“Vijai Patchineelam – A Incapacidade de conter o presente” – leia o texto exclusivo de Guilherme Gutman

Este ano indicado pela segunda vez ao Prêmio PIPA, Vijai Patchineelam inaugurou, em março, sua primeira individual na Galeria Cavalo. Intitulada “od danas do sjutra”, provérbio sérvio-croata que designa “uma situação de sobrevivência precária, de quem vive do imediato”, a exposição tem causado, de acordo com o crítico e curador Guilherme Gutman, uma certa (e benéfica) inquietude em seus visitantes: “Vijai – me permitam a imagem meio extemporânea – não permite que os espectadores cheguem às suas casas, coloquem as suas cabeças pensantes em travesseiros, e que adormeçam tranquilos ao som das passagens mais doces de Schumann”, escreve o membro do Comitê de Indicação do Prêmio PIPA 2016.

É, assim, traçando paralelos entre a individual e a última coluna de Luiz Camillo Osorio, “Arte não é informação”, que Gutman desenvolve mais um texto exclusivo para o Prêmio PIPA. Entre os dois curadores, uma certeza: arte é experiência. E, para Gutman, talvez a experiência menos didática, quase angustiante de “od danas do sjutra” seja justamente aquela que coloca a nós, espectadores, em uma “trilha mais interessante”. Leia o texto na íntegra:

Vijai Patchineelam – “A Incapacidade de Conter o Presente”


Guilherme Gutman

Em um filme de 2015, realizado por Vijai Patchineelam, observa-se na primeira parte, um outro artista – Carlos Zílio – acompanhado da equipe do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, tateando as partes, procurando reconstituir um impossível, mas também avançando na remontagem de trabalhos originalmente produzidos na década de 1970.

Com um papel teso às mãos, Zílio, no centro desta cena, procura recolocar no mundo uma obra, sem querer garantir o resultado do que o seu trabalho, no futuro, voltará a ser.

Hoje, se resiste à larga e mais do que nunca, a tudo aquilo que nos retorna em sonhos – tanto nos bons quanto nos maus – e também nos lapsos, nos chistes, nos atos falhos e nos sintomas.

Entrar nisso seria ir longe demais nesse momento.

Para ser tão econômico quanto veemente, diria, com Freud, Lacan e outros, que a expectativa de Vijai – talvez de toda arte – seja a de esperar algo que retorne do futuro.

Vijai se preocupa em esclarecer que o seu trabalho não é didático. Há elementos no seu vídeo que reaparecem e se articulam.

De fato, Patchineem não renuncia ao exercício necessário, vigoroso, e nos apresenta – talvez no trabalho mais generoso desta recente exposição – três pequenos textos, carimbados sobre parede, dos quais faz surgir três pintores personagens. Obviamente não se trata da proposição de uma tipologia, mas são eles – textos e “figuras” – já elementos de criação. Vamos pensar sobre “a figura do pintor moderno atrasado”, “a figura do pintor em tempos de revolução” e “a figura do pintor em tempos de indiferença” e sobre o modo como elas escandem o tempo, permitindo a experiência presente do futuro – materializado pelo trabalho – retornando ao passado.

Delirantes, todos os três pintores suportam-se no mundo, porque o reconstruíram num tour de force inigualável, recortando restos do velho mundo para a sua bricolagem; obtendo resultados diversos; voltando a ser e a produzir dentro das limitações do tempo em que vivem, ou em que pensam viver.

***

Na exposição, atualmente na Cavalo, Vijai intervém com veemência na mesma medida em que opta por deixar espaços abertos. Seu trabalho – de modo geral, mas especificamente nesta exposição – é, em benefício dos visitantes, “aerado”; em outras palavras, não fornece a chave de compreensão do conjunto exposto, fazendo com que as pessoas saiam inquietas (no melhor sentido do termo) por tudo aquilo que viram e pensaram. Impedidas (no melhor sentido do termo) pelos trabalhos, por sua montagem meio desencadeada no espaço expositivo, e pela ausência de um texto que, como tantas vezes acontece, apresente aquele conhecido didatismo que “explica” e que suaviza as inquietações que, por vezes, nem chegam a produzir sons – ou ruídos!

Vijai – me permitam a imagem meio extemporânea – não permite que os espectadores cheguem às suas casas, coloquem as suas cabeças pensantes em travesseiros, e que adormeçam tranquilos ao som das passagens mais doces de Schumann.

Seu texto e a sua arte têm alcance político; e os pontos que permanecem sensivelmente em aberto, apenas potencializam a sua intervenção e – especialmente – a criação de um espaço de entrada em seu trabalho.

Nos parece que, aí, há algo em sua produção que vai ao encontro de algumas reflexões presentes no recente “Arte não é informação”, de Luiz Camillo Osorio, publicado nesta mesma plataforma: diante dos trabalhos de uma dada exposição “o fundamental é, acima de tudo, ver as obras, perder tempo vendo, reparar, olhar, falar sobre o que está sendo visto (ou imaginado), destacar as especificidades e o que interessa ou não nas obras. Deixar algum eventual desamparo atuar e saber lidar com ele no enfrentamento da arte”.

A ideia de “perder tempo”, ou a de lidar com o “eventual desamparo” provocado por um determinado trabalho está presente em “od danas do sjutra”, de Vijai Patchineelam, para aqueles que tiverem olhos para ver.

A exposição apresenta um percurso, permite que se intua o seu processo e mesmo concede alguns pontos de pouso; nestes, mediante algum trabalho, a pergunta, ou a frase antes inconclusa poderá ser preenchida, tal qual achado único que, porventura, um visitante venha a encontrar. Naturalmente, nenhuma garantia de verdade interpretativa, mas poderia haver chamado mais sedutor oriundo em um trabalho?

Pensamos que, aqui, se faz outro ponto de contato com o referido texto de Camillo: “O não-saber que nos convoca é raro, mas é ele que caracteriza a experiência estética, a potência sem nome que nos faz sentir e pensar sem necessariamente já-saber e que vai constituindo em ato novas formas de saber. É justamente no intervalo entre percepção, reconhecimento e saber que entra em cena a imaginação, a faculdade que nos faz ir além do sabido e a arriscar novas possibilidades de saber”.

Ainda na esteira de uma citação que Camillo faz de um dos diálogos platônicos – Fedro – , talvez passando por Derrida, “todo remédio é também veneno”. Provocativamente, é por aqui que terminaremos nosso texto.

Há, talvez, algo de interessante na generosidade daqueles que, como os que aplicam bálsamos, reduzem as aflições de alguns visitantes com explicações mais fechadas e totalizantes. Deixar o visitante aflito apenas com o “veneno” pode mantê-lo ainda mais afastado de um campo que não domina.

Mas, não esconderemos aqui, de nossa parte, uma certa tentação em mantermos o “remédio” na prateleira e deixarmos que o visitante prove do veneno. Isto não necessariamente o afastará da arte e das exposições e, talvez, o coloque em uma trilha mais interessante. E também há veneno em Schumann.

SOBRE O AUTOR


Guilherme Gutman
é crítico e curador, além de médico psiquiatra e psicanalista e professor da PUC-Rio e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, ambas no Rio de Janeiro.



O PIPA respeita a liberdade de expressão e adverte que algumas imagens de trabalhos publicadas nesse site podem ser consideradas inadequadas para menores de 18 anos. Copyright © Instituto PIPA