Damien Hirst. "Treasures from the wreck of the unbeliavable".

Guilherme Gutman traça reflexão sobre o texto “Morte em Veneza”, de Luiz Camillo Osorio

Integrante do Comitê de Indicação do Prêmio PIPA 2016, Guilherme Gutman – crítico de arte, curador, psiquiatra e professor do Departamento de Psicologia da PUC-Rio – conta que a última coluna de Luiz Camillo Osorio no site do Prêmio PIPA “o convocou” a fazer algumas reflexões. Publicada em agosto, “Morte em Veneza” tratava de “Treasures from the Wreck of the Unbelievable”, individual do polêmico Damien Hirst que havia estreado em paralelo à Biennale. Uma “hubris alucinada”, a exposição suscitou a seguinte questão por parte do curador do Instituto PIPA: “É desta desmedida produtiva que precisamos?”. Aqui, Gutman faz sua própria análise da exposição. “Não nos interessa a desmedida? Como não?”, responde. “Para a arte, ela sempre soube oferecer os seus melhores frutos.”

“VIOLÊNCIA E PAIXÃO”: OU “DOUTOR FAUSTO?”

Guilherme Gutman

Debrucei-me com interesse sobre o artigo que Luiz Camillo Osorio havia, recentemente, publicado em sua coluna no PIPA chamado “Morte em Veneza”. No título, a dupla referência a duas obras-primas: ao livro homônimo de Thomas Mann e ao, também homônimo, filme de Luchino Visconti; sua leitura do romance de Mann.

Fato é que, neste caso, a referência que mais interessava a Camillo – talvez eu devesse ter antes me certificado disso com ele – é a própria cidade de Veneza. Quero dizer, seu foco está em algo que se passa nela, de modo periódico e regular: a celebrada Bienal que a cidade acolhe, faz girar e, finalmente, exporta.

Também periodicamente, Camilo se interessa em saber o que há dentro daqueles pavilhões, ou dentro daquelas edificações que, além de históricas, são belíssimas, como se sabe. Sob certo ângulo, ele se interessa pelo que se está fazendo hoje, e por uma reflexão sobre o que se denomina, contemporaneamente, artes visuais.

Há na Biennale representações de muitos países e, ainda que esteja lá uma infinidade de trabalhos, é preciso dizer, o olhar menos “treinado” no circuito das artes estará sempre longe de percebê-los como homogêneos (ou mesmo de percebê-los como arte!). Por mais sortidos, badalados ou grandiosos são, let’s face it, ainda assim uma amostra daquilo que hoje é produzido.

Seria preciso ver mais? Certamente algo ficará de fora. Seria preciso ver um pouco mais? Certamente, algo seguirá permanecendo de fora.

Thomas Mann disse algo como: “Para que ler os livros bons se podemos ler apenas os ótimos?”. É uma pergunta maravilhosamente cínica, porque toda época sempre se interessou por saber aquilo que, então, era produzido.

Na última Bienal de Veneza, Camillo esteve presente não apenas para refletir sobre o que via, mas para curar o pavilhão brasileiro. Auxiliado por Cauê Alves, Camillo fez escolhas nas quais muitos fios se cruzaram: a história da arte, uma certa perspectiva política, pensar a importância dos artistas e a dos trabalhos escolhidos, o espaço arquitetônico, a dimensão do contexto em que os trabalhos estão sendo expostos and last, but not least, o seu próprio “gosto”, formado por uma gama sortida de incontáveis elementos que produziram impressões, provocaram reflexões e tantas outras experiências que, por assim dizer, cortaram-lhe na carne.

Na atual Bienal de Veneza, um determinado conjunto de trabalhos de um mesmo artista, chamou a sua atenção. Exposto em toda a exuberância que só a megalomania é capaz de produzir; albergado em dois locais da cidade (criando, assim, duas exposições concomitantes, em um gigantesco espaço expositivo), Osorio – e o mundo – pararam para vê-lo e para comentá-lo.

O adjetivo utilizado por Camillo, e que possivelmente sintetiza aquilo que foi a sua experiência diante desses dois blocos de trabalhos, foi “inacreditável”; certamente com aquela conhecida conotação pouco favorável, aplicada a algo que, no cômputo final, não é nem crível, nem forte, nem artisticamente estimulante.

Em sua própria e suave desmedida, Camillo chega a ser algo enfático (no que diz respeito ao desconforto que a obra lhe traz) ao utilizar, a respeito deste trabalho de Hirst – Treasures from the Wreck of the Unbelievable – expressões tais como “hubris alucinada (…), insolência (…) alucinação egóica”.

