Damien Hirst, "Treasures from the wreck of the unbelievable”

“Morte em Veneza”, novo texto exclusivo de Luiz Camillo Osorio

O texto crítico deste mês do curador do Instituto PIPA Luiz Camillo Osorio fala sobre a volta do polêmico Damien Hirst com a exposição monumental “Treasures from the wreck of the unbelievable”, que estreeou em Punta della Dogana e no Palazzo Grassi em paralelo à Bienal de Veneza. Nele, Camillo levanta questões sobre os excessos do mundo da “pós-verdade” e da ironia, contrapondo o “delírio desmedido” de Hirst à “intensidade do menos”.

Morte em Veneza

Luiz Camillo Osorio

É incontestável que Damien Hirst não teme o risco. Sempre em sua obra a vontade de arte assumiu o arbítrio que une querer e poder. Ter surgido na cena contemporânea em uma Bienal de Veneza (1993) com uma vaca e um bezerro cortados ao meio em um aquário de formol era só o começo. Daí para uma caveira de diamantes (2007) e um leilão inteiro apenas com obras suas – no dia em que quebrou o Lehman Brothers em 2008 – era questão de tempo. Não que ele não tenha pago o preço da ousadia. Não se provoca o mercado impunemente. Ficou na geladeira por alguns anos até que veio uma retrospectiva na Tate por conta das Olimpíadas de Londres e uma exposição simultânea em todas as instalações globais da Gagosian.

Mesmo com tudo isso, Damien Hirst não parece cansado. O último passo, recentíssimo, dessa húbris alucinada foram duas exposições simultâneas, outra vez em Veneza, na Punta della Dogana e no Palazzo Grassi – “Treasures from the wreck of the unbelievable”. Inacreditável é uma palavra que procede aqui. Como é possível um único artista encher dois museus com peças suas recentes, monumentais e minúsculas, supostamente surgidas de um naufrágio milenar da coleção do imperador e ex-escravo romano Cif Amotan II? Tudo é para fazer crer, quando não se crê em mais nada, que de fato teria havido tal resgate do fundo do oceano índico. As peças vêm incrustadas com supostos corais, cobertas de limo e vegetação marinha, lavadas com aquela pátina esverdeada do tempo de submersão. Um filme e fotos gigantes dos mergulhadores resgatando aquelas entidades provindas de um imaginário alucinado, meio grego, meio viking, meio Disney. Cópias expositivas foram feitas para tornar tudo mais real e mais insólito, assim como um conjunto sem fim de utensílios: armas, joias, vasos, fragmentos, tudo acumulado nos dois espaços. Tudo inacreditavelmente fake.

Vista da exposição de Damien Hirst no Palazzo Grassi, “Treasures from the wreck of the unbelievable” | Fotografia de Luiz Camillo Osorio

Importante dizer que tudo realizado com investimento do próprio artista, na faixa de 50 milhões de libras esterlinas. Claro que não faltarão colecionadores para dar uma força e cobrir com folga o que foi gasto. Aparentemente muitas destas obras já foram adquiridas. Quiçá o próprio François Pinaud – dono da coleção que está abrigada nestes espaços de Veneza – tenha comparecido com alguma aquisição. Mas isso é o de menos. Independentemente de qualquer resultado posterior com vendas, que será rápido, é impressionante a capacidade de Damien Hirst de fazer, de enlouquecer, de criar uma fabulação e torná-la algo: uma exposição, um filme, um leilão, um sucesso e um naufrágio.

Entretanto, acho que cabem algumas perguntas. Será que precisamos desse sucesso? Pode o sucesso ser simultaneamente sintoma de nosso fracasso civilizacional? É desta desmedida produtiva que precisamos? Como devemos olhar estas peças? Seriam elas, como indicou a crítica do Guardian, a arte adequada para o mundo da pós-verdade? O que mobiliza esta fé de Hirst ao tornar possível exposições desta escala? Ele precisa disso? Nós precisamos? Não há respostas fáceis. É sempre complicado introduzir o elemento moral – deve ele fazer isso? – para avaliar uma produção de arte. Foi uma conquista moderna libertar a arte de todo dever-ser, ao mesmo tempo em que, do nada, ela acontece e se faz necessária. Que necessidade produz estas coisas e seres imaginários se não a do arbítrio de quem pode tudo, mas que aparentemente não quer mais nada?

