Conversa com Carla Guagliardi, por Luiz Camillo Osorio

Nascida no Rio de Janeiro, mas há duas décadas radicada na Alemanha, a finalista do Prêmio PIPA 2017 Carla Guagliardi centra sua poética na instabilidade. Suas instalações levam ao limite noções como equilíbrio e desequilíbrio, permanência e vulnerabilidade. Nesta conversa com o curador do Instituto PIPA, Luiz Camillo Osorio – a terceira da série de entrevistas com os finalistas desta edição – , a artista lembra o começo de sua carreira, nos anos 1980, fala sobre viver e fazer arte longe do Brasil, e destaca a importância do tempo e da presença do público para a concretização de seu trabalho: “Tenho a nítida sensação que meu trabalho só está pronto quando se dá a ver”.

 

CONVERSA COM CARLA GUAGLIARDI, POR LUIZ CAMILLO OSORIO

 

Carla, fale um pouco sobre o que significa ser uma artista estrangeira, brasileira, vivendo e produzindo em Berlim? Quais as dificuldades e o que você destacaria como tendo sido importante para a sua obra nestes quase vinte anos de Berlim?

Essa é uma pergunta que hoje faz um sentido bem diverso do que fazia há 20 anos. Quando cheguei em Berlim em 1997, a cidade ainda vivia os ares de uma cidade recém reunificada, ainda se via com nitidez os resquícios de uma era pós-guerra, com uma clara diferença entre os lados leste e oeste.  Havia poucos estrangeiros vivendo na cidade (com exceção dos turcos), especialmente na cena artística. Faltavam-nos referências comuns. Em 1999 fui artista residente da Künstlerhaus Bethanien, um nicho de jovens artistas de diferentes partes do mundo e que motivados por esse momento pós-reunificação foram juntamente com muitos que chegaram via a bolsa do DAAD, permanecendo na cidade e alterando aos poucos essa cena. Essa motivação também atraiu galerias e artistas em busca de grandes espaços para ateliês a preços bem abaixo do mercado europeu ocidental.

Logo uma cena bem distinta e cosmopolita se configurou junto ao boom de artistas surgidos nas duas últimas décadas.

Ser estrangeiro é de qualquer forma uma condição ambivalente, por um lado a falta de referências nos liberta e por outra nos afoga numa tremenda solidão.

Hoje a circulação de informações permite um trâmite entre os artistas na simultaneidade dos acontecimentos, numa velocidade absurda. Há um número enorme de  artistas vivendo e/ou trabalhando em Berlim ou de passagem pela cidade, muitos brasileiros inclusive. Isso reconfigura aquele contexto, agora também baseado em referências mais globais.

Do que você mais sente falta ao estar vivendo aí da cena brasileira/carioca? No final dos anos 80 e começo dos anos 90, toda uma geração de artistas, a maioria escultores, formou-se aqui no Rio. Todos eles ligados de alguma maneira via os espaços do IBEU e do Sergio Porto, via os encontros no Visorama e também pela cumplicidade com a geração anterior, dos anos 70, no seu caso muito o Tunga. Fale sobre este período de formação e como ele segue te influenciando.

A maneira como a minha geração de artistas se formou dependia de um esforço e uma afetividade muito grande. Bem citado aqui o exemplo do Visorama: um grupo de estudos inicialmente formado para lermos e discutirmos textos de arte contemporânea, quando alguns de nós frequentavam o curso de especialização em história da arte e arquitetura da PUC-Rio. Percebemos que a falta de acesso que tínhamos a trabalhos de arte ou mesmo a imagens destes era um grande obstáculo. Iniciamos fotografando o que encontrávamos em livros e revistas para formar um banco de dados, posteriormente começamos a escrever cartas para artistas do mundo todo solicitando slides de trabalhos, juntamos cerca de 2.500 imagens, organizamos vários seminários interdisciplinares com esse material e foi um grande sucesso. O processo de conquista disso tudo, sem o advento da internet, tinha o lado positivo de nos aproximar muitíssimo e com vários desses artistas, ainda mantenho fortes laços de amizade e cumplicidade. Temos o mesmo vocabulário e muitas experiências em comum. Tento manter contato com isso até hoje e claro que de lá, do outro lado do Atlântico, a falta dessas conversas é enorme e insubstituível.

Nessa mesma ocasião conheci o Tunga e através dele um universo riquíssimo de personagens e situações inusitadas. Nos tornamos muito amigos e éramos capazes de cozinhar um feijão e conversar profundamente sobre um trabalho ou uma questão pessoal com a mesma singularidade, com a mesma carga poética. Acho que ali percebi o quão junto estão todas as coisas, o quão a arte é inseparável da vida.

Experiências dessa ordem se dão de forma profunda, nos alteram. Lembro do Tunga me ligando de algum lugar, em plena vernissage, onde ele estava expondo algum trabalho sobre o qual havíamos conversado e experimentado juntos, dizendo: “…nosso trabalho está lindo!”.