Ainda que Camillo não despreze a “impressionante capacidade de Damien Hirst de fazer, de enlouquecer, de criar uma fabulação e torná-la algo”, nada o impediu de sair “oprimido e deprimido da Punta Della Dogana”, perguntando-se: “Para que tanta coisa?”.

Ainda que apoiado por alguns aspectos do artigo escrito por Laura Cumming para The Guardian, ainda acho que o periódico britânico produziu uma crítica mais favorável quando comparada ao esforço crítico de Camillo.

Em certo ponto da perspectiva de Camillo, com alguma imaginação, pode ficar a sensação de que Hirst – tal qual o protagonista de Doktor Faustos, de Mann –, de algum modo, teria entregue a alma ao diabo; ou a François Pinaud.

Ainda fantasiosamente, podemos imaginar Hirst, em sua vanglória, sendo purificado pelas águas da cidade italiana.

Diz Camillo: “Como já escreveu Joseph Brodsky em seu ensaio sobre Veneza, “não há paisagem como essa para fazer o arrebatamento desvanecer-se; certo ou errado, nenhum egoísta é capaz de brilhar por muito tempo neste cenário de porcelana flutuando sobre água de cristal, pois ela rouba a cena”.

Até que, com a sua elegância crítica contumaz, Osorio “desmonta” o mise en scène de Hirst ao nos tomar pela mão e, já na “atmosfera aristocrática e decadente” da Accademia, colocar-nos diante de um pequeno detalhe (10cm x 10cm) de um tríptico  de Bosch, intitulado Trittico degli Eremiti.

A posição de Camillo ao, argutamente, trazer-nos esse pequeno Bosch é, menos o tratamento dado por Daniel Arasse ao detalhe, e mais a ideia de “menor”, apresentada por Gilles Deleuze e Félix Guattari, ainda que em ou outro contexto.

Não nos interessa a desmedida? Como não? Para a arte, ela sempre soube oferecer os seus melhores frutos.

Camillo jamais dispensaria a loucura como algo que tem a dizer sobre a arte. O desatino – campo maior de minha própria pesquisa – também o interessa. Em seu texto, sua dèmarche é orientada pela oposição entre a desmedida de Hirst e aquela  outra, – atemporal – de Bosch. Neste, a Stultifera Navis carrega algo “da ordem do susto”; de um jogo metafísico entre temor e tremor que nos abre todo um imaginário, toda uma loucura que fazem deste mundo algo menos previsível e mais assustador”.

Há neste pequeno, neste menor dos grandes, alguma coisa que “não cabe em nossas medidas”. Trata-se de algo da ordem do delírio, etimologicamente, algo fora dos sulcos.

O universo fechado, inacessível do “Tríptico dos Eremitas” de Bosch, pode remeter à atmosfera asfixiante permanentemente presente em Gruppo di famiglia in un interno, título original do magistral Violência e Paixão – como aqui ficou conhecido o filme de Visconti.

Se, por um lado, a loucura é termo amplo e não dicionarizado, por outro, é capaz de nos lembrar, da forma mais veemente possível, de que todos nós temos algo com o para além de uma certa normalidade.

Aí, não se trata tanto de nos decidirmos por Hirst ou por Bosch, mas – espantados – reagirmos à desmedida de um e de outro com palmas desesperadas.

Como afirma Camillo em seu texto, “A morte em Veneza não advém só da peste, mas do sucesso e da desmedida”. Seu alvo, claro, é Hirst. Mas como o romance de Mann revela, trabalhamos pela vida, pela ligação com o mundo e com as pessoas, tanto quanto pela nossa própria destruição e morte.

Com Freud, tomei, mais uma vez, o livro de Mann e pensei: bravo a todos aqueles que nos fazem escapar, por pouco que seja, de nossa miséria neurótica e cotidiana.

Pode ser um alívio embarcar na stultifera navis que, tal qual vaporetto, instável, nos levará para longe desta ópera bufa, que pode ser a vida. Em especial – me arrisco a dizer – a vida sem arte; seja ela a de Hirst ou a de Bosch.

SOBRE O AUTOR

Guilherme Gutman é médico, psiquiatra, psicanalista, e professor do Departamento de Psicologia da PUC-Rio e da EAV-Parque Lage. Crítico de arte e curador independente, foi membro do Comitê de Indicação do Prêmio PIPA 2016. É autor de William James & Henry James: filosofia, literatura e vida.


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