“Onde mora a arte?” – Leia o texto crítico de Luiz Camillo Osorio

Em um momento em que tudo se torna mercadoria e a prática artística é cada vez mais institucionalizada – vide a proliferação de feiras de arte mundo afora – onde mora a arte? A pergunta guia Luiz Camillo Osorio em mais um texto crítico exclusivo para o Prêmio PIPA. Com ares de cronista, o curador do Instituto PIPA traça um paralelo entre as experiências de Adelzon Alves, figura fundamental do samba carioca, e Janet Kim, criadora do espaço Tiny Creatures, em Los Angeles, que criaram, cada um a seu modo, uma “morada” para a arte.

Onde mora a arte?

Luiz Camillo Osorio

Este título é uma tradução livre de um livro da escritora e teórica Chris Kraus – Where art belongs. Deixá-la na forma de pergunta faz justiça ao espírito do livro e nos obriga a alguma atenção diante do risco de determinação conceitual. Em hipótese alguma o objetivo é o de fixar esta morada, ou seja, definir o que seja arte para em seguida excluir tudo aquilo que não se encaixa no conceito. Formular a pergunta e procurar por esta morada é buscar localizar um tipo de relação, sempre contingente, entre processos de criação, formas de sentimento e territórios institucionais. Os canais de circulação da arte são muitas vezes inesperados, deslocando as fronteiras institucionais e pondo em movimento a imaginação e o pensamento. A articulação entre surpresa e intensidade faz deste lugar da arte, onde ela irrompe e se apresenta, um lugar em que queremos estar mesmo sabendo que ele é efêmero.

A crescente mercantilização da vida tende a reduzir as expectativas do acontecimento poético, nivelando tudo pelo valor monetário e restringindo a circulação do que não se encaixa aí dentro. As feiras de arte são o espaço por excelência deste nivelamento. É tudo excessivo e previsível – o que esvazia a surpresa e a intensidade apontadas acima. Nada contra as feiras, elas cumprem seu papel. O problema é quando começam a se tornar paradigma, ou seja, querem ir além do comércio e virar espaço de arte. O excesso e a previsibilidade acabam disseminando-se institucionalmente. Este não é um problema atual. Instituir sempre foi tornar previsível; já o excesso é típico do espírito neurótico do nosso tempo. Assim somos obrigados a olhar para fora das instituições artísticas para procurar a poesia (surpresa) e a força estética (intensidade) que ali tendem a se acomodar. Obviamente que olhar para fora não exclui olhar para dentro, afinal estamos todos dentro procurando espaço de respiração.

No dia em que recebi pelo correio o livro de Chris Kraus encontrei o fotógrafo e DJ Maurício Valadares. Isso é uma coincidência relevante só para este artigo. Tomamos uma cerveja e ele me disse: – “não perca meu programa na rádio globo hoje à noite: entrevistei o Adelzon Alves!” Confesso a minha ignorância, desconhecia o Adelzon. Todavia, se o Maurício entrevistou e estava entusiasmado, devia ser bom. Há uns 35 anos, desde o The Smiths em 1982, na memorável rádio Fluminense, Maurício só me apresenta o que interessa. Este senhor, o Adelzon, por sua vez, fiquei sabendo na conversa, passa as madrugadas, desde a década de 1960, tocando e apresentando no rádio novidades do samba que agregam pessoas nas periferias. Foram histórias e mais histórias contadas com graça.

O cara que apresentou Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes, entre tantos outros, segue ainda garimpando música, fazendo suas “curadorias na madrugada”, indo de ônibus para a rádio nacional e vivendo pacatamente na zona oeste. Seu programa, quando era na rádio globo, estava sempre de portas abertas e os músicos saíam da Lapa e davam uma passada na Rua do Russell para uma canja. O desconhecido tinha 15 minutos de fama, mas a fama é o que menos interessava. Fazer música e difundi-la era e é a razão do seu programa. Sua existência é determinante para que exista um público, um espaço de troca, de conversa, ou seja, uma morada, entre outras, para a música popular. O ouvido e o programa de Adelzon são de uma generosidade que não cabem no mundo atual. Quer produzir encontros entre músicos e fazer de um programa no rádio um lugar para se estar no seu tempo e em outros tempos simultaneamente, para ouvir o que não se ouve normalmente e para nos tirar da lógica do consumo musical.

Algo parecido, apesar de todas as diferenças, aparece no primeiro capítulo do livro Where art belongs. Trata-se de uma apresentação do espaço alternativo de arte Tiny Creatures que funcionou em Los Angeles entre 2006 e 2009. Criado pela artista e musicista Janet Kim, a ideia era ter um lugar para juntar as pessoas e mostrar seus trabalhos. Tendo ido morar em um armazém na área de Echo Park em Los Angeles, fixou-se nos fundos e deixou amplo ambiente para os encontros. De início iam apenas amigos da cena underground local. A maioria músicos e artistas plásticos, todos saindo da universidade, pulando de trabalho em trabalho, buscando seguir fazendo coisas.

O que interessa na descrição de Chris Kraus é sua atenção para o espírito que mobilizava a criação do Tiny Creatures e como (não) lidar com o eventual sucesso. Nas primeiras apresentações, só amigos, tudo feito no improviso e na paixão – que se manifestava no desejo de fazer acontecer algo. “Tiny creatures is a desire to find a way to live our own way, to have a sense of community, to see each other while on earth, to share our lives, our pains, our talents, our thoughts, to capture a moment in time that will be lost or forgotten, and to package it with beauty, love, pain, and all that we can feel as humans”, escreveu Janet Kim no manifesto de 2007.

Desentendimentos e não profissionalismo marcaram este espaço nesses breves três anos. Sucesso também. Logo no final do primeiro ano de funcionamento havia uma espécie de frenesi, como nas festas da Factory de Warhol nos anos 60. Junkies, jetset, curadores e desocupados lotavam o lugar e movimentavam a redondeza. O Tiny ficara grande. Ou seja, era hora de acabar. Em 2009, no auge do sucesso, foi feito um manifesto de encerramento e uma finissagem. Não era essa a ideia que o fez existir – os amigos não mais se encontravam, música e exposição viravam obrigação e a arte, enquanto acontecimento que abre lugar para a surpresa e a intensidade, acomodava-se e virava objeto de mercado.

Perguntada em uma entrevista o que seria de Tiny Creatures depois do encerramento, Janet Kim foi precisa: “being a Tiny Creature as a tiny creature is. Ears and eyes. Surfing. Getting back into John Cage, Xenakis. Details. Concocting some sort of new drug. Embracing”. O acolhimento de formas abertas de produção poética se faz cada vez mais necessária em um mundo onde tudo é regrado e determinado. Esta abertura é desinteressada no sentido genuíno de uma procura por algo que não sabemos e nem podemos determinar a priori, mas que advém inesperadamente quando há atenção e disponibilidade. Sem isso há muita vontade de arte, só que sem arte. Resumindo pelo avesso: não sabemos exatamente onde mora a arte, mas percebemos quando ela deixa de estar presente. Que figuras como Adelzon Alves e Janet Kim, tão diferentes entre si, sigam buscando abrigá-la: na madrugada, nos detalhes.

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA, conselheiro e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015.



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