É um enorme prazer se saber parte de um processo alheio, isso se dá também muito através da linguagem, carregada de humor e poesia… completa o sentido de que não fazemos nada sozinhos, somos interdependentes.

Tenho a nítida sensação que meu trabalho só está pronto quando se dá a ver e alguma observação alheia abre uma comporta que vai inundá-lo de sentidos. A partir daí minha relação com ele inaugura uma outra dimensão, mais reflexiva e que de certa forma perpetua-se em uma redescoberta contínua.

Recentemente sua obra começou a circular mais pelo Brasil outra vez: teve a exposição do MAM-Rio em 2009, na Galeria Anita Schwartz em 2012, mas principalmente duas seguidas no Museu de Arte do Rio (MAR) em 2017. Agora, com a indicação a finalista do PIPA, você participa de mais uma exposição no MAM-Rio. Como você está enxergando este retorno?

Dando continuidade à resposta acima, o trabalho estar no mundo, dando retornos, amplia infinitamente a conversa interior que ele nos suscita, o torna mais fértil.

Apesar da minha vida intermitente entre Rio e Berlim, estar sendo reconhecida numa cena tão abundante e eloquente como a que temos no momento no Brasil atualiza as questões do meu trabalho, amplia suas familiaridades, é uma sensação fabulosa de pertencimento.

Sua escultura lida com o movimento e com o equilíbrio instável, não obstante uma forte presença escultórica. É como se o ato de dar forma e a iminência do deixar de ser forma fossem concomitantemente relevantes. Qual para você tem sido uma questão poética determinante, se é que haja uma?

Observando de forma cronológica, vi surgir essas questões relativas à instabilidade como se fosse inexorável no processo de criação dos meus trabalhos. É possível que a forma tenha sido a motivação inicial e houvesse ali alguma determinação que se dissolveu quando outros agentes tornaram-se protagonistas mais eloquentes. O tempo é possivelmente o maior deles. Ele somou-se ao que ali estava e fez prevalecer sua ação ao que deixaria de estar. Nesse intervalo situo o cerne de muitas questões de minha obra. Situaria aí a poética norteadora e inescapável do que faço.

Os materiais que você trabalha são frágeis e você parece levá-los ao limite, ao momento anterior à ruptura, da perda de um certo caráter material. Este limite é o ponto da expressão. Como você escolhe estes materiais? Como você lida com a preservação deles no tempo?

Os materiais geralmente carregam em si suas potencialidades, suas qualidades. A escolha vem de alguma atração ou é por vezes aleatória, através da experimentação e em grande parte se afirma através dos erros a que esses materiais se sujeitam. É comum que eu insista em alguns materiais, de forma a beirar seus limites, dos mais pesados aos mais delicados limites, é fascinante discutir essa condição. É uma estranha forma de diálogo, absolutamente abstrato, mas que já me levou às lágrimas pela eloquência e sinceridade que alcançam.

A preservação é uma outra conversa, vem na contramão disso tudo. Tendo a deixar para pensar nisso depois. Para alguns trabalhos já achei soluções eficazes como a troca dos elásticos de látex por silicone, sem comprometimento de suas questões…para outros ainda creio que o pequeno gesto de, quando necessário, trocar e encher, por exemplo, um balão de látex pertencente à obra, pode ser incorporado de forma poética ao próprio trabalho.

A poesia ou a música: qual delas toca mais próxima do ritmo da sua obra, sincroniza-se mais com sua tonalidade afetiva?

Já nos primeiros trabalhos (como por exemplo “Fifi”, de 1991), houve na ocasião um belo comentário crítico baseado quase que exclusivamente num vocabulário musical que me assombrou… vindo de alguém que inclusive ignorava minha ascendência de uma família de músicos. Nem eu havia me dado conta da proximidade desses universos. Reconheci inegavelmente essa presença e mesmo quando não há obviedade nesse vocabulário formal, já apropriei-me de títulos em cuja ambivalência de sentidos reside possibilidades amplificadoras para a leitura do trabalho. Poderia citar Fuga como um dos mais profícuos exemplos. Quando dei esse nome ao trabalho, havia ali, inicialmente, a prioridade do sentido espacial da palavra “fuga”, traço aleatório determinado por circunstâncias. Em seguida, percebi o termo dentro do vocabulário musical e me encanta que a sonoridade seja capaz de determinar o espaço da simultaneidade em diferentes momentos – vide definição do termo abaixo:

“Em música, uma fuga é um estilo de composição contrapontistapolifônica e imitativa, de um tema principal, com sua origem na música barroca. Na composição musical o tema é repetido por outras vozes que entram sucessivamente e continuam de maneira entrelaçada.”

Já a poesia veio nutrir-me do essencial, está ali no uso das palavras o que eu queria dizer em silêncio.

Será que preciso fazer essa escolha?

Para outros textos escritos pelo curador para o site do Prêmio PIPA, acesse a Coluna do Camillo.

SOBRE O AUTOR

 

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA, conselheiro e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015.



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