Antonio Obá, Pregação, 2015

Corpo, ritual e miscigenação na obra de Antonio Obá

Nascido em Ceilândia, cidade satélite de Brasília, e criado numa família de tradições católicas, Antonio Obá investiga e reconfigura em seu trabalho questões de uma tradição interiorana que permeia o universo religioso brasileiro. Interessado na busca e afirmação do corpo, Obá se voltou para a performance, onde encontrou uma possibilidade de estudar e reproduzir o aspecto ritualístico presente nas religiões. “Um ponto de ancoragem [para o meu trabalho] gira em torno de uma afirmação da presença do corpo”, comenta o artista em entrevista ao curador do Instituto PIPA, Luiz Camillo Osorio. A busca pelo corpo atravessa uma busca pelo entendimento da sua própria identidade, mergulhando em uma memória íntima e um contexto social maior que o antecede e que define seu lugar na sociedade. Por isso, Obá trabalha no exame do que significa ter um corpo negro, miscigenado, “um corpo lançado às sombras que agora reclama seu lugar de fala”, ele afirma.

Explorando questões históricas e questionando o mito do sincretismo entre entre catolicismo e credos de matriz africana, seu trabalho traz à tona reflexões sobre racismo, processos de aculturação, miscigenação, rituais religiosos, masoquismos e erotismo. Apesar de se dedicar principalmente à performance, o artista transita ainda por outras linguagens, como o desenho, textos poéticos e pintura. Mas Obá só se voltou intensa e quase exclusivamente para a prática artística na época da faculdade, “embora a ideia de ser artista fosse algo presente desde menino”, ele comenta. Foi no ensino médio, graças à orientação e apoio de uma professora, que ele começou a encarar aquilo que fazia de forma inata como algo que poderia ganhar uma amplitude maior, levando-o a expandir e investir em suas habilidades. Já na faculdade, onde cursava publicidade, Obá ouviu de um professor e artista que ele não era artista de verdade porque não tinha a disciplina de um. Um mês depois, cancelou sua matrícula em publicidade, que já se estendida por três anos, e foi cursar Artes na FADM – Faculdade de Artes Dulcina de Moraes

A influência de professores na sua carreira foi fundamental para sua decisão de fazer e estudar arte. “Hoje, como parte de minhas atividades, está a função de professor, pois percebo que essa atuação é essencial para uma educação estética e sensível”, cantou ele a Luiz Camillo Osório. O artista fala ainda da importância de ser negro e ocupar os espaços de arte, se fazer presente, visto e ouvido. “Me coloco nessa situação: sou mestiço, construí minhas relações afetivo-familiares numa tradição catequizante e, mesmo as referências artísticas que contribuíram para minha formação vem boa parte de uma construção estética europeia e isso é um problema cultural e educacional.”

Assista a entrevista exclusiva de Antonio Obá para o Prêmio PIPA 2017 e leia aqui sua entrevista com Luiz Camillo Osorio.

A Exposição dos Finalistas do Prêmio PIPA 2017 abre neste sábado, 23 de setembro, às 15h. Não perca!

 



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