Quem sou eu para julgar. Mas trago dois contraexemplos, vistos também aqui em Veneza, que me parecem ir na contramão da insolência do Hirst. A primeira é uma pequena lição de poética de uma artista fracassada. No pavilhão da suíça na Bienal deste ano, a dupla de artistas Teresa Hubbard e Alexander Birchler produziu um filme notável a partir de uma artista, Flora Mayo, hoje totalmente desconhecida, mas que no final dos anos 1920, além de alguma cintilação de sucesso como escultora, foi namorada do Giacometti. Uma artista americana, nascida rica, que viveu a Paris da Belle Époque, escultora promissora, viveu um caso de amor com a escultura e o escultor, perdeu tudo no transcorrer da crise de 1929, voltou sem nada para os EUA, teve um filho em produção independente, foi trabalhar precariamente na Califórnia e viveu anonimamente e desconectada deste passado para o resto dos seus dias. Mas a que vem esta história? Numa visita de Giacometti ao seu ateiliê, com dificuldade de terminar suas peças, Flora Mayo disse-lhe que tinha ódio da arte. A resposta veio na lata: este é um bom sentimento para um artista ter em relação à sua obra. A arte também pode existir como falha. Há algo a ser constantemente descoberto que não tem muito a ver com a capacidade de fazer, mas sim com o que pode surgir do nada a partir do que acreditamos ou odiamos.

É claro que uma coisa não exclui a outra, o sucesso de Giacometti e o fracasso de Flora. Entretanto, ambos excluem o mundo de Damien Hirst: fundado no delírio da desmedida. De alguma maneira, intoxicado como estamos pelos excessos cabe ficarmos atentos para a intensidade do menos, sem que isso seja renúncia, mas escolha.

Da esquerda para a direita: Giacometti, seu busto e a autora da peça, Flora Mayo | Fotografia de Luiz Camillo Osorio

Saí oprimido e deprimido da Punta Della Dogana. Para que tanta coisa? Não precisamos deste espetáculo deliberado de poder. Isso em Veneza, cidade onde tudo parece cenário para foto turística, sendo que do nada surge uma curva e um canto surpreendentes. Sorte, também, que ainda existe a Academia, duas estações de vaporeto à frente, com sua atmosfera aristocrática e decadente, com as etiquetas desajeitadas e nenhuma cenografia expositiva. Onde vamos ver e nada mais. Parei ali depois do Hirst e me deparei com uma magnífica exposição do Philip Guston e sua relação com a poesia. Mas o que me chamou mesmo a atenção como um contraponto ao Hirst foi uma pequena exposição do Bosch. Nem é um pintor que me encanta como os Bellini, Veronese e Carpaccio que se multiplicam ali e valem qualquer viagem. Entretanto, num pequeno detalhe (10cm x 10cm) de um tríptico intitulado “Trittico degli Eremiti” do Bosch vi mais fantasia que naquela alucinação egóica do Hirst.

Detalhe do “Trittico degli Eremiti”, do pintor Hieronymus Bosch | Fotografia de Luiz Camillo Osorio

Neste pequeno canto há algo além do poder fazer. O que mobiliza nosso olhar é da ordem do susto. Há um jogo metafísico entre temor e tremor que nos abre todo um imaginário, toda uma loucura que fazem deste mundo algo menos previsível e mais assustador. Damien Hirst não assusta ninguém porque ele não acredita no que faz, não obstante fazer sempre com muito sucesso. Só que dessa vez o sucesso foi um tiro fatal. Como já escreveu Joseph Brodsky em seu ensaio sobre Veneza, “não há paisagem como essa para fazer o arrebatamento desvanecer-se; certo ou errado, nenhum egoísta é capaz de brilhar por muito tempo neste cenário de porcelana flutuando sobre água de cristal, pois ela rouba a cena”. Além disso, o canto do tríptico de Bosch, na sua fantasia, no seu medo evidente e na sua crença de que há algo que não cabe em nossas medidas, é exatamente o que faz do infinito algo finito e do detalhe algo monumental. A morte em Veneza não advém só da peste, mas do sucesso e da desmedida.

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015. Acesse a Coluna do Camillo e leia textos exclusivos do curador do Instituto PIPA.



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