Manifesto: Censura nunca mais!

A edição do Prêmio PIPA Online deste ano nos permitiu constatar o crescimento do contingente de aproveitadores e oportunistas que costumam atacar a cena artística contemporânea brasileira.

As questões levantadas, independentemente de juízo de valor, fugiam do escopo e foco do Prêmio PIPA – apoiar e promover artistas contemporâneos brasileiros. Seriam do escopo de organizações de direitos civis ou legais.

Fizemos nossa parte: o PIPA permitiu que questões latentes viessem à tona. As discussões terão continuidade nos fóruns pertinentes.

Ainda assim, lá estavam os já conhecidos e assim chamados “haters”. É uma gente que tenta alavancar a oportunidade para causas e agendas pessoais sem se preocupar com a verdade ou a ética nos debates. Em relação a estes indivíduos, qualquer manifestação seria imprópria e contraproducente. Sabemos como as coisas vêm sendo distorcidas e colocadas fora de contexto pelos interessados no tumulto. Eles não se importam com debates civilizados.

Acreditamos que, circunscrita ao universo das leis, toda discussão é válida e necessária. A arte contemporânea desempenha um papel de protagonismo, em todos os sentidos, como definidora de limites e no espaço das experiências que cada sociedade está disposta a enfrentar.

Os aproveitadores que atacaram a exposição do Santander e do MAM de São Paulo também estão cientes da importância da arte e do sentido de atacá-la. Da destruição de arte católica na Inglaterra, por ocasião da criação da Igreja Anglicana, passando pela destruição da “arte degenerada” pelos nazistas, já vimos este filme.

Uma visita à Frieze, maior feira de arte contemporânea do mundo, em cartaz nesta semana em Londres, revela com clareza o tamanho do atraso e do cinismo dos aproveitadores que atacam as iniciativas do circuito brasileiro. Há uma seção inteira denominada “Sex Work”, dedicada a homenagear artistas que transgrediram costumes sexuais, normas de gênero, tirania do “politicamente correto” e que, por conta disso, foram objetos de censura em seus dias.

Pois bem, em Londres, mães e pais circulavam placidamente com filhos de todas as idades entre imagens, instalações e esculturas bem mais ousadas do que aquelas que causaram tantas manifestações obscurantistas no Brasil.

Mais recentemente, o venerável British Museum abrigou duas exposições fantásticas. Uma delas, “Sex on Show”, ilustrava o tema na Grécia e Roma Antigas. Outra foi “Shunga: Sex and Pleasure in Japanese Art”. O diretor do mesmo British Museum concedeu, semana passada, entrevista em que sustentava a ideia de que artefatos eróticos da coleção do museu podem ajudar alunos de idade escolar a aprender sobre sexo, pornografia de homo e trans-sexualismo.

A esta altura dos tempos, acusar de pedofilia uma performance em que um artista nu, “transformado” em um bicho da Lygia Clark, sem qualquer conotação erótica ou sexual, muito menos pornográfica, é tocado no pé e na mão por uma criança acompanhada pela mãe, em uma exposição com comunicados avisando a presença da nudez, é ato da mais pura e rematada má-fé. É também um ultraje aos verdadeiros casos de pedofilia, estes sim tristemente numerosos. Sem falar que toda a exposição, agora sim, possivelmente deixará marcas no menor envolvido.

Se for para retroceder, melhor passar direto pela fase de “arte degenerada” e revisitar o ano de 1500, quando todos andavam nus em Paz. E se é para “moralizar”, há frentes mais urgentes.

Chegamos a nos perguntar se parte deste movimento agressivo e reacionário não é insuflado por quem pretende desviar o foco de discussões nacionais que apontam para corrupção em tantas esferas e níveis de poder.

É importante manifestar total e irrestrito apoio e respeito a artistas e instituições que sempre contribuíram para a cultura e a troca civilizada de ideias.

É o caso do MAM de São Paulo.

Os que acreditam na liberdade de expressão, no progresso, na importância da arte, precisam fazer sua parte para evitar que o Brasil dê mais um passo para trás.

Quando a maioria dos que são movidos por boa-fé e por valores como tolerância e respeito à diversidade em suas mais diversas manifestações se calam, a minoria oportunista “cresce” e os ataques se avolumam.

A hora de reagir é agora.



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