e de apaziguamento para os presentes.

O corpo comparece como motivo e matéria, problematizando erotismo e estigmas identitários. Assim, a preparação física ganha uma notação a mais no trabalho. O tônus muscular e o corpo vigoroso atendem a exigências da concepção de cada performance. Como em “Malungo: rito para uma missa preta”, em que, entre a ingestão de um litro de cachaça em cálice utilizado em missas católicas, o sinal da cruz feito repetidas vezes com carvão macerado no corpo gera um esgotamento dos limites no esforço de reivindicar um protagonismo devocional referente às missas congolesas. Na perspectiva de Obá, trata-se “do sincretismo visto pela negritude pessoal”. Em outras circunstâncias é o próprio corpo nu que é colocado em sacrifício, disponibilizado, exposto. Revela-se, portanto, a exploração do corpo negro, visto tanto como força de trabalho mecânica e braçal, quanto como parte do exotismo sexual.

Sujeita a leituras maledicentes e oportunistas, em função da hipocrisia de grupos político-religiosos na barganha de seu ‘rebanho’ e eleitorado em discurso moral que incita o terror e o empobrecimento intelectual, algumas obras são reduzidas como sendo ataques a símbolos da religião católica, desrespeito com a imagem de Nossa Senhora Aparecida ou a indecência do corpo nu. Isto porque não é do interesse compreender os comentários do artista negro, católico -praticante, de forte relação familiar, cuja a provocação é a de evidenciar a demasiada presença das marcas colonialistas, escravocratas e católicas na formação do povo brasileiro. E, para isto, corta na própria carne e provoca a dor pessoal em passar por esta revisão.

Pelo pensamento artístico de Antônio Obá percebe-se que ‘transfigurar’ trata da busca de autonomia do desejo e da capacidade de decisão pela identificação que lhe foi usurpada. Em seus trabalhos o artista coloca em questão processos de desenvolvimento crítico de autoaceitação herética religiosa e cultural. Coloca à prova suas marcas para que, assim, tenhamos em mente que criamos a todo momento a relação de intimidade que queremos com aquilo que pode não existir na prática, mas persiste como falta.

Reminiscências e ausências são pontos fulcrais da série “Ambiente com espelhos” criada especialmente para a exposição dos finalistas do Prêmio Pipa 2017. Um conjunto de cinco pares de molduras e de telas distribuído no espaço e fixado à parede estabelecem ao mesmo tempo diálogos e enfrentamentos sucessivos.

A primeira relação pode ser percebida em cada díptico entre si. De um lado, uma tela sem chassi, do outro, uma chapa de ferro emoldurada fazendo as vezes de espelho. A lona de algodão cru absorve presenças. São partes do corpo, mas também bem podem ser emoções e memórias familiares ou culturais. Tudo aquilo que é marca, uma lembrança qualquer, posicionada à esquerda, desaparece à direita, requisitando a imagem que podemos fazer de nós mesmos por meio da lâmina enferrujada. O espelho que pouco reflete é o anteparo da visão, um reflexo que não serve à exterioridade, sugerindo a volta para dentro de cada um.

Uma ligação também se cria entre os dípticos no espaço. O título da série nos avisa que estamos em um ambiente. E é preciso percorrê-lo. Tomar noção do conjunto ampliado. Momentaneamente enxergamos o lugar específico da sala. A herança histórica arquitetônica de ‘galerias de espelhos’ está relacionada à sua concepção e ao uso como palco de encontros políticos e de afirmação de poder. Mas, também, como estrutura decorativa, produz artifício e metáfora para a ilusão daquilo que se vê e de acordo com a posição em que se está. Nesta experiência, em parte invocada aqui pelo trabalho, quando o corpo muda de posição no espaço, altera-se também a percepção visual.

A obra “Variações especulares – Narciso” posicionada ao fundo da sala, na parede entre as duas fileiras que se confrontam, evidencia a problemática ambivalente dos diálogos e dos enfrentamentos de ocasião. Na correspondência com o conjunto, o objeto joga de volta tudo que absorve. Remete à multiplicidade de pontos de vista a partir do posicionamento do corpo. Mais de perto, de frente para a moldura de oratório que sustenta a chapa de ferro, o espelho espectral invoca a individualização do sujeito. Agora, nessa relação de intimidade, pode questionar se existe algo que consiga ver. Diante da sugestão de impossibilidade advinda da imagem turva, a busca pela autoimagem no reflexo, coloca em questão conceitos de memória original ou apreendida.

De modo restrito, especular é relativo àquilo que reflete luz, avaliação por suposição ou ainda um vago sentido de consideração sobre algo ou alguém mirando vantagem própria. Atrela-se à concepção de opinião baseada nas próprias ideias e interesses. Como devir, os flashes do presente surgem como problematização das possibilidades de transformação cognitiva sobre as circunstâncias de ‘ser no mundo’. É o artista quem diz, em alguns de seus poemas, como que em oração:

caminho
sou
caminho vou
ser
me seja
sem prever
me veja

A linguagem escrita é uma manifestação recorrente no processo de produção artística de Antônio Obá. Em obras mais antigas aparece pelo interesse no desenho caligráfico. E retorna pelo conteúdo testemunhal ou, às vezes, quase descritivo que dá a alguns títulos, ou ainda por meio da inscrição de palavras sobre as obras. Em muitas delas deixa entrever, como no poema, o quanto o impulso de sua produção está em querer acompanhar, trocar de lugar com o outro, reposicionar-se e ver o que de fato está à mostra, mas que não se apresenta de imediato. Fazer uma revisão crítica, ainda que pela via artística, talvez seja para poucos homens de fé.

SOBRE A AUTORA

Cinara Barbosa é pesquisadora e curadora independente. Doutora e mestre em Arte pela Universidade de Brasília (UnB), Cinara é curadora associada do Elefante Centro Cultural, Brasília.


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